Publicado 01 de Março de 2015 - 5h30

Perto do aniversário de dois anos das manifestações que tomaram o País contra o aumento de tarifas do transporte público, corrupção e gastos com a Copa do Mundo, o Brasil poderá reviver movimentos populares novamente nas ruas das principais cidades no próximo dia 15 de março.

Setenta e quatro dias depois de começar o segundo mandato e passando por um momento delicado no setor econômico e por escândalos envolvendo a Petrobras, a presidente Dilma Rousseff (PT) enfrenta na internet uma onda pró-impeachment, que tem mobilizado mais de 1 milhão de pessoas. No dia 13, a Central Única dos Trabalhadores (CUT) realiza a marcha dos trabalhadores, reivindicando direitos da classe trabalhadora, a reforma política e protestando contra a crise na Petrobras.

Na Região Metropolitana de Campinas (RMC), pelo menos seis cidades estão com atos programados para o dia 15, e somam mais de 35 mil pessoas confirmadas por meio de redes sociais. Em Campinas, 22 mil organizam concentração no Largo do Rosário, no Centro. Já em Americana, até a última sexta-feira, 7,7 mil pessoas haviam confirmado presença. Outras cidades como Jaguariúna, Vinhedo e Indaiatuba programam eventos para a data.

Entretanto, para os especialistas consultados pelo Correio, por mais que as ruas fiquem tomadas pelos gritos de impeachment, é remota a possibilidade da abertura de um processo para impedir que Dilma termine o seu segundo mandato. Ou seja: por mais sérias que sejam as acusações dos delatores da Operação Lava Jato — deflagrada em março do ano passado e que investiga esquema de lavagem de dinheiro envolvendo a Petrobras, grandes empreiteiras e políticos —, até agora não há qualquer prova de que a presidente da República tenha sido conivente com as ações praticadas na empresa estatal.

“Acredito que ainda temos uma certa frustração das eleições, e isso tem despertado a oposição. A mobilização é legítima, mas enquanto não tiverem provas suficientes que mostrem envolvimento direto da presidente no esquema, essa situação fica apenas no movimento, mas que tende a crescer à medida em que novos escândalos aparecerem”, avalia Gerson Leite de Moraes, professor de filosofia política e ética na Universidade Presbiteriana Mackenzie Campinas. Para ele, a oposição não deveria “gastar um cartucho” nesse momento.

Na prática, qualquer cidadão pode entrar com uma denúncia contra a presidente por crimes de responsabilidade, mas cabe ao presidente da Câmara dos Deputados julgá-la procedente e abrir uma comissão especial para analisar o pedido. Para que o processo de impeachment seja aberto, dois terços dos deputados devem votar a favor da sua instalação. O Senado então deve decidir, na mesma proporção, se o mandato pode ser interrompido ou não.

Porém, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), já deixou claro na última semana que não vê espaço para a discussão de um possível impedimento. “O clima político na Câmara é desfavorável, mas o presidente vai utilizar essa situação como uma moeda de troca com o governo”, aponta Moraes. Desde 2011 a Câmara Federal arquivou 12 solicitações de abertura de processo contra a presidente.

Ruas esvaziadas

Para o professor de ciências políticas da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) Valeriano Costa, o fenômeno que ocorre nas redes sociais expõe um setor mais radical da sociedade, que aproveita o momento de fragilidade do governo Dilma para a mobilização. “São setores radicais que não apareciam, por exemplo, nos mandados do ex-presidente Lula e no primeiro mandato de Dilma, quando a popularidade de ambos estavam em alta”, destaca.

Para o especialista, o impeachment depende do clima político, e para ele o PSDB, principal partido de oposição ao PT, não arriscará qualquer investida nesse sentido. “Se der errado, o PSDB se passará por golpista, por isso acredito que o momento ainda é muito nebuloso”, diz Costa. Sobre a presença de manifestantes nas ruas, o professor não acredita que passem de mil pessoas em Campinas, e de 10 mil em São Paulo. “Acho que é uma demanda relativamente minoritária. E caso haja a estabilização da economia e o processo do Petrolão entre numa rotina jurídica, até o meio do ano esse movimento contra a Presidência tende a diminuir”, avalia.

Posições

O professor da rede pública de ensino de Campinas, Hamed Bittar, de 36 anos, membro ativo do Sindicato dos Professores, justifica seu posicionamento contra o impeachment da presidente justamente pela falta de prova de crime de responsabilidade contra o que está previsto na Constituição. “Infelizmente vivemos em uma sociedade que acredita em tudo o que alguns setores da mídia propagam. Isso mostra uma despolitização em consequência da precarização do ensino público”, acredita Bittar. “Sou a favor de que punam os culpados pelo esquema de corrupção na Petrobras, mas não a empresa que gera emprego a muitas pessoas. Pois senão a empresa enfraquece e abre brecha para a especulação internacional”, avalia o professor.

Já o estudante Carlos Renato Camargo, de 20 anos, deverá participar das manifestações em Campinas no dia 15. “Avalio que há subsídios que possam resultar no impeachment de Dilma, sim. Na essência do PT (Partido dos Trabalhadores) a proposta era o trabalhador, mas hoje a última coisa que fazem é governar para os trabalhadores”, aponta. Para Camargo, que prestará vestibular para Medicina, não existe governo perfeito, “todos cometem atitudes ilícitas”. “No meu ponto de vista o governo do PSDB age com um pouco mais de transparência. Dentro de suas limitações o partido estabilizou a economia no governo de Fernando Henrique Cardoso”, disse.

O coordenador da subsede da CUT-Campinas e região, José Tavares Gomes, diz que por volta de 25 ônibus deverão sair de Campinas rumo à Avenida Paulista, em frente ao prédio da Petrobras, no dia 13. “A CUT não permitirá que a Petrobras, patrimônio do povo brasileiro, seja desconstruída por vontade de especuladores internacionais. Para defender os direitos de todos os brasileiros vamos às ruas”, afirmou.

SAIBA MAIS

No crematório, os corpos são submetidos a temperaturas de até 1.000°C. Os gases do processo descem até uma câmara secundária, por meio de uma passagem que os força para baixo. Dessa forma, não há risco de contaminação do solo e, por isso, o sistema é considerado uma opção ambiental melhor que o cemitério. Antes de ser incinerado, a legislação determina que o corpo permaneça 48 horas dentro de câmaras frias. Depois disso é levado ao forno e em 90 minutos se torna cinza. Do ponto de vista ambiental, a incineração é considerada menos impactante que o enterramento dos corpos, especialmente porque não tem o necrochorume como resíduo.