Publicado 01 de Março de 2015 - 5h30

Já estou beirando os quase setenta anos e ainda tenho discernimento. Sei bem a diferença entre o que é claro e escuro; sei também o que é viver em uma democracia e durante uma ditadura (vivi isso por 21 anos, como alguns milhões de brasileiros); e bem sei a diferença de um ladrão e de uma pessoa honesta. A mim basta entender o gelo e o fogo; o ódio e o amor; entre o estar e a saudade – e bem acho que me fiz entender ao raro e digníssimo leitor.

Jamais encontrei uma única razão para que os pré-setentistas ministros do Supremo Tribunal Federal fossem compulsoriamente aposentados quando atingissem tal idade. E, agora, a Câmara Federal está disposta a aprovar um projeto de emenda constitucional, pejorativamente apelidado de PEC da Bengala por ilustres mancheteiros dos nossos grandes jornais, o que, em si, não quer dizer absolutamente nada além da ignorância aplicada em caixa alta ou linha fina.

O ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, criticou o projeto que estende de 70 para 75 anos a idade de aposentadoria compulsória para ministros de tribunais superiores. “Sou contra”, disse ele, ao ser questionado sobre o projeto de emenda constitucional. E mais disse, se referindo ao STF: “Ali não é lugar para ficar 20 anos. Ali, 12 ou 15 anos está bom demais, senão fica muito viciado. Tem que mudar”, afirmou o ministro, taxativamente.

Joaquim Barbosa, o ex-presidente do STF, sem dúvida honrou a toga que vestiu para ajudar a meter na cadeia uma corja de petistas que corromperam o ideal republicano da democracia brasileira que vinha roubando dinheiro público e comprando apoio político para tanto. Mas se aposentou antes de completar setenta anos. É um direito dele, é claro, querer cair fora de uma instituição que faz parte de um dos três pilares da República, o Judiciário. Ou por ter perdido esperanças, paciência, ou, simplesmente, para curtir a vida como bem ele a merece. Mas afirmar que um juiz de setenta anos não tem mais condições técnicas para analisar uma peça jurídica é algo que ofende até mesmo o velho pedreiro que levanta um muro reto, sem fio de prumo, apenas contando com a sintonia fina de seus olhos experimentados em anos e anos de bom ofício. Exemplo chulo? Ora, quem já lidou com jovens pedreiros sabe bem os muros que colheu. E que tal o metalúrgico de bela barba e cabeleira negra que virou presidente da república, hein?

É certo que os canalhas também envelhecem (por Rachel de Queiroz), mas ainda não se sabe se os ladrões de prateados cabelos que assaltaram a Petrobras serão efetivamente punidos pelo que fizeram contra o povo brasileiro.

Os meus pelos e cabelos também estão prateados, mas isso apenas a mim interessa. E esses ladrões mais parecem ser tios e avôs bondosos, mas, são ladrões que roubaram bilhões de reais da merenda escolar de nossas crianças, de remédios de nossos doentes, de vagas em creches, sem contar com o prejuízo que causaram à infraestrutura nacional, tão carente de melhores estradas, modernização de nossos portos, aeroportos e linhas ferroviárias.

Enfim, desde priscas eras, quando o General Osório ainda era cabo (essa tirada é do Nã), nossos pais e professores nos ensinaram a respeitar os mais velhos, sábios que eram. Mas para o ex-presidente do STF Joaquim Barbosa, um velho ministro está “viciado em seus afazeres constitucionais”. E isso me leva a pensar que, beirando os setenta anos, e com quarenta e dois anos de profissão, devo me aposentar antes que me torne um “viciado” em críticas políticas, ou de gaguejar palavras românticas sobre as pessoas que amo, de desnudar a alma da minha cidade, falando dessa gente toda que trabalha e paga impostos, defendendo-a para que pessoas de cabelos prateados não as roubem, contribuintes que são com o salário de todos os juízes de cabelos negros e prateados, para que estes defendam a Pátria contra os também muito experientes corruptos de cabelos prateados ou tinturados.

Pelo visto, Joaquim Barbosa fez bem em se aposentar antes dos setenta anos, bem antes de ferir com alguma estupidez acadêmica a sua irretocável biografia. E devo dizer ao distinto raro leitor que sou viciado em democracia. E, é claro, em lógica.

Bom dia.