Publicado 24 de Março de 2015 - 5h00

Manuel Carlos - correio

Cedoc

Manuel Carlos - correio

Diz a lenda que Rui Barbosa, ao chegar em casa, ouviu um barulho vindo do seu quintal. Chegando lá, constatou haver um ladrão tentando levar seus patos de criação.

Aproximou-se vagarosamente do indivíduo e, surpreendendo-o ao tentar pular o muro com seus amados patos nos braços, disse-lhe: Oh, bucéfalo anacrônico! Não o interpelo pelo valor intrínseco dos bípedes palmípedes, mas sim pelo ato vil e sorrateiro de profanares o recôndito da minha habitação, levando meus ovíparos à sorrelfa e à socapa. Se fizeres isso por necessidade, transijo; mas se é para zombares de minha elevada prosopopeia de cidadão digno e honrado, dar-te-ei com minha bengala fosfórica bem no alto da sua sinagoga, e o farei com tal ímpeto que te reduzirei à quinquagésima potência que o vulgo denomina nada.

E o ladrão confuso disse: Doutor, eu levo ou deixo os patos?

 

A dificuldade daquele maldito gatuno em compreender o que lhe estava sendo dito por Rui é a mesma de nossos governantes em compreender o que lhe está sendo dito pelo povo. A diferença, todavia, é que os cidadãos dignos, honrados e fartos de tanta bandalheira não estão se manifestando com um linguajar tão difícil de ser compreendido.

 

A carga tributária imposta ao povo brasileiro, que consome mais da metade dos salários, é insuportável, especialmente quando constatamos que os governos investem pouco e muito mal na saúde, educação, segurança pública e infraestrutura.

Grande parcela do que é arrecadado está sendo consumida por uma máquina governamental enorme, mas emperrada e ineficiente.

 

A corrupção é desenfreada e o Brasil ocupa uma das primeiras colocações no ranking mundial. O transporte coletivo, além de ser de péssima qualidade, é caríssimo e o pedágio cobrado em nossas estradas, inclusive em trechos urbanos, atinge todas as atividades econômicas.

 

Governar é saber priorizar, mas não se investiu nos portos e sim em grandes estádios de futebol. Estão importando médicos de Cuba, como se o problema da saúde fosse esse.

 

Por não aguentar mais toda essa situação o povo acordou e foi para as ruas e para as estradas de maneira pacífica, mas devemos lembrar que em passado recente os pequenos avanços conquistados foram creditados aos vândalos, que quebrando tudo assustaram os governantes.

 

A corrupção se instalou de maneira avassaladora e a pressão popular é muito grande. Contudo, no meio da crise nossa presidente e nossos parlamentares custam a reagir.

 

Nossos governantes estão a merecer, isto sim, uma solene bengalada no alto do epicrânio para parar de zombar dos cidadãos dignos e honrados de nosso País.