Publicado 25 de Março de 2015 - 13h33

A vida escolhe caminhos muito originais para nos apresentar às coisas que são significativas e que passamos a amar.

Penso nisso quando revejo a forma como ela, pouco a pouco, me foi apresentando à música. Eu não venho de uma família de músicos, razão pela qual esta apresentação não me pôde ser feita de modo natural e espontâneo, por algum parente que tocasse ou que tivesse formação musical. Entretanto, venho de uma família sensível e dedicada, que foi capaz de ir ao encontro de meus anseios e de minhas aspirações.

Foi assim que, quando eu tinha por volta de sete anos, minha mãe comprou para mim uma fita cassete (mídia tão popular naquele tempo) com uma gravação do pianista Nelson Freire tocando os 24 prelúdios de Chopin, Opus 28. Aquela não poderia ter sido uma escolha mais acertada! Eu havia acabado de ingressar no estudo do piano, e, ao ouvir a fita pela primeira vez, fiquei verdadeiramente encantada, o que me fez reouvi-la inúmeras vezes nos dias e meses que se seguiram. Na época, eu não sabia direito quem era Chopin, nem exatamente o que era um prelúdio, mas tive a chance de conhecer a variedade de cores e de sonoridades que se poderiam extrair do piano, instrumento que eu estava começando a praticar.

À medida que eu progredia nos estudos, fui conhecendo outras peças, não apenas aquelas que eu tocava, ainda muito elementares, mas também aquelas tocadas por meus colegas de estudo. Conheci, assim, algumas sonatas de Beethoven, algumas obras de Debussy e outras de Chopin.

Coincidentemente, o início da minha formação musical se deu no ano em que se comemorava os cem anos de nascimento de Villa-Lobos, em 1987. Por esta ocasião, foi promovido, na escola em que eu estudava, um recital em homenagem a ele. Por minhas mãos, e pelas de meus colegas, pude conhecer o repertório do compositor, repleto de alusões a cantigas de roda e a canções infantis.

Quando eu me aventurei pela primeira vez a estudar uma Sonata de Mozart, especificamente a Sonata KV. 280, em fá maior, recebi uma fita em que o pianista Glenn Gould tocava esta e outras sonatas com numeração próxima a ela. Isso me fez conhecer as melodias e padrões típicos de Mozart, bem como me fez aprofundar no sentido da forma sonata.

O rádio também teve um papel crucial na minha formação de repertório. Foi por meio do programa Intermezzo, então apresentado na extinta rádio Morena de Campinas, que eu fui introduzida às obras e biografias de diversos compositores.

Em 1991, descobri que a Rádio Cultura FM de São Paulo, exclusivamente dedicada à Música Erudita, contava com uma transmissão em Ondas Curtas. Devido à distância, era a única forma de ter acesso a ela aqui em Campinas. Lembro-me do quanto fiquei feliz ao conseguir sintonizá-la e ouvir seus diversos programas sobre música clássica. Em função das características do rádio em ondas curtas, a transmissão era muito ruim, cheia de estáticas e instabilidades, sendo um pouco mais audível durante o dia. Mesmo assim, eu ouvia a rádio quase todo o tempo, ávida por absorver o conteúdo dos programas didático-musicais.

Todas as obras que fui conhecendo no decorrer da minha vida me trazem ainda hoje doces recordações, e funcionam como uma trilha sonora do meu percurso. Estou ainda no meio do caminho, curiosa por saber quais surpresas ele adiante me reserva!