Publicado 26 de Março de 2015 - 21h21

Parentes das 150 vítimas do acidente aéreo, provenientes de 18 países, em cerimônia realizada nesta quinta-feira (26)

AFP

Parentes das 150 vítimas do acidente aéreo, provenientes de 18 países, em cerimônia realizada nesta quinta-feira (26)

A investigação sobre a catástrofe do Airbus A320 da companhia Germanwings nos Alpes franceses deu nesta quinta-feira (26) uma guinada inesperada, com a revelação pela justiça francesa de que o copiloto teria provocado deliberadamente a queda do avião.

 

A revelação espetacular, após a análise de uma caixa-preta encontrada na terça-feira no local da catástrofe, coincidiu com a chegada à França de parentes das 150 vítimas, que ficaram sabendo em primeira mão das informações, antes da entrevista coletiva do promotor público de Marselha, Brice Robin, no aeroporto de Marignane (sul da França).

 

As motivações do copiloto, Andreas Lubitz, alemão de 28 anos, não foram determinadas, mas o promotor destacou que ele não estava fichado como terrorista, informação confirmada por Berlim.

A polícia revistou nesta quinta-feira as duas residências do jovem, em Dusseldorf e em Montabaur, no oeste da Alemanha.

 

"Esta tragédia ganha uma dimensão completamente inimaginável", declarou a chanceler alemã, Angela Merkel, acrescentando que "isto vai além da compreensão", em uma curta declaração à imprensa, na sede da chancelaria, em Berlim.

 

O chefe do governo espanhol, Mariano Rajoy, se declarou, por sua vez, "comovido" com as revelações da investigação. Entre as 150 vítimas da tragédia, 50 eram espanholas e 75, alemãs.

'Desejo de destruir o avião'

 

O anúncio do promotor francês causou consternação na Alemanha.

"Queria saber onde vivia o assassino", gritava nesta quinta-feira Hans-Dieter, um morador de 50 anos, perto da casa da família Lubitz em Montabaur.

"Não há o menor indício sobre o que levou o copiloto a cometer um ato tão terrível", afirmou Carsten Spohr, diretor da Lufthansa, matriz da Germanwings.

 

"Até mesmo em nossos piores pesadelos, não poderíamos imaginar semelhante tragédia", disse, em meio a soluços.

Lubitz, que tinha 630 horas de voo, ficou sozinho na cabine após a saída do piloto, acionou o botão de descida e não abriu a porta ao piloto, impedindo seu retorno ao cockpit.

 

Na caixa-preta "são ouvidos vários apelos do comandante para pedir o acesso à cabine, mas não houve nenhuma resposta do copiloto", acrescentou.

Lubitz, cuja respiração regular é ouvida até o final da gravação, não respondeu tampouco aos chamados da torre de controle, que notou a descida anormal da aeronave.

"A interpretação mais verossímil é que seu gesto pode analisar como uma vontade de destruir o avião", assegurou Brice Robin.

 

O copiloto trabalhava para a Germanwings desde setembro de 2013.

Quase 200 parentes das 150 vítimas fatais chegaram nesta quinta-feira à região da tragédia e foram levados para o local do acidente, de maneira discreta e longe da imprensa.

O promotor garantiu aos familiares que os passageiros morreram no ato e que não perceberam a queda do avião até o último momento.

 

Nos últimos segundos antes do choque contra a montanha, a gravação de 30 minutos permite ouvir o alerta, que destaca a proximidade do solo, e os gritos dos passageiros.

Após a decolagem em Barcelona, nos 20 primeiros minutos de gravação são ouvidas conversas descontraídas entre o piloto e o copiloto.

 

Depois de algumas falas do piloto sobre o pouso em Düsseldorf (Alemanha), o comandante deixou a cabine. Ele não conseguiu retornar ao local, apesar dos apelos e socos na porta, que só pode ser aberta por dentro.

Na quarta-feira, as autoridades francesas informaram que não privilegiavam a pista terrorista.

Após as revelações desta quinta-feira, várias companhias aéreas, inclusive a britânica Easyjet, primeira empresa de baixo custo da Europa, anunciaram que imporão a presença contínua de duas pessoas na cabine de comando durante os voos.

Horas depois, o Canadá decretou a entrada em vigor "imediata" desta medida para todas as empresas do país e a federação alemã do setor aéreo assegurou que também a aplicará.

 

Resgate demorado

Os primeiros pedaços de corpos das vítimas foram transportados na quarta-feira pelos equipes de emergência.

Nesta quinta-feira foram retomadas as operações de resgate dos corpos e de busca da segunda caixa-preta, com os dados do voo. Médicos legistas acompanhados por policiais com experiência em trabalhos em montanhas foram transportados de helicóptero para o local da tragédia.

Segundo tenente-coronel Xavier Vialenc, a polícia tenta recuperar tudo que é possível, mas a tarefa será "muito longa", de pelo menos 15 dias.

As famílias das vítimas podem se reunir nas capelas instaladas nas cidades de Seyne-les-Alpes e Le Vernet.

 

Os jornalistas são mantidos à distância para preservar a intimidade das famílias. A polícia recebeu ordem de impedir qualquer contato entre as famílias e a imprensa.

Os parentes serão solicitados a fornecer mostras de DNA para ajudar na identificação dos pedaços de corpos. O processo deve durar dias ou semanas, segundo promotor. A Interpol enviou especialistas para ajudar na tarefa.

As 150 vítimas do acidente aéreo provenientes eram de 18 países.