Publicado 22 de Março de 2015 - 5h00

Por Maria Teresa Costa

Vista de parte da represa Atibainha, em Joanópolis: apesar de recuperação desde o fim do ano, situação permanece crítica no Sistema Cantareira

César Rodrigues/ AAN

Vista de parte da represa Atibainha, em Joanópolis: apesar de recuperação desde o fim do ano, situação permanece crítica no Sistema Cantareira

O Dia Mundial da Água, que é celebrado neste domingo (22), chega com um alerta preocupante para uma região de 30 milhões de pessoas que vivem nos arredores de São Paulo, Campinas, Santos, Vale do Paraíba e Sorocaba: a segurança hídrica dessa macrometrópole vai demorar pelo menos dez anos para ser atingida.

 

A crise que se estabeleceu no Sistema Cantareira a partir do Verão de 2013, e que se prolonga até agora, levou o governo a aumentar a retirada de água de outros sistemas para evitar o racionamento na Grande São Paulo.

 

“O Cantareira puxou para baixo o restante por causa do descaso com a segurança hídrica. A gestão de risco foi inadequada e os órgãos gestores falharam em adotar medidas diante da previsão de seca que já era esperada”, afirmou o pesquisador do Instituto de Economia da Unicamp, Ademar Romeiro.

“Não podemos culpar a seca pela crise, porque ela era perfeitamente possível”, afirmou, na terça-feira, o pesquisador no Fórum Sustentabilidade Hídrica, promovido pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Para o especialista em recursos hídricos da universidade, Antônio Carlos Zuffo, a recuperação da segurança hídrica vai depender muito do volume de chuvas e de como os sistemas serão administrados. “Obras poderão reduzir o tempo estimado de dez anos”, afirmou.

Pesquisadores fizeram muitas criticas à gestão dos recursos hídricos paulista. Para José Galizia Tundisi, da Academia Brasileira de Ciências, a governança falhou. O que vem pela frente poderá, no entanto, ser mais difícil.

 

O governo trabalha com a possibilidade de a estiagem de 2015 ser pior que a do ano passado e por isso, essa semana, o Comitê de Crise já começa a preparar um plano de contingência para o enfrentamento da situação na Grande São Paulo.

 

“Estamos reforçando os sistemas”, afirmou o coordenador de recursos hídricos da Secretaria de Recursos Hídricos, Rui Assis Brasil.

 

O diretor técnico da Sanasa, Marco Antonio dos Santos: falta de regrasPara o diretor técnico da Sanasa, Marco Antonio dos Santos (foto), os gestores do sistema, a Agência Nacional de Águas (ANA) e o Departamento de Água e Energia Elétrica (Daee), não seguiram as regras da curva de aversão de risco, que define quanto de água se pode tirar do sistema em relação ao volume armazenado.

 

“Continuou-se tirando água do mesmo jeito que antes. Os comitês de bacia ficaram fora dessa discussão. Estamos nessa crise porque faltou respeitar as regras operativas do sistema”, afirmou.

 

Um dos problemas de governança apontados por Ademar Romeiro foi o fato de, há dois anos, a Sabesp oferecer a água do Cantareira para grandes consumidores, inclusive incentivando o não uso de águas subterrâneas, sabendo que o sistema estava sendo fragilizado.

 

“Existe uma falha tremenda de governança dos recursos hídricos que não pode ser esquecida. De modo algum podemos culpar a seca”, disse.

 

O diretor da Sanasa lembrou que estudos mostram que a Macrometrópole vai precisar aumentar a disponibilidade hídrica em 60m3/s até 2035 e será difícil conseguir essa água. A Bacia do Alto Tietê precisará de mais 16m3/s e as Bacias PCJ, na região de Campinas, de mais 18m3/s.

“Nós já montamos nosso plano de contingência, estabelecendo faixas de emergência”, afirmou.

 

A faixa amarela vale quando o rio Atibaia estiver com vazão entre 2,5m3/s e 3,5m3/s. Nessa situação, a cidade será dividida em dois blocos e cada um terá 24 horas com água em 24 horas sem.

 

Na faixa laranja, a cidade será dividida em três blocos quando o rio estiver com vazão entre 2m3/s e 2,5m3/s e cada um ficará com 24 horas de água e 48 horas sem e na faixa vermelha, quatro áreas da cidade ficarão alternadamente com 24 horas abastecida e 72 horas sem água.

 

Nível mais crítico 

A oferta de água para a região do PCJ é de 408 mil litros anuais por habitante, em período de estiagem.

 

Parece muito, mas a Organização das Nações Unidas (ONU) considera a oferta crítica quando estiver abaixo de 1,5 milhão de litros ao ano por habitante.

 

Essa situação torna a Bacia PCJ a terceira mais crítica do Estado de São Pulo, ficando atrás apenas da Bacia do Alto Tietê, onde a oferta é de 200 mil litros por habitante ao ano e da Bacia do Turvo.

 

Além de enviar água para São Paulo, a bacia do Piracicaba ainda faz exportações internas de água, com a transposição águas da Bacia Hidrográfica do Piracicaba (com recursos de sua sub-bacia do Rio Atibaia), para as dos rios Jundiaí para garantir o abastecimento de Jundiaí e do Capivari para assegurar o completo abastecimento de Campinas.

 

O mesmo ocorre, internamente, da sub-bacia do Atibaia para a do Baixo Piracicaba e da sub-bacia do Jaguari para as do Atibaia e do Baixo Piracicaba, segundo o relatório.

 

O governo do Estado vai aumentar a reserva de água no Sistema Cantareira com a transposição do Rio Paraíba do Sul. A alternativa visa garantir água para a Região Metropolitana de São Paulo.

 

A licitação da obra está suspensa pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE), que pediu à Sabesp para refazer o edital. Prevista para estar pronta em 2016, a obra deve atrasar. A obra consistirá na construção de uma adutora, de cerca de 20 quilômetros de extensão, para ligar a represa Jaguari à represa Atibainha.

 

Existem dois rios Jaguari, um próximo do outro. Um, estadual, é importante afluente do Rio Paraíba do Sul. Antes de chegar ao Paraíba, ele é represado entre São José dos Campos e Jacareí, alagando áreas também em Igaratá e Santa Isabel. Ali existe uma usina hidrelétrica, subutilizada. É dessa represa que o governo do Estado quer tirar água para abastecer São Paulo. O outro Rio Jaguari é federal, nasce em Minas e forma uma represa no Cantareira. 

Escrito por:

Maria Teresa Costa