Publicado 25 de Fevereiro de 2015 - 19h22

Por Milene

Bruna Mozer

DA AGÊNCIA ANHANGUERA

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Fotos: César, feitas dia 24/02.

Durante a campanha eleitoral, eles percorreram todos os cantos da cidade em busca de visibilidade. Agora, após terem seus mandatos cassados pela Justiça, os ex-prefeitos Diego De Nadai (sem partido), de Americana, e Edson Moura Júnior (PMDB), de Paulínia, abandonaram os holofotes e decidiram pela reclusão e pelo afastamento da política.

A saída de cena, gerou boatos e as mais diversas teorias do que os ex-governantes têm feito por aí. As viagens a Miami são os paradeiros mais comuns comentados pelos moradores desses municípios.

Sem uma transição do governo, com equipes formadas para receberem informações da administração anterior, os novos prefeitos ainda trabalham para conseguir entender o que se passam nessas prefeituras e aproveitam para atacar os adversários.

Em Americana, Diego deixou o governo em julho do ano passado após ser cassado pela Justiça acusado de ter feito “caixa 2” durante a campanha eleitoral em 2012. Ele cumpria seu segundo mandato. Assumiu o seu lugar o presidente da Câmara, Paulo Chocolate (PSC), por duas vezes até que uma nova eleição fosse realizada. Em dezembro, Americana elegeu Omar Najar (PMDB) como novo prefeito.

Foi então que Diego ficou recluso por pelo menos quatro meses até dar uma entrevista por e-mail a um jornal local. Apesar de negar evitar locais públicos, ele nunca mais foi visto ou flagrado andando pela cidade.

A política também foi deixada de lado. Em entrevista ao Correio, por e-mail, na última quarta-feira, Diego disse que tem evitado o assunto. “Tenho falado pouco de política, mas quando o faço, é com amigos”, disse.

Hoje sem partido, o ex-prefeito também afirmou que recebeu alguns convites para filiação – sem citar quais –, mas que “não tem que pensar nisso” neste momento.

Antigos aliados do ex-prefeito, ouvidos pela reportagem, disseram que esse assunto realmente tem sido deixado de lado e que não acreditam que as siglas tenham interesse em receber o ex-prefeito após o desgaste público pelo qual passou este ano.

Amigo pessoal de Diego e ex-presidente do PCdoB de Americana, Davi Ramos nega ter feito qualquer convite. “Tenho evitado falar sobre política. Não falamos nada sobre filiação.” O partido Questionado se o receberia de volta, disse que ainda é cedo para essa questão. Antes de ser cassado, Diego cogitava deixar o ninho tucano para integrar o PCdoB.

Expulso do PSDB, o comandante do partido em Americana, o deputado federal Vanderlei Macris, tenta desvincular o partido e a sua imagem a do prefeito. Para isso, tem se aproximado cada vez mais do atual chefe do Executivo, Omar.

Em resposta, Diego disse por e-mail que também não quer relação com a família Macris. “Eu é que não quero vínculo com essas pessoas. Acredito que política se faz fazendo o bem para as pessoas e se não for assim prefiro ficar distante.”

Expostos pela crise, os seus principais secretários também deixaram os holofotes. No entanto, mantém contatos esporádicos com o ex-chefe para abastecê-lo de informações, diante da exposição de problemas na prefeitura frequentemente revelados pelo atual governo.

“Mantemos contato para falarmos de coisas da cidade, coisas que têm sido faladas”, disse o ex-secretário da Fazenda, José Antônio Patrocínio.

O ex-prefeito nega que esteja vivendo fora, como sugerem as especulações. Por e-mail disse que “nasceu em Americana e quer morrer em Americana”. Afirmou viver em seu apartamento e trabalhando em seu escritório de advocacia.

Na última terça-feira, a reportagem esteve no prédio de sua propriedade em Americana, no Jardim Glória. Segundo o porteiro, somente a mulher dele, Juliana Marin De Nadai, estava no imóvel.

De acordo com informações de pessoas que circulam pelo edifício, parentes dela e do ex-prefeito costumam fazer visitas, principalmente após o nascimento da primeira filha do casal, em dezembro. No entanto, muitos afirmam que é comum Diego passar dias fora de casa e também fora da cidade.

Edson Moura Júnior

As mais diversas especulações também rondam a vida do ex-prefeito de Paulínia Edson Moura Júnior (PMDB) que sofreu sete cassações, por irregularidades em campanha, e deixou o cargo na prefeitura no começo de fevereiro após decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Depois disso, tanto ele, quanto seu pai, Edson Moura, não foram mais vistos pela cidade e pouco conversado com seus antigos aliados.

A reclusão levanta as mais diversas especulações em Paulínia, uma cidade marcada por rincha política entre a família Moura e o núcleo do atual prefeito José Pavan Júnior (PSB). Os boatos na cidade dão conta que os Moura vivem em Miami, onde estariam construindo um shopping.

O Correio esteve na casa de propriedade da família Moura, no bairro Nova Paulínia, na última terça. Uma funcionária da casa, pelo interfone, disse que os dois não estavam e não sabia dizer quando voltam. O marido de uma sobrinha de Edson Moura disse que eles moram na residência e também afirmou que não havia ninguém na casa naquele momento.

Em um condomínio de propriedade da família no bairro Taquaral, em Campinas, uma outra funcionária disse, também pelo interfone, que no local funciona apenas o escritório para recebimento e pagamento de contas e que pai e filho não moram mais lá.

No condomínio, de alto padrão, segundo a própria funcionária, há um museu em homenagem ao patriarca Edson Moura, mas que só pode ser visitado com autorização dele. No espaço teriam fotos e objetos com a sua história.

A dificuldade de proximidade com os Moura é uma das características da família. Mesmo no governo, dão raras entrevistas à imprensa e costumam se comunicar por meio de interlocutores. Com a saída da prefeitura, o distanciamento é ainda maior.

Funcionários públicos afirmam que dificilmente são vistos circulando pela prefeitura.

Antigo aliado e ex-líder de governo na Câmara, o atual presidente do Legislativo, Sandro Caprino (PRB), diz que falou apenas uma vez por telefone com Moura Júnior desde que deixou a prefeitura. “Não faço ideia de onde esteja”, disse.

Uma ex-diretora do governo, que trabalhou com Edson Moura por mais de 20 anos, disse que após a cassação não teve mais notícia dos dois. “É complicado, cada um foi para um lado. É muito difícil ver eles”, disse. Com a saída de Moura Júnior, todos os comissionados foram exonerados.

A assessoria de Moura Júnior foi procurada para comentar o assunto, mas não retornou às ligações.

RETRANCA

Campinas passou por uma situação semelhante como a que ocorre agora em Paulínia e Americana. Em 2011, quando o prefeito Hélio de Oliveira Santos (PDT) foi cassado pela Câmara, com os desdobramentos do Caso Sanasa, passou um ano e oito meses sem dar qualquer declaração pública. Ficou em silêncio, evitou frequentar locai públicos que aumentaram as especulações em torno do seu paradeiro, como Miami, onde vivia uma de suas filhas na época, e em seu apartamento em São Paulo.

A sua primeira declaração ocorreu somente em abril de 2013, quando abriu as portas da sua casa, em Campinas, para uma entrevista ao Correio. Na época, além de se defender das acusações de corrupção na Sociedade de Abastecimento de Água e Saneamento (Sanasa), disse que preferiu a reclusão por quase dois anos por que o “silêncio é a arma dos inocentes”.

“É nele que você tem tempo para reflexão, tem tempo para pesquisa e investigação, tempo de estabelecer o estudo da trama, observar a trama e como se dá esse modelo de perpetuação de poder”, disse à época.

Depois disso, Hélio passou a ser atuante nas redes sociais. Em sua página no Facebook, frequentemente faz postagens de textos de filosofia, sobre as notícias e acontecimentos da cidade. Também usa o espaço para relembra as suas benfeitorias pela cidade e se defender. Diferente do tempo em que ficou de fora da vida política, agora expõe seus pensamentos e faz comentários, inclusive de sua pessoal, de suas filhas e netas.

POVO FALA

Americana

“Antes ele vinha na praça, falava com a gente. Agora, não sabemos de nada. Ninguém sabe” - José Roberto Brusco, comerciante.

“Muita gente fala coisa, critica o que aconteceu” - Pedro Batista, aposentado.

Paulínia

“O pessoal reclama muito do que aconteceu em Paulínia. Mas ninguém vê o ex-prefeito” - Jéssica Soares, atendente.

“As pessoas falam que está em casa e que foi para Miami. Todos merecem tirar férias, não é” - Terezinha Alves da Luz, monitora escolar.

ENTENDA

Paulínia:

Edson Moura Júnior (PMDB) foi cassado por irregularidades em campanha. Nas eleições de 2012, o ex-prefeito Edson Moura (pai) decidiu deixar a disputa porque tinha condenações por improbidade administrativa e, pela Lei da Ficha Limpa, se decidisse seguir em frente, poderia ter seu processo eleitoral anulado. Em seu lugar, ele colocou o filho, Edson Moura Júnior. A substituição foi feita 13 horas antes da votação. Moura Júnior venceu a disputa, mas não assumiu porque teve sua candidatura impugnada por causa da substituição. Em junho de 2013,o TSE decidiu pela volta de Moura Júnior à prefeitura. A partir daí, a Justiça Eleitoral passou a receber uma série de ações pedindo a cassação do prefeito. Entre os autores das ações estão o Ministério Público Eleitoral, candidatos que perderam as eleições e os partidos que eram das coligações derrotadas.

Americana:

Diego De Nadai (ex-filiado ao PSDB) foi cassado após decisão do TSE em julho de 2014. O motivo é que durante a campanha eleitoral de 2012, os candidatos mandaram confeccionar 75 mil exemplares de uma revista, denominada "Ações e Conquistas - Diego e o Querido Dr. Seme Sempre Juntos numa eterna aliança - Diego 45" , e declarado na prestação de contas que o material foi impresso ao preço unitário de R$ 2,00 - o que representaria um valor total de R$ 150 mil. No entanto, posteriormente, a gráfica teria apresentado quatro notas fiscais com valores diferentes: de R$ 4,66 por exemplar, subindo para R$ 350 mil o valor da despesa. A denúncia foi feita pelo partido adversário, PT. Com a saída, assumiu em lugar, por duas vezes, o presidente da Câmara, Paulo Chocolate (PSC). Em dezembro, uma nova eleição foi realizada em Americana que elegeu Omar Najar (PMDB) como prefeito.

Escrito por:

Milene