Publicado 27 de Fevereiro de 2015 - 5h30

Apesar do acordo assinado na madrugada de ontem entre governo e caminhoneiros pelo fim do protesto dos trabalhadores, os bloqueios continuaram ontem pelo País. Dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF) mostram que até as 11h30 havia 93 pontos de interdição. O último levantamento da polícia, divulgado ontem às 21h, revelou ainda um pequeno aumento, com cinco pontos a mais. Na terça-feira, eram 124 bloqueios. O foco de resistência, porém, será alvo do Ministério da Justiça, que anunciou multa de motoristas em caso de interrupção de trechos viários. A maioria dos bloqueios, 42% do total (ou 39 pontos de interdição de vias), ocorria no Rio Grande do Sul. A lista da PRF segue com Paraná (19 locais), Santa Catarina (14), Mato Grosso (9), Mato Grosso do Sul (7), Bahia (3), Ceará (1) e Minas Gerais (1).A proposta assinada pelo governo e por representantes de trabalhadores teve a adesão de 11 entidades de classe e garante a sanção integral da Lei do Caminhoneiro; carência de 1 ano para pagamento das parcelas de financiamento de caminhões pelo Finame e Pró-Caminhoneiro; elaboração de tabela referencial de frete por entidades representativas de caminhoneiros, transportadoras e embarcadores com mediação do Ministério dos Transportes; ausência de aumento de diesel para caminhoneiros por seis mesesIvar Schimidt, um dos líderes do Comando Nacional dos Transportes, alega que o governo está negociando com as pessoas erradas. Segundo ele, os ministros se reuniram com sindicatos e associações que não têm contato com os caminhoneiros que estão parados. Ontem, após o ministro da Secretaria Geral da Presidência, Miguel Rossetto, anunciar os termos do acordo, Schimidt disse que não foi ouvido pelo ministro e que as manifestações continuariam porque não atendem ao principal pleito dos trabalhadores, que é a redução em R$ 0,50 do preço do óleo diesel. Ele e outros cem líderes articulam a manutenção do protesto por meio de um grupo do WhatsApp. “Se o governo acha que as medidas vão acabar com bloqueios, é só esperar para ver”, disse, após o anúncio de Rossetto. “As medidas do governo não atendem o movimento. A paralisação continua”, afirmou. Já a Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos (CNTA), que participou das negociações com o governo, disse esperar sensibilidade dos caminhoneiros que estão parados. “Nossa expectativa é que a categoria se sensibilize com as conquistas e encerre o movimento”, afirmou o presidente da CNTA, Diumar Bueno, após fechar o acordo.Punição

O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, disse ontem que os líderes do movimento dos caminhoneiros que vieram conversar com o governo aceitaram as propostas do Executivo. A partir de agora, segundo ele, os caminhoneiros que continuarem obstruindo as estradas serão multados com valores entre R$ 5 mil e R$ 10 mil por hora.Os caminhões parados na pista serão identificados pela PRF e, com base nos dados obtidos pelos policiais, as multas serão emitidas. “A decisão do valor da multa não é do governo, é da Justiça, e a punição não está sendo imposta por mim, e sim por magistrados. Eu tenho o dever de fazer cumprir a lei”, disse o ministro. Cardozo disse que houve dificuldade para identificar os líderes do movimento. Aqueles que se apresentaram como líderes, de acordo com ele, saíram satisfeitos das negociações. “Não é simples identificar lideranças. Conversamos com todos os que se dispuseram a dialogar.” (Agência Estado e Agência Brasil)

Valor de produtos já registra aumento em Campinas

A greve de caminhoneiros que afeta o transporte de mercadorias em várias partes do País traz prejuízos para o bolso dos consumidores campineiros. Levantamento da Centrais de Abastecimento de Campinas (Ceasa) mostra que o valor do tomate aumentou 26% e o mamão 13,41% na última semana. Além da paralisação dos transportadores, a crise hídrica e a escassez na produção também influenciaram na variação no custo dos produtos. Na ponta, a diferença passou de R$ 3,00 no quilo do tomate e de R$ 1,00 no mamão em menos de dez dias.

Os consumidores reclamaram que tudo hoje é motivo para elevar os preços dos produtos. O jeito para economizar é comprar exatamente o volume que irá à mesa. Outra estratégia utilizada pelos compradores é substituir os produtos mais caros por outros mais em conta. O problema é que quase todos os hortifrutigranjeiros estão sofrendo reajustes de preços puxados, principalmente, pela estiagem que castiga o campo e traz o risco de desabastecimento para as cidades.

Em nota, a Ceasa informou que houve uma redução de 75% na oferta de tomate e mamão nesta semana no entreposto. Uma grande parcela do fornecimento dos dois alimentos é proveniente das regiões Norte, Nordeste e Sul, que foram impactadas pelos bloqueios realizados pelos caminhoneiros em greve. Na última quarta-feira, o quilo do tomate Débora extra era vendido por R$ 4,50 e o do mamão Formosa extra por R$ 2,20 no entreposto.

Representantes de varejões afirmaram que vários fornecedores informaram que estão perdendo pedidos em decorrência de compras que estão paradas nas estradas bloqueadas. Ainda não há desabastecimento, mas os comerciantes temem que uma duração mais longa da greve provoque a falta de alimentos. “A situação é preocupante porque muitos produtos, principalmente, frutas vêm de outras regiões do País. A sorte é que também há fornecedores locais. Ainda não há falta de produto, mas os preços estão subindo já faz um bom tempo”, disse o gerente do Hortifruti Fartura, Geraldo Matozinho da Silva.

Ele comentou que a greve foi mais um fator que pesou para a alta de preços. “Nesta semana, percebemos que houve uma nova alta nos preços de produtos como tomate e vagem. Nós estávamos comercializando o quilo do tomate italiano por R$ 3,99 e agora está R$ 7,99. A vagem saia por R$ 9,99 e passou para R$ 14,99. Não há como absorver as elevações no custo de tantos produtos e os operacionais como a energia elétrica. Os repasses acabam chegando no preço final.”

A proprietária do Varejão Abolição, Leila Brusco, afirmou que não registrou alteração de preços em decorrência da greve dos caminhoneiros. Contudo, ela também ressaltou que os preços estão subindo nos últimos dois meses. “As variações ocorrem por conta da seca que reduz a produção e provoca perdas no campo. Foram registradas várias altas.”

Os consumidores precisam fazer verdadeira ginástica no bolso para conseguir colocar comida na mesa. O preço do tomate em varejões da cidade variava ontem de R$ 4,00 a R$ 8,99, dependendo do tipo. O quilo do mamão Formosa tinha um custo de R$ 4,50 a R$ 5,00. “Tudo está mais caro. Atualmente, compro a quantidade exata que pretendo levar à mesa. Também substituo produtos mais caros por outros mais em conta”, afirmou a nutricionista Fabiana Garussi.

O engenheiro mecânico, Aroldo Felício Damasi, disse que o preço do tomate dobrou entre a semana passada e ontem. “Estou reduzindo a quantidade que compro. Ajusto o volume conforme o preço. A tendência é que os valores continuem subindo nos varejões e supermercados”, salientou. (Adriana Leite/AAN)