Publicado 27 de Fevereiro de 2015 - 5h30

O que se espera de alunos que ingressam em um curso universitário de medicina, cuja principal vocação é salvar vidas, é o mínimo de dignidade e respeito para com os seres humanos. Infelizmente, não é isso que relatos feitos por estudantes das principais e mais respeitadas universidades do Estado têm mostrado. Violência física e verbal, tortura psicológica, extorsão, humilhação, ingestão forçada de álcool e atos de conotação sexual são algumas das barbáries reveladas por jovens à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das Universidades, implantada pela Assembleia Legislativa (Correio, 24/02, A6), que veio a Campinas investigar atos de selvageria supostamente praticados nas duas principais universidades.

Será que o poder dado a esses futuros médicos de salvar vidas lhes dá também o direito de antes torturar suas vítimas? Os relatos à comissão são assombrosos. Imagens e áudios contribuem para tornar ainda mais aterrorizante o trote praticado pelos veteranos aos jovens ingressantes no tão sonhado curso. O agravante é que em alguns casos os atos são cometidos, conforme denúncia, com a concordância e participação de professores. Atos que não estão de acordo com o ambiente universitário, um local de aprendizado, convivência democrática e humanista.

É certo que nos últimos anos as universidades têm se empenhado em evitar a ocorrência de trotes dentro dos campi, criando alternativas como o trote solidário e telefones para denúncias. Mas de pouco adianta, os carrascos de calouros organizam o “open Bar” ou “Open Maconha” longe da vigilância. O calouro que não se submeter às atrocidades passa a ser marginalizado pelos colegas. Não são poucos os que desistem da faculdade, traumatizados pelas atrocidades cometidas.

Obrigar uma pessoa a fazer qualquer coisa que esta não deseje, é uma agressão, mesmo que pareça uma brincadeira inofensiva. Na lógica perversa, o calouro vítima do trote vai aplicar a mesma violência aos “bichos” no ano seguinte, como uma vingança pelo ato sofrido. É preciso que esses jovens tenham a coragem de romper esse ciclo vicioso de agressões, como estão tendo agora de fazer as denúncias. Mas eles não podem fazer isso sozinhos. Precisam do apoio da universidade. A elas cabe o papel de intensificar a vigilância sobre seus estudantes e quando identificados, que sejam punidos de acordo com o grau de violência por eles cometidos aos calouros, o que se leva a crer diante dos relatos, que a expulsão da universidade é a punição mínima. O restante da pena caberá à Justiça.