Publicado 25 de Fevereiro de 2015 - 5h30

O serviço Disk Trote da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) registrou ontem, no dia de confirmação de matrícula na graduação, duas denúncias de abusos sofridos por alunos ingressantes. Em meio a diversos relatos de trotes violentos praticados por veteranos, investigados em uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) instalada pela Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), a Unicamp reforça a divulgação do Disk Trote, oferecido pelo Serviço de Apoio ao Estudante (SAE) desde 2008, além de outras iniciativas de combate ao trote violento.

A confirmação da matrícula pôde ser realizada pelos estudantes entre as 9h e 16h nos respectivos campi. Após cumprirem o protocolo oficial, os alunos foram recebidos pelos veteranos com festa. Teve direito a tinta, corte de cabelo, crachá com apelido e outras brincadeiras. A aluna de física Bianca Maria Silveira de Oliveira, de 17 anos, e o aluno de química Gabriel Aparecido Miranda e Silva, de 18 anos, contaram que se divertiram.

“Fizemos a confirmação de matrícula e depois fomos conhecer os institutos. Fomos recepcionados pelos veteranos de forma bem tranquila. Perguntaram se eu queria ser pintada, se eu bebia ou não. Para os meninos, perguntaram se eles queriam raspar ou não a cabeça. Foi tudo com consentimento”, afirmou Bianca. “Da tinta eu não consegui escapar, mas não achei ruim. Acho que é uma coisa única na vida. Um momento de conhecer os veteranos e de ser acolhido no curso”, acrescentou Gabriel.

Felipe Kawakami Moreira, de 19 anos, calouro do curso de matemática, teve a cabeça raspada, ganhou apelido e levou um verdadeiro banho de tinta. “Não acho que teve nada humilhante. Foi uma comemoração entre amigos”, disse. “Nem todo o trote é violento. Aqui só participou da brincadeira quem quis e só fizemos o que os calouros consentiram. Depois passamos o dia com eles explicando como a universidade funciona e dando um suporte”, disse o veterano do mesmo curso Willy Borges Silva.

Apesar da recepção ter sido em sua maior parte marcada por brincadeiras consentidas, o Disk Trote — cujo número é o (19) 3521-1449 ou ramal 1-1449 — recebeu ao longo do dia duas denúncias. “Uma delas foi um desrespeito verbal e outra foi uma denúncia feita por terceiros, que a gente espera que a vítima formalize”, afirmou o professor José Ricardo Figueiredo, coordenador do SAE. Segundo ele, as denúncias serão apuradas. “Os alunos têm deveres sociais e a universidade não pode admitir o desrespeito ao próximo”, afirmou.

O serviço tem como objetivo dotar principalmente o aluno ingressante de um dispositivo de denúncia. Segundo o professor, o telefonema é sigiloso e colabora para que o aluno tenha segurança no local em que passará muitas horas do dia. A denúncia é encaminhada à direção da unidade de origem do agressor, que tomará as medidas cabíveis ao trote violento, seja ele físico ou moralmente agressivo, como humilhações e intimidações.

Desde dezembro do ano passado denúncias e depoimentos de trotes sofridos por estudantes de diversas universidades de São Paulo vêm sendo acolhidas pela CPI das Universidades. No início do mês, 12 estudantes da Faculdade de Medicina da Unicamp participaram de audiência em São Paulo, na qual relataram trotes violentos praticados por veteranos. A Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas) também tem diversos casos denunciados. Ontem, dez pessoas (oito alunos e dois professores) foram ouvidas em audiência realizada na Câmara Municipal de Campinas.

Alternativas

Figueiredo ressaltou que a Unicamp vem intensificando as iniciativas de combate ao trote violento. Ele afirmou que a preocupação da universidade com o trote violento passa por duas abordagens: repressiva, para evitar o trote que ultrapassa os limites, punindo o infratores com os instrumentos disponíveis na instituição; e preventiva, para dar apoio a atividades que tenham como alternativa o trote saudável. Duas ações destacadas por ele foram o Trote da Cidadania pelo Consumo Consciente e o trote da Faculdade de Engenharia Mecânica (FEM), da área de Automação e Controle.

Na FEM, os organizadores têm proposto uma gincana com a participação dos novos alunos. O objetivo é conhecer o quanto eles sabem a respeito da instituição. Pelo segundo ano, o SAE oferece aos ganhadores um kit de instrumentação de informática. A recepção aos calouros, a ser realizada pela equipe Trote da Cidadania pelo Consumo Consciente, começa hoje e prossegue até sexta-feira. A programação conta com palestras e atividades culturais.