Publicado 25 de Fevereiro de 2015 - 5h30

O Sistema Cantareira chegou ontem a 10,7% da capacidade e recuperou integralmente a segunda cota do volume morto, que começou a ser captada em 15 de novembro. Embora seja uma boa notícia, a recuperação dos 105 bilhões de litros que ficam abaixo da cota natural de captação, não significa, ainda, que a necessidade de racionamento a partir do início da estiagem, no final de abril, esteja descartada. “As perspectivas não são boas. Corremos o risco de enfrentar problemas mais graves do que tivemos na última estiagem”, disse a gerente técnica do Consórcio das Bacias dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ), Andréa Borges.

Se o volume de água que chega aos reservatórios continuar sendo maior do que as retiradas, a partir de hoje começa a recuperação da primeira cota do volume morto, de 182 bilhões de litros, que começaram a ser bombeados em 16 de maio. Só depois disso, as represas poderão começar a operar com volume útil.

As chuvas de fevereiro, que já ultrapassaram a média histórica do mês, podem ser apenas um ponto fora da curva, segundo Andréa. “Será muito difícil chegar a 10% do volume útil no final de abril, como quer a Agência Nacional de Águas (ANA)”, afirmou. “Vamos ter que economizar muita água porque vamos precisar do Cantareira na estiagem”, disse.

A gerente do PCJ lembrou que em anos anteriores, sem crise hídrica, a região de Campinas chegou a usar 12 metros cúbicos de água por segundo (m3/s) na estiagem, volume que não foi possível ser usado no ano passado e, por isso, muitas cidades e indústrias tiveram problemas de abastecimento. Atualmente, mesmo com água nos rios e represas, cinco cidades da região de Campinas mantêm rodízio no fornecimento porque não há garantias de que as chuvas persistirão em março.

“Mais do que nunca precisamos economizar, segurar água no Sistema Cantareira porque vamos precisar dela”, afirmou Andréa. Alguns dias sem chuva são suficientes para que a vazão dos rios caia abruptamente — a situação do Rio Piracicaba é ilustrativa dessa situação. Na semana passada, as chuvas elevaram a vazão acima dos 500m3/s e o rio quase transbordou. Com a trégua da chuva dos últimos dias, a vazão caiu para 83m3/s ontem. “Mais de 400m3/s foram embora rapidamente. Isso mostra que o fato de ter chovido em fevereiro não nos dá garantia de que a crise hídrica chegou ao fim”, afirmou.

Primeira cota

Segundo a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), ao atingir 10,7% da capacidade, numericamente o sistema recuperou a segunda cota e entrará no primeiro volume morto, que vai até 18,5% do nível total. Assim, informa a operadora do sistema, quando atingir 29,2% (10,7% da segunda cota mais 18,5% da primeira cota) o Cantareira voltará ao volume útil, ou seja, voltará a ter água acima das comportas e não precisará mais utilizar bombas para transferência entre os reservatórios.

Para o especialista em recursos hídricos Carlos Nascimento de Oliveira, a situação permanece delicada, embora um pouco mais otimista que antes. “Com chuva acima da média em fevereiro, pode ser que a seca esteja dando uma trégua, mas não temos como afirmar que vai continuar chovendo em março e os reservatórios irão se recuperar. Vamos precisar muita chuva ainda para ter alguma tranquilidade”, disse.

O sistema está conseguindo reter a água nos reservatórios graças às chuvas que caem nos afluentes dos principais rios e mananciais dos municípios e que, por isso, passam a exigir menor descarga do Cantareira. O sistema conseguiu segurar ontem 35,5% de toda a água que chegou nas barragens (na semana passada, estava segurando 78%). Entre segunda-feira e ontem, entraram 24,11m3/s e saíram 8,58m3/s — desses, 0,15m3/s foram descarregados no Rio Jaguari, 0,30m3/s no Rio Atibaia e 8,58m3/s na Grande São Paulo.

Instabilidade climática deixa cenário ainda incerto

As chuvas acima da média que ajudaram a elevar o nível de água dos mananciais que abastecem a Grande São Paulo e a região de Campinas em fevereiro deixaram os gestores da crise hídrica otimistas quanto a um possível fim da estiagem extrema, que começou no fim de 2013, no Sistema Cantareira. Especialistas em hidrologia e meteorologia alertam, contudo, que ainda é cedo para cravar uma mudança de padrão climático definitiva no Sudeste e destacam o retorno de dias quentes e secos nesta semana.

Segundo o meteorologista Marcelo Seluchi, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), este mês, pela primeira vez em mais de um ano, houve a formação da Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS), sistema que traz chuvas para o Sudeste no Verão.  “Só que ele ainda é curto e fraco e não significa que vai se manter. Até porque o sistema de alta pressão que impediu a ZCAS no ano passado e em janeiro não se dissipou completamente. Está recuado sobre o oceano e a previsão é de que ele volte nesta semana, aumentando a temperatura e diminuindo a chuva”, explicou Seluchi.

O retorno do sistema de alta pressão para o continente no fim de semana fez com que os seis mananciais que abastecem a Grande São Paulo não registrassem um milímetro de chuva nos dois últimos dias. Mesmo assim, o nível do Cantareira, que é o mais crítico, subiu porque os rios que alimentam as represas ainda estão com vazões mais altas. A previsão do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) é de que as chuvas não ultrapassem a média em março, último mês da estação chuvosa em São Paulo. (Agência Estado)

Consenso de nomes é tradição nas eleições

Desde que foi formado, em 2000, nunca houve disputa nas eleições para a presidência do Conselho de Desenvolvimento da RMC. O consenso sempre foi obtido na semana do pleito ou momentos antes da votação, de forma que o plenário aprovou a chapa única por aclamação. O acordo mais difícil ocorreu em 2008, quando os então prefeitos de Indaiatuba, José Onério (PDT), e de Monte Mor, Rodrigo Maia (PSDB), disputavam e só chegaram a um acordo no dia da votação. Na época, foi feito um acordo para que Maia saísse como vice e, na eleição seguinte, seria o titular.

Acordo semelhante foi feito no ano passado na chapa que escolheu o prefeito de Holambra, Fernando Godoy (PTB), presidente e a prefeita de Sumaré, Cristina Carrara (PSDB), vice. Só que desta vez o acordo caminha para não ser cumprido, especialmente porque Cristina ainda não se livrou da possibilidade de ser cassada — ela aguarda análise de recurso à decisão do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) que considerou que o jornal A Cidade foi criado exclusivamente para as eleições e usado para veicular notícias favoráveis à coligação da família Dalben e de Cristina, além de atacar a oposição durante a campanha eleitoral.

A presidência do Conselho de Desenvolvimento tem uma função política importante, para falar em nome dos 20 municípios que formam a região e seu peso já foi demonstrado várias vezes, quando demandas municipais foram levadas em bloco aos governos estadual e federal. Muitas das verbas do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) chegaram à RMC por força política da união dos prefeitos.

O conselho é responsável por definir as funções públicas de interesse comum entre os municípios e o Estado nessa região onde vivem cerca de 3 milhões de habitantes. É competência do conselho apreciar planos, programas e projetos, públicos e privados, relativos à realização de obras, empreendimentos e atividades que tenham impacto regional. (MTC/AAN)

Jonas é o mais cotado para assumir a RMC

O prefeito de Campinas, Jonas Donizette (PSB), deverá ser eleito hoje presidente do Conselho de Desenvolvimento da Região Metropolitana de Campinas (RMC) — antes da votação, no entanto, os 20 representantes do Estado e os 20 prefeitos que compõem o conselho irão se reunir para definir quem será o vice-presidente e formar, assim, consenso em torno de uma chapa única, e evitar disputa de voto durante o pleito. A intenção é que a chapa seja eleita por aclamação. O acordo caminha para que o prefeito de Santa Bárbara d’Oeste, Denis Andia (PV), seja o vice, apesar de existir ainda algumas resistências em torno do nome de Jonas, que tem o apoio do governo do Estado, para o comando da RMC.

Para Jonas, é importante ter Campinas à frente da região em um ano em que haverá a renovação da outorga do Sistema Cantareira e que temas como saúde e segurança, exigirão peso político nas discussões. Como cidade sede da RMC, Campinas precisa capitanear essas pautas de interesse das 20 cidades, disse. Ontem à tarde, o prefeito de Campinas conversou com o subsecretário de Estado de Desenvolvimento Metropolitano, Edmur Mesquita, sobre a candidatura. Mesquita é o interlocutor do governo e busca cacifar Jonas na presidência da RMC. Uma das primeiras missões da presidência da RMC que será definida hoje, em Holambra, será conseguir regras mais satisfatórias de uso das águas do Sistema Cantareira, já a partir de abril, quando terão início as discussões para a renovação da outorga do sistema. Na outorga serão definidas as novas regras para a partilha de água dos reservatórios entre a Grande São Paulo e os municípios das bacias dos rios PCJ.

A crise hídrica que se estabeleceu no sistema desde o início do Verão de 2013, disse o prefeito Jonas, é um aprendizado que deverá nortear as discussões.

Em abril, a Sabesp vai encaminhar as condições de operação dos reservatórios para a próxima etapa da outorga (que é dada pelos gestores do Cantareira à empresa). A atual regra estabelece para a região de Campinas vazões de 5m3/s e para a região de São Paulo, 31m3/s. A crise já deixou claro que a região de Campinas não pode mais conviver com os 5 m3/s da atual outorga. “Acho importante que Campinas lidere esse debate”, disse Jonas. (MTC/AAN)