Publicado 28 de Fevereiro de 2015 - 5h00

Por Rubens Morelli

Rubens Morelli

Cedoc

Rubens Morelli

Quem se lembra de Eric Moussambani? Assim, pelo nome, é difícil, mas na Olimpíada de Sydney, em 2000, ele chamou a atenção do mundo inteiro ao nadar no melhor — ou pior! — estilo cachorrinho nas eliminatórias dos 100m livre. O nadador de Guiné Equatorial, um pequeno país no Leste da África sem qualquer tradição no esporte, havia treinado por oito meses em uma piscina de 20 metros de um hotel antes de ir aos Jogos da Austrália.

 

Quando entrou numa piscina de 50m perdeu o fôlego, mas completou a prova, em meio a risadas sarcásticas das arquibancadas num primeiro momento e efusivos aplausos por chegar ao fim da prova com seu nado desajeitado. De piada mundial, virou exemplo por sua perseverança e seu orgulho por representar seu país com todas as dificuldades. Encarnou o espírito olímpico, por assim dizer.

 

Estar na Olimpíada é o sonho de todo atleta. Representa o auge da carreira, o clímax de uma vida inteira de preparação e treinamento. E que tal disputar essa competição em casa? Muitos brasileiros terão essa honra. Muitos brasileiros dariam tudo para estar lá. Mas uma brasileira abriu mão desse sonho.

 

Élora Ugo Pattaro, 29 anos, gravou um depoimento e publicou na internet sua desistência de fazer parte da equipe brasileira de esgrima, motivada pela falta de apoio e desvios de conduta no caminho. No vídeo, de pouco mais de cinco minutos, soltou o verbo contra dirigentes e técnicos, pessoas que deveriam brigar pelo esporte, mas que, segundo ela, se corromperam.

 

“Apesar de eu não ser uma atleta que iria com certeza ganhar medalha, eu não quero representar o meu país dessa forma, eu tenho vergonha de competir pelo Brasil, sabendo dessas coisas. Tenho vergonha dessas pessoas que são coniventes e concordam com o que está acontecendo.”

 

Ela cita a corrupção no Brasil, dizendo que é um péssimo exemplo que aparece em grandes escândalos, mas que afeta todas as camadas da sociedade, de cima para baixo. Quando pediu transparência da federação para saber aonde ia o dinheiro dos investimentos, foi cortada das competições.

 

Ela não aceitou ficar calada, por isso, deu adeus. “Eu não quero fazer parte disso. Nós precisamos começar a falar o que a gente vê de errado, pois essa é a única forma de lidar com coisas tão terríveis e enraizadas como é a corrupção aqui”, afirmou.

 

Alguém acha que ela não tem razão? Quem aí não conhece alguém que superfaturou a notinha do almoço para ser reembolsado pela empresa? Não somos todos corruptos? Quando começarmos a olhar para nós mesmos, poderemos lutar por um país melhor. E ter orgulho disso.

Escrito por:

Rubens Morelli