Publicado 27 de Fevereiro de 2015 - 5h00

ig-cecílio

AAN

ig-cecílio

Confesso vir, nos últimos tempos, alimentando dúvidas a respeito de mim mesmo. Estaria, eu, inteiramente superado, caduco? Caduquice, afinal de contas, significa perda de validade. O leite caduca, o remédio caduca e o ser humano, também. No entanto, por mais caduco me sentisse, meus neurônios estão em muito boa forma. Até testes de Alzheimer, procurei fazer. E passei com nota 9,9.

 

Atualmente, começo a admitir esteja muito longe de conviver com o formidável arcabouço tecnológico de nossos tempos. Adaptei-me, porém. E, modéstia à parte, fomos — companheiros e eu — que criamos o primeiro jornal eletrônico na minha província. Dou-me muito bem com computador, mas tenho pavor e medo de celulares. Isso, aliás, é trauma em relação a qualquer tipo de telefone, incluindo os de brinquedo. De qualquer maneira, aprendi a mexer até mesmo com “fotochópi”, falô?

 

Mas no quê me sinto absolutamente superado, de quê me vejo inteiramente apartado — isso se refere à linguagem. Vejo o desmoronar de toda uma estrutura milenar, da ancestralidade humana. Dentro em pouco — por não mais saber falar ou escrever — estaremos comunicando-nos apenas com gestos. E com uivos. E falando com os dedos.

 

Felizmente, não me esqueço e nunca esqueci. Aos meus 14 anos, meus coleguinhas de curso ginasial elegeram-me orador da turma. Entusiasmado, excitado, sentindo-me um Ruy Barbosa, mergulhei na feitura do discurso. Para mim, era uma obra-prima, um primor. Discursos deveriam passar pelo crivo do chamado Padre Conselheiro dos salesianos. Levei-lhe o meu. Passaram-se os dias e ele nada me falava. Aproximava-se a formatura e ele, em silêncio. Desesperei-me e atrevi-me a bater-lhe à porta do escritório.

 

O Conselheiro nem sequer levantou os olhos quando me aproximei. Depois de um tempo ignorando-me, perguntou-me o que eu queria. Balbuciei: “O discurso...” Ele me olhou com olhos furiosos, apanhou as minhas folhas de papel, fulminou-me: “Você chama de discurso essa porcaria? Pegue, então, onde ele merece estar.” E jogou-o no lixo. Ainda hoje, lembro-me de quanto o odiei, a vontade de matá-lo.

 

Mas, antes de eu sair, ele me falou: “Nunca se esqueça. Quando falar ou escrever para o público, lembre-se de que sempre haverá alguém melhor do que você.”

Fiz novo discurso, não o entreguei para ser analisado. E, na noite da formatura — sentindo-me um leão ferido, uma fera com ódio — falei, falei e falei. O público aplaudiu-me de pé. E o Padre Conselheiro me sorriu: “Viu, como você pode fazer melhor?”

 

A lição ficou em mim, como que na carne da alma. Ao início de cada texto, penso naqueles que, sendo melhores do que eu, poderão ler-me. E angustio-me, mesmo sabendo que ler e escrever, para mim, são tão necessários quanto o ar que respiro. Rodeado de dicionários, vivo o receio de um erro ortográfico, de concordância.

 

E entro em pânico quando tenho que usar hífen, essa maldição que me derrota. Cada vírgula, cada travessão, toda a pontuação ainda me castigam. E próclise, ênclise e mesóclise? E a maldição dessa nova ortografia que me recuso a aprender?

 

Há noites em que, depois de o texto escrito, desperto alarmado, na certeza de, antes de dormir, ter escrito uma palavra errada. Levanto-me, abro o computador e lá está: o erro que deixei passar. Por isso mesmo, nunca revisei meus textos ou os reli depois de publicados.

 

Ainda agora, já na velhice, leio, pesquiso, procuro lapidar as frases, burilá-las, a tentativa de refinar o estilo. Escrever é, no meu entender, uma das mais amargas pretensões humanas. No fundo, no fundo, um castigo. Lá me vou, então, ainda agora, tentando reler o Padre Antônio Vieira, em busca de suas pérolas; Fernando

Pessoa, com sua doçura; Machado de Assis, o eterno mestre. Leio, releio, aprendo mais coisas, descubro tesouros que me passaram despercebidos, retorno ao trabalho. É a faina diária, o trabalho de ourives, o amor e o respeito à palavra, à linguagem, à língua. 

 

 

No entanto, isso tudo está acabando. Meu jeito de escrever desfalece com a própria língua. Dentro em pouco, haverá, apenas, velhos e antigos leitores. Ou, então, terei que mudar. E toda minha literatura será simplificada: rsss, kkkk, bjs, abs. Então, já treinando, desejo-lhe um fim de semana pleno de rsss, de bastantes kkkk, com mil bjs e abs.