Publicado 27 de Fevereiro de 2015 - 9h00

Jennifer Aniston em cena do filme 'Sem Direito a Resgate', de Daniel Schechter

Divdulgação

Jennifer Aniston em cena do filme 'Sem Direito a Resgate', de Daniel Schechter

Com todo o respeito a Jennifer Aniston, não foi nenhuma injustiça a não indicação dela ao Oscar por 'Sem Direito a Resgate' (Life of Crime, Estados Unidos, 2014), de Daniel Schechter (também autor do roteiro). O fato de tangenciar o drama (pois não é um drama de verdade) deve ter lhe acrescentado algo pessoal ao trabalho, mas profissionalmente, trata-se de atuação apenas correta e sem nada expressivo que merecesse a indicação. 

 

O filme não ajuda muito, apesar das boas referências. Por exemplo, está baseado no romance do escritor e roteirista americano Elmore Leonard (1925-2013) 'The Switch'. Leonard também é autor da novela 'Ponche Rum' (1992), que Quentin Tarantino transformou em 'Jackie Brown' (1997) — superestimado por uns, subestimado por outros.

O filme de Schechter se passa 20 antes, quando Ordell (Yasiin Bey) e Louis Gara (John Hawkes) se conhecem na prisão — em Jackie Brown, os personagens foram interpretados por Samuel L. Jackson e Robert De Niro.

 

Ao lado do nazista Richard Monk (Mark Boone Jr.), a dupla decide sequestrar Mickey Dawson (Jennifer Aniston), mulher do milionário corrupto Frank Dawson (Tim Robbins). Eles só não esperavam que o sujeito não tivesse qualquer intenção de pagar o resgate pela mulher, pois este acaba de entrar com pedido de divórcio.

Aqui entra um clichê típico: homem rico e canalha, marido de mulher bonita e correta se encanta com Melanie (Isla Fisher) a amante desclassificada, mas que o domina e quando ele está disposto a atender à exigência dos sequestradores, toma as rédeas da negociação. Além disto, Melanie está mais interessada em que a desprotegida Mickey morra.

 

Mas a mocinha tem lá suas armas — saber os podres do marido por meio de Louis é uma delas, o que irá provocar boa virada na história. E, com isso, o desfecho surpreendente acaba sendo o melhor que o filme tem a oferecer. Nada muito impactante porque não se trata de thriller na acepção do termo — a mistura envolve comédia e, portanto, é totalmente inverossímil.

 

Sim, tem sua graça porque o escritor exercita humor sutil e leve aliado ao gênero policial — naturalmente tenso; a conjunção de ambos dá alguns bons resultados. E o diretor acrescenta pitadas do óbvio ao trabalhar com clichês, que às vezes funciona. Outras nem tanto, como piadas batidas sobre judeus e nazistas.

O nazista, por exemplo, é um troglodita que só quer saber de arruinar com a vida de Mickey. Tudo nele soa exagerado ao ponto de o excesso fazer perder o efeito buscado. Sim, o roteiro está interessado no exagero e no fake (que Tarantino tanto gosta), mas poucas vezes é bem-sucedido.

 

'Sem Direito a Resgate' tem um quê de ingênuo para os dias de hoje (o romance foi escrito em 1978) ao abordar a personagem da mulher rica e entediada, o marido execrável e a amante não menos inescrupulosa, além de um bandido generoso. Se a linguagem fosse realista, a história não se sustentaria. Daí a graça do texto de Elmore Leonard, capaz de divertir a partir de um fio narrativo no qual a despretensão tem papel decisivo.