Publicado 26 de Fevereiro de 2015 - 15h54

O ator Rodrigo Santoro: tempo de serenidade na carreira... e sucesso

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O ator Rodrigo Santoro: tempo de serenidade na carreira... e sucesso

A estreia de Rodrigo Santoro em Hollywood pode não ter sido das melhores — lá em 2003, quando fez uma participação muda em 'As Panteras Detonando'. Porém, tantas portas se abriram ao brasileiro nos 12 anos seguintes, que este passado — considerado na época até constrangedor — não combina com a atual carreira do ator. Além de estar na Itália gravando sua participação como ninguém menos que Jesus Cristo em um dos mais esperados remakes da atualidade, 'Ben-Hur', Santoro estreia no dia 12 de março a superprodução 'Golpe Duplo' (Focus), ao lado do queridinho de Hollywood Will Smith e da australiana Robbie Margot. O ator vive o antagonista da trama dirigida pela dupla Glenn Ficarra e John Requa, a mesma de 'O Golpista do Ano' (2009), filme em que Santoro trabalhou com Jim Carrey. Ele é Garriga, um empresário argentino da Fórmula 1 que contrata o vigarista Nicky Spurgeon (Smith) para enganar os concorrentes e vencer o campeonato. Para se preparar para o papel, Santoro contou com a ajuda da família do piloto Hélio Castroneves, além do companheirismo do próprio Will Smith, um dos atores, confessou Santoro, mais generosos com quem o brasileiro já trabalhou.

 

Confira abaixo trecho do bate-papo do ator com o Caderno C.

Caderno C - O que te levou para 'Golpe Duplo'?

Rodrigo Santoro - Eu adorei o roteiro, achei bem inteligente e o personagem trazia algumas coisas que achei pertinentes para trabalhar, como essa coisa da reputação nesse mundo que a gente vive hoje. A reputação é a coisa mais importante para o Garriga, é o que o tira do sério. É uma vaidade acima de tudo, que o desequilibra quando as coisas não saem como ele gostaria. E tem também o universo do automobilismo, que sempre me fascinou mas que eu não conhecia de perto. Eu fiz um laboratório muito bacana, e por isso agradeço a família do Hélio Castroneves, um piloto brasileiro da Fórmula Indy que me recebeu muito bem. A gente filmou em Nova Orleans, mas no caminho até lá eu pude ir em uma corrida em Houston, onde consegui me aproximar desse mundo fascinante. É incrível pensar no tanto de dinheiro que rola para desenvolver uma tecnologia que vai influenciar em um milésimo de segundo na corrida. É um universo paralelo do qual eu passei a entender muita coisa.

E como foi trabalhar com o Will Smith?

Trabalhar com o Will foi outro motivo para eu ter embarcado no filme, claro. O cara é de uma energia singular. Ele está sempre com um astral ótimo, e é muito contagiante, então o set todo é tranquilo, divertido. Sem contar que o cara é muito generoso. Eu sempre aprendo muita coisa durante os filmes, obviamente, mas o que me inspirou em trabalhar com um ator do porte dele, e sem colocá-lo em um plano diferente, porque ele não é diferente de nós todos, apesar de ter essa fama mundial, de estar sempre muito rodeado, no foco, o que me chamou muito a atenção foi a humildade real dele. Eu posso dizer, sem dúvida, que ele é um cara que não tem nenhuma arrogância. E é parceiro de cena, te ajuda como pode, porque no final de cada gravação, ele garante o dele mas pensando no todo. Então ele se dedica muito também no que os outros estão fazendo, na gravação de todos. E eu fiz a mesma coisa com ele, procurei seguir a mesma linha, tudo para que a cena crescesse cada vez mais, para o resultado final ser o nosso melhor. Isso foi inspirador, porque é muito bacana encontrar gente que transcende.

O que mais te desafiou ao fazer 'Golpe Duplo'?

 

O Will é um ator que improvisa, essa é a escola dele. Ele é muito rápido, e os diretores estavam abertos a isso, e gostavam também, então a gente pôde improvisar bastante nesse filme. E isso não deixa de ser mais um desafio para mim, porque, querendo ou não, eu preciso improvisar em uma língua estrangeira. Ou seja, foi uma experiência fantástica e muito intensa.

Hollywood tem se aberto cada vez mais aos estrangeiros, principalmente os latino-americanos. Você, que está há tantos anos lá, realmente vê vez mais espaço para trabalhar agora do que no passado?

Todos os latino-americanos que estão sendo reconhecidos em Hollywood, como os diretores mexicanos Alfonso Cuarón e o Alejandro González Iñárritu, têm conseguido isso por mérito. Tudo é devido ao talento. Mas há uma abertura, sim, no mercado, é fato. Por experiência própria, há uns dez anos, quando eu comecei a trabalhar fora, ler roteiros, o espaço era realmente muito menor. Trabalhava-se muito com estereótipos, especialmente com latinos. E acho que essa mudança é um reflexo do que está acontecendo no mundo, aquilo que a gente chama de globalização. É um reflexo. Hollywood teve que se abrir mais, principalmente porque os filmes vão para o mundo inteiro e faturam no mundo inteiro. Então existe também esse olhar para o mundo. É uma combinação de tudo isso. O que só confirma, sem dúvida, que eles tão mais abertos ao mercado, e não digo apenas latinos, mas estrangeiros. Claro que, ainda assim, a gente acaba lendo algumas coisas como no passado. Os heróis ainda são escritos para americanos. Mais aos poucos as mudanças vão acontecendo. Quando eu fiz 'O que Esperar Quando Você Está Esperando' (2012), o nome do personagem era Alex e eles, obviamente, não pensavam em escalar um estrangeiro. Acabei ficando com o personagem e não trocaram o nome. A cabeça do mercado, dos produtores, está mais aberta nesse sentido. O herói ainda é o americano, mas o estrangeiro não precisa ser necessariamente o vilão, como antes.

Seguindo essa mesma linha, você lança este ano 'Jane Got a Gun', com Natalie Portman, onde você interpreta pela primeira vez um norte-americano. Você credita isso e o bom momento que vive na carreira a essa abertura de mercado?

Eu fui plantando algumas sementes que foram dando alguns frutos, mas acho também que tem a ver com essa abertura do mercado. Não dá para dizer exatamente o que é, mas dá para dizer que estou num momento em que me sinto mais preenchido com as oportunidades que tenho tido, com os trabalhos que tenho feito, as experiências que tenho vivido, com os artistas que tenho trabalho.

O que te leva a fazer um filme hoje é o mesmo que te levava lá no começo?

Graças a Deus é a mesma coisa. É ler e aquilo dialogar com você de alguma forma. Não há uma fórmula específica, não é o tamanho do filme, não é o tamanho do personagem. É uma conjunção. Eu levo muito em consideração as pessoas com quem vou trabalhar, porque, com o tempo, com as minhas experiências, eu fui aprendendo a dar muito valor ao que eu vivo nas gravações. A experiência no set é o que importa, independente do resultado do filme, se vai ser sucesso ou não, até porque a gente não tem nenhum controle sobre isso. Pode ser um roteiro que pareça maravilhoso, um grande diretor, um grande elenco, e o filme não funcionar no final das contas. Essa é a magia do cinema, a gente não sabe o que vai funcionar. O que é palpável, o que fica comigo, depois quando eu olho para trás, são os momentos que eu passei no set, os atores, o que eu aprendi ali, observando. Isso é um fator que eu levo muito em consideração na hora de fazer uma escolha. Mas claro que a história que vai ser contada e o personagem também contam muito. Tem que dialogar comigo, tem que me tocar de alguma forma, eu tenho que me sentir estimulado para fazer aquilo, e as razões podem ser diversas. Às vezes eu estou num momento que aquilo me bate de uma forma diferente. Ser humano, né?, que está em constante movimento. As vezes estou azul, às vezes vermelho, e dá para ficar até amarelo. Por isso levo em consideração o que aquele trabalho vai me somar.

Você fará 40 anos em 2015. Hollywood sempre brinca que essa é uma idade crucial para o ator. Como você vê isso?

Eu tenho a sensação que a gente sempre pensa no externo. Graças a Deus eu levo uma vida saudável, isso há muito tempo, então não estou sentindo o padecimento do meu corpo. Isso não está acontecendo graças a Deus. A gente pode conversar sobre isso daqui uns dez anos (risos), mas hoje, o que eu sinto, é essa sensação de ter percorrido caminhos, conhecido coisas, aquilo que as pessoas chamam de maturidade. Uma espécie de serenidade quando as coisas acontecem, principalmente quando a vida fica agitada e a gente roda junto com o furacão, de você conseguir olhar para tudo com mais calma. Dizer, espera, eu já passei por isso, eu sei como é, sei que se fizer algo vai dar certo e não devo fazer tal coisa. Estou nesse lugar, então não estou achando ruim chegar aos 40. A vida vai avançando e, sinceramente, o importante é você não envelhecer por dentro, manter dentro é o que te move, pelo menos comigo. Continuar curioso, não perder o empenho, não perder a pureza completamente, claro que a gente vai amadurecendo e a ideia é que a gente vá deixando isso para trás, porque a vida vai mostrando como ela é, mas manter essas coisas com você é a pegada.

'Ben-Hur' é um filme que terá todos os olhos de Hollywood voltados para ele. Trata-se do seu projeto mais importante até agora? 

Posso te dizer que só de saber que meu nome foi pensado é fenomenal. O filme não é sobre Jesus Cristo, mas independente da religião, quando você fala seu nome, pronto, conseguiu a atenção de todos. O roteiro é incrível e li antes de ver o filme original. Sempre fico na dúvida se vejo ou não, mas neste caso achei importante saber como era. Até porque sempre me deixaram claro que é uma refilmagem, porque se fosse para ser igual ao antigo, então é melhor nem mexer no que já está pronto. O 'Ben-Hur' de agora tem uma outra visão, o diretor é um russo (Timur Bekmambetov), estamos em outro tempo, criando para um outro público. Sempre me perguntam por que refilmar, e a resposta é simples: o público de agora ainda não viu a história. Mas por que não ver aquele? Porque vivemos em um outro tempo. E contar essa história para o público de agora é um enorme desafio.

'Ben-Hur' é o maior vencedor do Oscar, com 11 prêmios (incluindo Melhor Filme), ao lado de 'Titanic' e 'O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei'. Espera-se muito dele, querendo ou não, quando a nova versão for lançada. Você pensa em prêmios?

 

Isso não passa pela minha cabeça. Uma coisa que eu aprendi, aproveitando o próprio nome do filme 'Golpe Duplo' nos Estados Unidos, que é 'Focus', é onde você coloca teu foco. Isso define muitas coisas na sua vida. Claro que prêmios são importantes, eu seria hipócrita se falasse que não, porque as vezes que fui reconhecido aqui no Brasil, no Festival de Brasília, no Festival de Recife, enfim... as vezes que tive meu trabalho reconhecido desde o 'Bicho de Sete Cabeças', 'Carandiru', foram momentos emblemáticos na minha vida, na minha carreira, que eu nunca esqueço e que serviram de grande incentivo para eu arriscar quando eu tinha receio de arriscar. Tem um valor muito importante, mas o foco nunca está nisso, nunca ambiciono isso porque eu não tenho controle nem pelo resultado do filme. Quando eu fiz 'Carandiru', sempre me perguntavam se eu tinha feito para quebrar a minha imagem de galã, e eu sempre respondia que se eu tivesse pensado no que eu estava fazendo, talvez eu não fizesse. Se eu tivesse antes racionalizando que faria um personagem que é uma travesti e se casa dentro da cadeia, se eu pensasse mesmo e levasse para o racional, eu não faria. Eu fiz porque eu queria fazer parte do filme, era uma história verídica, era o Hector Babenco que era um diretor que eu acreditava, eu queria fazer cinema, eu e todos os atores do Brasil que não faziam cinema naquela época, que era a época de retomada da indústria nacional, e o personagem era um desafio gigantesco. E ainda era o único no qual eu encaixava. Eu cheguei a perguntar se não teria outro, e o Hector falou que eu não tinha a cara de um personagem que estaria preso no Carandiru. Então eu fui cavar no livro e propus um personagem que não tivesse nada a ver comigo, e a gente acabou chegando naquele personagem. O meu foco está aí, no material, no que eu vou trabalhar, no que é um pouco mais palpável.