Publicado 04 de Novembro de 2014 - 9h03

Por Vânia Dutra de Azeredo

Primeiro, há de se fazer um tributo ao machado por ser um instrumento forte, imponente e mesmo destruidor. A seleção do termo é intencional, não machado, evitemos o equívoco das disposições na frase e da frase, mas o instrumento. Se falasse em utilitário, suscitaria a ideia de meio, quando me endereço ao fim. Afinal, o fim é cortar, mas a origem é o marculãtus derivado de marc?lus do latim estendido que não se dobra diante da realidade.

 

Substantivo masculino, como o gerador Bentinho de outro Machado, o maior Machado que cortou a literatura brasileira em dois, antes e depois. Os dois são substantivos masculinos e, além disso, próprios e geradores de propriedades. Delas falarei ou elas falarão. O importante é que Bentinho nos impõe seu real quando condena Capitu por traição e se torna seu algoz ainda vivo nas linhas do Machado. Capitu resignada ou calada cede às intempéries das linhas que cortaram sua vida pelo Bentinho de Machado desde o seu nascimento. Sim, porque Capitu que não era Casmurro, sofreu e padeceu por conta de Machado. O Machado cortou Bentinho no meio, onde?

 

Atravessando o livro, não há nenhum dado além das conjecturas de Bentinho, das teias em que se emaranha a cada leitura. Basta abrir Dom Casmurro surdamente para ver a ausência de dados sobre Bentinho. Ainda assim, ele vê o real. Ele tem a realidade dele. Machado, ao tecer o destino de Capitu e Bentinho não determina o real de Bentinho, só o de Capitu. Os dados de Capitu estão lançados por todo livro, sobressaem e aparecem com a transparência do cristal que se parte nas mãos de Bentinho. Pobre Capitu calada no livro desde a maternidade. Será mera casualidade da ausência de dados de Bentinho que joga com o real nas linhas? Seriam condições prévias percebidas e jogadas sobre Capitu? Difícil dizer sem se comprometer. Mas Machado corta desde o início os dados de Bentinho; é sempre o real dele e não o real. Por ser protagonista da narrativa é privado de realidade. Nem ao filho ele concedeu a dúvida, levando-o ao padecimento precoce. Mas por que a realidade de Capitu é real se ela também é um substantivo próprio como Bentinho? Seria porque naquele tempo ou, quiçá noutros também, o substantivo feminino era ou é ou será subordinado?

 

Espero vivamente que não. O real de Bentinho é a realidade de Capitu em todas as linhas, mas o real de Bentinho não é a realidade, mas sã ou doente possibilidade, que deixa ao leitor, amante ou não de Machado, a criação do real.  Sempre em posição de curvatura diante da língua, ainda olho o Machado com júbilo e interrogação, sentindo minha língua tocar a dele em um beijo frenético. E não ousem falar em obscenidade!!! Não sei o que é real.

.

Vânia Dutra de Azeredo

Doutora em filosofia pela USP. Professora da Faculdade de Filosofia da PUC-Campinas.

Escrito por:

Vânia Dutra de Azeredo