Publicado 14 de Outubro de 2014 - 17h48

Por Adagoberto F. Baptista

Fotos: Carlinhos (14/10)

Gustavo Abdel

DA AGÊNCIA ANHANGUERA

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O mundo corporativo tem registrado um movimento inverso da presença feminina em cargos executivos. Apesar de ano a ano a mulher conquistar mais espaço no mercado, números divulgados recentemente pela Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH-SP), apontam que de 2009 para cá a presença de mulheres em cargos de lideranças caiu de 29% para 20%. A explicação, segundo especialistas, é a busca por ambientes onde elas possam equilibrar as vidas profissionais, familiares e pessoais, longe do ambiente pesado das corporações.

Outro dado que chama a atenção é que a maior parte das mulheres em cargo de liderança no Brasil está na área de recursos humanos (16%), segundo o International Business Report. Essa semana, durante evento do Grupo Liderança Feminina da ABRH-SP, em Campinas, cerca de 100 mulheres da área de RH de grandes empresas da Região Metropolitana de Campinas (RMC) debateram sobre o dilema da vida e carreira.

“A mulher pode ser mulher hoje em dia. Ela não precisa se masculinizar para encarar o mundo corporativo. Esse grupo de lideraça está com esse propósito de discutir temas pertinentes a rotina da mulher”, frisou Elizabeth Rodrigues, diretora regional da ABRH Campinas.

“As tendências e pesquisas dizem que teremos cada vez mais mulheres na liderança das empresas. Ouço isso há bastante tempo e, apesar dos números crescerem, a velocidade tem sido bem menor do que eu esperava quando comecei a participar dessas discussões no início dos anos 2000”, relatou Lilian Guimarães, de 54 anos, vice-presidente de Pessoas e Cultura da Natura.

Lilian tem uma longa carreira em recursos humanos, principalmente em bancos. Tornou-se a primeira executiva de RH no Banco Interatlântico e depois na Origin, uma empresa do grupo Philips. Liderou vários projetos voltados à importância do capital humano na gestão dos negócios, tornando RH um parceiro estratégico dentro desses processos.

Correio Popular - De acordo com dados da Associação Brasileira de Recursos Humanos, cerca de 40% das mulheres interrompem a carreira executiva. Quais são os fatores que estão desestimulando as mulheres a continuar no mercado competitivo?

Lilian Guimarães - As mulheres estão vivendo os reflexos do que o mundo das corporações. Elas não estão saindo necessariamente do mercado de trabalho, mas estão querendo sair de corporações que estão cada vez mais burocráticas, mais lentas, com um ambiente muito competitivo que não combina muito com a mulher. Elas estão fazendo a seguinte escolha: quero ir para um lugar que eu seja mais feliz. Então as mulheres fazem a opção de sair do trabalho para buscar uma felicidade mais ampla do que o trabalho traz. Mulher dá um valor muito grande para a família. Estão desistindo pelo estresse, pelo esforço e com um retorno muitas vezes que ela avalia estar ofuscando a felicidade.

CP - A estabilidade é a grande responsável para que a mulher adie os planos de se tornar mãe. Como tentar resolver esse dilema em determinada etapa da vida de uma profissional em ascensão?

LG - Como é bom ter um plano de trabalho, também precisa-se ter um plano para programar a vida. Se a mulher quer ter filho, é preciso saber qual vai ser o momento. Isso vai prejudicar a carreira? Dificilmente a carreira de uma mulher vai ser prejudicada se ela tiver um filho. A maioria das empresas dá espaço para conversas com a chefia, e é necessário expor essa vontade de ser mãe. A mulher não pode ficar nessa frustração de ter ou não. Ela precisa se programar e expor suas vontades.

CP - O que uma mulher que tem o próprio negócio ou até mesmo ocupando um cargo de gerência precisa ter em mente na hora de administrar?

LG - Ter uma equipe é muito importante, e com pessoas certas nos lugares certos ajuda bastante. Possuir um plano de trabalho organizado, ter um norte e mostrar a cada um a sua importância dentro dessa equipe, o trabalho com certeza vai ser muito mais bem feito. As pessoas vão trabalhar com amor e vão mostrar resultados naturalmente.

CP - Há algum outro fator que pode contribuir para o sucesso da mulher executiva?

LG - Ter disciplina ajuda a seguir os pontos que a gente planejou. Assim a gente aos resultados com menos esforço, menos sacrifício. Outras chaves para o sucesso, como complementar suas competências com outras pessoas. Disciplina é fundamental.

CP - Há um avanço das mulheres em cargos de comando, há também o preconceito sempre muito presente. Como a mulher deve lidar com esse tipo de situação?

LG - A mulher precisa encarar de maneira natural, mas não reagir imediatamente. Cada vez que se deparar com uma situação em que você se sentir que há algum tipo de preconceito, se faz necessário coloca-lo na mesa e tentar entender as razões pelas quais ele está acontecendo. Muitas vezes, as pessoas trazem esse preconceito na sua própria cultura. É preciso lidar com ele, e falar sobre ele a todo o momento.

Escrito por:

Adagoberto F. Baptista