Publicado 13 de Outubro de 2014 - 11h08

Caça ao mosquito

César Rodrigues/ AAN

Caça ao mosquito

“Secretaria da Saúde”, grita uma agente de controle ambiental no portão de uma casa, localizada no Jardim Rossin, região do Campo Grande, bairro que possui moradores com suspeita de dengue.

Do outro lado do portão, o aposentado Élio Rodrigues de Moura, de 80 anos, atende educadamente as agentes – como acontece na maioria dos casos – , que são autorizadas a entrar no quintal do imóvel. “Eu acho muito bom o que elas fazem. Eu deixo entrar porque o meu quintal está sempre limpinho, não tem água parada em lugar nenhum”, disse. Apesar dos muitos vasinhos de planta e dos pratinhos que servem água para seus três cachorros, Moura sabe o que fazer. Nenhum vaso tinha água acumulada e os pratos dos animais são trocados todos os dias, afirmou.

 

Apesar de fazer a sua parte para manter a doença longe de sua casa, ele a filha acabaram sendo contaminados com a dengue este ano, quando a cidade registrou sua maior epidemia da história, com mais de 41 mil casos.

 

“Eu sempre tive cuidado. O criadouro não estava aqui, por isso que é importante os vizinhos se conscientizarem e também fazerem a sua parte.”

 

O trabalho constante de visitação feito no Jardim Rossin é realizado em toda a cidade por meio das Vigilâncias em Saúde regionais. Apesar de a cidade não viver mais a epidemia de dengue, a Prefeitura afirmou que este período interepidêmico é o momento mais importante para evitar que o número de casos volte a explodir no ano que vem.

 

Na casa do senhor José Antonio dos Santos, de 53 anos, nenhum criadouro foi encontrado. Segundo ele, foi a terceira vez este ano que agentes visitaram seu imóvel. “Eu sempre deixo entrar porque eles estão fazendo a prevenção.”

 

Seu vizinho, Jair Martins de Oliveira, de 72 anos, também foi “aprovado” na vistoria. “Eu sempre me preocupo muito com isso. É bom eles visitarem a nossa casa, assim a gente fica mais atento. Eu sempre fico de olho, se vejo água parada em algum lugar, eu tiro”, ensinou.

 

Na região assistida pela Vigilância em Saúde (Visa) Noroeste, são 160 mil moradores. Doze pessoas atuam no trabalho porta a porta. São ajudantes de controle ambiente e agentes de saúde, que realizam o bloqueio e controle de criadouro, conhecido como BCC.

 

No Jardim Rossin, três pessoas estão com sintomas da doença, por isso, durante as visitas aos imóveis é feito o trabalho de busca ativa. “O trabalho periódico é fundamental para identificar um possível caso e interromper a transmissão. Além da remoção dos criadouros, se for confirmado caso da doença, realizamos a nebulização, interrompendo a transmissão da doença. Esse é o nosso foco”, disse Christiane Sartori, coordenadora do programa de dengue da Visa Noroeste.

 

Paralelo a isso, um caminhão auxilia na retirada de objetos que possam acumular água e se transformar em criadouros.

 

“Esse é um trabalho de caráter educativo. Entramos nas casas para fazer a vistoria e explicamos o que é a doença, os sintomas, riscos. Investimos tempo com isso para não termos aumento no número de casos”

 

Apesar do período de estiagem, a preocupação da Secretaria de Saúde continua. “Muitas pessoas estão armazenando água. Não há problema nenhum nisso, mas é importante que os recipientes fiquem fechados, para não se transformar em local para o Aedes aegypti botar os ovos”, alertou Christiane.

Caixas d´água

 

Além da conscientização das pessoas, a Prefeitura lançou uma série de medidas educativas, de estímulo e práticas para frear a dengue. Uma delas é a nebulização. Para ampliar o trabalho foram contratados 45 novos profissionais para aplicar inseticida em regiões que ainda tenha registro da doença. A outra a é criação da sala de situação da dengue, um grupo intersetorial que reúne as secretarias de Saúde, Serviços Público, Verde, Chefia de Gabinete, Educação, RH, Administração, além da Defesa Civil e Sanasa. Representantes dessas pastas e órgãos se reúnem periodicamente para discutir as ações que estão em andamento.

 

Uma das atividades desenvolvidas pela Sanasa é a inspeção de caixas dágua em prédios públicos. Mais de mil caixas serão vistoriadas. Todas receberão telas de proteção ou, caso haja necessidade, serão substituídas.

 

A Prefeitura ainda prepara um workshop que irá discutir a comunicação social com a imprensa local para tratar da importância de esclarecer a população sobre a doença. “A imprensa tem papel importante para informar a população”, disse André.

Momento é crucial para evitar doença

 

De acordo com o coordenador do Programa Municipal de Combate à Dengue, André Ricardo Ribas Freitas, apesar da falta de chuvas, este é o momento para evitar milhares de casos de dengue no próximo ano. “As pessoas têm que saber que essa é a época para evitar a dengue no ano que vem. Quando tem a epidemia já é tarde demais para controlar o vetor, por isso esse momento é crucial.”

 

Ele afirmou que os trabalhos porta a porta realizados em toda a cidade, de segunda a sábado, são para interromper a transmissão. “Ainda existem locais com transmissão. Estamos tentando interromper esse resquício da epidemia. É como se estivéssemos fazendo um rescaldo de um incêndio, para garantir que 2015 a situação seja mais controlada, não sem dengue, porque isso é impossível, mas também sem epidemia”, explicou.

 

 

Caça ao mosquito

 

 

Segundo Freitas, há equipes de agentes comunitários e agentes de controle ambiental suficientes para cobrir todas as áreas, o que não acontecia na epidemia. “No meio da epidemia tínhamos que priorizar as áreas mais críticas.”

 

Sobre a possibilidade de uma nova epidemia no ano que vem, o coordenador do Programa de Combate à Dengue de Campinas ponderou. “A dengue possui quatro sorotipos. A epidemia este ano foi causada pelo sorotipo um. A força de transmissão desse vírus vai estar menor no ano que vem, mas se tiver outro sorotipo circulando, poderá haver nova epidemia.”

 

Além disso, existe um risco de transmissão da febre chikungunya, considerada “prima” da dengue. Em maio, a Prefeitura de Campinas alertou os funcionários da Saúde sobre uma possível importação do vírus da febre durante a Copa do Mundo, realizada entre junho e julho no Brasil.

 

Segundo o Ministério da Saúde, foram confirmados 20 casos da febre chikungunya neste ano - casos importados de pessoas que viajaram para países com transmissão da doença. Deste total, 17 foram registrados em militares e missionários brasileiros que regressaram de missão no Haiti e um caso de um brasileiro que viajou para a República Dominicana. Dos soldados que retornaram do Haiti, dois deles eram de Campinas. O município foi notificado e realizou bloqueio químico (nebulização) e mecânico (inviabilização de criadouros) no entorno da Brigada Militar, batalhão de origem dos soldados e para onde eles se dirigiram quando retornaram ao Brasil. Também foi promovido o isolamento dele. Não foram registrados mais casos da doença, até então.

 

Caça ao mosquito  Febre 'prima' da dengue já tem 211 casos registrados

 

A doença é causada por um vírus do gênero Alphavirus, transmitida por mosquitos do gênero Aedes, sendo o Aedes aegypti (transmissor da dengue) e o Aedes albopictus os principais vetores. Seus sintomas são parecidos com o da dengue - febre alta, dor muscular e nas articulações, cefaleia e exantema - costumam durar de três a 10 dias, e sua letalidade, segundo a Organização Pan-Americana de Saúde, é rara e menos frequente que nos casos de dengue. O tratamento é feito para combater os sintomas.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), desde 2004, o vírus já foi identificado em 19 países. Porém, só no final de 2013 foi registrada transmissão autóctone (dentro do mesmo território) em vários países do Caribe e, só em março de 2014, na República Dominicana - até então, só África e Ásia tinham circulação do vírus.

 

Até o dia 4 de outubro, o Ministério da Saúde registrou 211 casos de Febre Chikungunya no Brasil. Do total, são 38 casos importados de pessoas que viajaram para países com transmissão da doença, como República Dominicana, Haiti, Venezuela, Ilhas do Caribe e Guiana Francesa. Os outros 173 foram diagnosticados em pessoas sem registro de viagem internacional para países onde ocorre a transmissão. Desses casos, chamados de autóctones, 17 foram registrados no município de Oiapoque (AP) e 156 no município de Feira de Santana (BA).

Cidades na RMC também se antecipam

Outras cidades da RMC também se antecipam para evitar aumento de casos de dengue em 2015.

Na semana passada, a Secretaria de Saúde de Indaiatuba, por meio do Programa de Controle da Dengue, realizou um treinamento de conhecimento e ações técnicas de controle da dengue para agentes comunitários de saúde e outros profissionais que atuam nas Unidades Básicas de Saúde no Programa Saúde da Família, que estão diariamente em contato com a população. A ação faz parte do planejamento da campanha de prevenção da dengue. A cidade registrou 237 casos de dengue.

 

 

 

Ações da Prefeitura

• Criação da Sala de Situação de Dengue, com as Secretarias de Chefia de Gabinete, Saúde, Educação, Serviços Públicos, Verde, Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, Recursos Humanos, Administração, além da Defesa Civil e da Sanasa;

 

• Contratação de serviços complementares para as atividades de campo, especialmente para nebulização e colocação de telas em caixas d´água.

 

• Trabalho intersetorial com a Secretaria de Educação, por meio de ações de educação, informação e mobilização social nas escolas.

 

• Intensificação do trabalho intersetorial com a Secretaria de Serviços Públicos para limpeza e organização da cidade, por meio de mutirões e remoção de criadouros;

 

• Reforço na parceria com a Sanasa, para atuação, principalmente, em relação às caixas d´água e nas ações de mobilização social;

 

• Capacitação das equipes das redes pública e privada de saúde no sentido de formar uma rede sensível e competente para suspeição, notificação, atendimento e acompanhamento dos pacientes.

 

• Sensibilização das secretarias municipais e autarquias para a questão da dengue, no sentido de eliminação de criadouros nos equipamentos próprios da Prefeitura.

 

• Revisão e adequação das estratégias de informação, comunicação e mobilização social;