Publicado 16 de Outubro de 2014 - 5h30

Pela rua de terra batida, pessoas carregam baldes. Levam nos braços, empurram com os pés os vazios e chegam carregados com eles no carro, porta-malas, onde for. É raro caminhar mais de cinco minutos pela periferia de Campinas, no bairro Jardim Santo Antônio, sem ver alguém carregando recipientes, baldes, que antes eram usados para colocar roupa suja. Coloridos, brancos, com propaganda de cloro para piscina ou floridos.

A nova relação dos moradores com a seca e falta de chuva é esta: procurar água, carregá-la e racionar o que conseguir levar. Ontem, moradores se enfileiravam à espera da vez para conseguir um pouco de água potável do caminhão-pipa que veio socorrer a sede de uma parte do bairro, um dos mais castigados pelos cortes no abastecimento de Campinas.

A Sociedade de Abastecimento de Água e Esgoto (Sanasa) informou que o abastecimento da parte baixa do bairro foi normalizado ontem à tarde, e que “nas próximas horas” normalizaria o abastecimento do bairro inteiro. Enquanto isso, a população já viveu pelo menos cinco dias sem água. Desde terça-feira, os caminhões-pipa têm chegado para auxiliar na situação. Quando chegam, a ansiedade contamina os moradores, que querem garantir o máximo do recurso hídrico disponível.

“É a primeira vez que faço isso, em três anos que moro aqui. Em casa não chega uma gota de água. É um sofrimento. Tenho que descer da minha casa e subir com o balde cheio. Quase não aguento”, contou a embaladora Laura Alves de Sousa, de 28 anos. Segundo ela, a água dos dois baldes que carregava não duraria até a tarde. Tem que cozinhar, beber, lavar roupa, tudo dela. “Tenho caixa d’água, mas está lá no fundo da casa, e o caminhão não vai até lá.”

A zeladora Marli Jesus Bezerra, de 45 anos, disse que chegou a comprar uma caixa d’água, mas que o caminhão-pipa não chega até as casas. “Situação crítica. Ontem saiu até briga na rua, porque o caminhão veio e acabou a água. O pessoal não queria deixar o caminhão ir embora. Não era suficiente. Eu comprei uma caixa d’água, mas eles não enchem. Aí temos que vir buscar e encher na mão”, relatou. O clima de animosidade entre os vizinhos tem se acirrado com a falta de água e o aumento do calor. Muitas crianças que estavam na fila ontem carregavam garrafinhas de água de 500 ml, para beber.

No bairro Jardim Santo Antônio, o caminhão-pipa fez viagens durante todo o dia de ontem para abastecer a população. Segundo a Sanasa, moradores do Vista Alegre e Jardim Santo Antônio, ambos na região do Ouro Verde, receberam ontem reforço no abastecimento. O posto de saúde Padre Anchieta também recebeu abastecimento ontem pelo caminhão-pipa.

A Sanasa informou ainda que os pedidos de caminhão-pipa na cidade aumentaram 50% desde o final de semana, quando a captação foi reduzida pela primeira vez. Cada caminhão possui entre 8 mil e 16 mil litros de água e tem capacidade para abastecer, em média, 16 casas. Se o seu bairro está sem água, entre em contato com a Sanasa pelo telefone 0800-7721195 que a situação será avaliada.

Itu: MP quer vetar grandes eventos e novos loteamentos

A ação civil pública que cobra soluções para o problema da falta de água em Itu recebeu mais de 1 mil reclamações da população, segundo o Ministério Público de São Paulo. O órgão pede na ação que a prefeitura proíba a realização de grandes eventos, a inauguração de novos loteamentos, além de estabelecer multa ao governo municipal quando moradores ou comerciantes ficarem mais de 48 horas sem receber água.

Moradores do bairro Cidade Nova, em Itu, relatam estar sem água nas torneiras há pelo menos 15 dias. O bairro está entre os mais afetados pelo desabastecimento no município. Segundo a promotora de Justiça de Itu, Maria Paula Pereira da Rocha, o MP ingressou com a ação exigindo que o descumprimento do limite de 48 horas implicasse em multa de R$ 100 mil por ponto, seja ele comercial ou residencial. A Justiça, porém, indeferiu o pedido em primeira instância, e autorizou multa de apenas R$ 200. “A gente queria um valor maior que, de fato, fizesse com que a prefeitura tivesse interesse em levar água. O Ministério Público entendeu que essa decisão não foi suficiente”, disse a promotora. O MP recorreu da decisão há um mês, mas a ação ainda não foi apreciada.

Sobre a realização de grandes eventos, a promotora citou a falta de estrutura para receber o festival de música eletrônica Tomorrowland, marcado para maio do ano que vem. A Justiça, no entanto, indeferiu a proibição do festival, que tem expectativa de público de 60 mil pessoas. Maria Paula destacou ainda que a cidade não tem capacidade de acolher novos moradores. “Enquanto a prefeitura não fizer obras de infraestrutura e comprovar no processo, por um laudo pericial, que a água que tem e a estrutura que tem comporta a vinda de novos habitantes, o MP pediu para que não sejam autorizados novos loteamentos”, declarou.

O presidente do Comitê de Gestão de Águas de Itu, Marco Antônio Augusto, garante que o abastecimento a órgãos públicos, como das áreas da educação e saúde, além dos prédios do MP, Fórum, Mercado Municipal e Rodoviária. Segundo ele, esses lugares são abastecidos por dez caminhões-pipa que percorrem a cidade todas as noites. (Da Agência Brasil)