Publicado 13 de Outubro de 2014 - 5h30

Desde janeiro de 2012, seis pessoas morreram e outras 230 ficaram feridas em acidentes que envolveram ciclistas nas ruas e avenidas de Campinas. Foram 236 até junho deste ano, segundo levantamento da Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas (Emdec). A falta de respeito dos motoristas com ciclistas é a maior causa, seguida de imprudência e de abuso da velocidade. Os acidentes acontecem, principalmente, em cruzamentos e em conversões de mão. A maioria das vítimas utilizava a bicicleta como meio de transporte diário para o trabalho. Muitas vezes, sem o uso de equipamentos de segurança, como capacetes, além de sinalizadores nas bicicletas. De acordo com o levantamento, 2013 foi o período mais violento desses últimos dois anos. Ao todo, foram cinco mortes, a maior parte delas no primeiro semestre do ano. Nos 12 meses foram 100 feridos em 105 acidentes.

Apesar de ter somado mais acidentes envolvendo ciclistas — 118 casos no total — , o ano de 2012 não registrou vítimas fatais. Já os dados do primeiro semestre deste ano tem apresentado uma aparente queda nos acidentes envolvendo ciclistas. Foram 13, que resultaram em 12 feridos e uma morte.

A única vítima fatal do último semestre foi registrada no mês de março. O marceneiro Geso Pereira de Souza, de 64 anos, foi atropelado por um motorista embriagado na Vila Joaquim Inácio. Segundo a polícia, a vítima morreu no cruzamento das ruas Engenheiro Augusto de Figueiredo e Ciro Lustosa. Souza estava em uma bicicleta motorizada e voltava de um banco, no bairro Ponte Preta, onde tinha sacado sua aposentadoria.

De acordo com a mulher da vítima, a aposentada Ivone Ferreira de Souza, o motorista atravessou o cruzamento em alta velocidade. “Ele não fugiu porque nem conseguia andar de tão bêbado. Ele ficou dentro do carro”, afirmou a mulher na época do acidente. O motorista, identificado como João Pereira Correa, 62 anos, foi submetido ao etilômetro, que constatou a presença de álcool acima do permitido no sangue e acabou preso.

Na semana passada, a ciclista Flávia Cristina dos Santos, 40 anos, também foi atropelada por uma motorista que dirigia um Gol na Rua Barão de Jaguara, por volta das 9h. Ela seguia para o trabalho quando o Gol mudou de faixa para fazer uma ultrapassagem e derrubou a ciclista, que sofreu escoriações. A motorista fugiu, mas acabou detida na Rua General Osório por policiais militares que receberam a denúncia do acidente minutos depois. “Ainda levantei e falei pra ela descer do carro e ajudar. Ela xingou e foi embora correndo. Infelizmente, essa atitude não é única. Os motoristas não respeitam os ciclistas”, disse a mulher que utiliza o meio de transporte há 18 anos. “Todo dia vou trabalhar de bike e também uso nos finais de semana. Costumo usar roupas de ciclismo e capacete, porque parece que os motoristas respeitam mais”, analisou a mulher, que disse ter medo de pedalar pelas ruas de Campinas. “Infelizmente não temos uma sociedade que apoia o ciclismo. Só não deixo de andar porque tenho experiência e sei, mas me preocupo com o ciclista que não tem o costume”, lamentou.

O diretor sindical e ciclista Eduardo Gomes, 46 anos, usa a bicicleta para percorrer os dez quilômetros entre sua casa, na região do Jardim Proença, até o trabalho, na área central. “É um festival de desrespeito e fechadas. Se quiser sobreviver tem que usar os equipamentos de segurança e ficar atento. Os motoristas enxergam a bicicleta como um inimigo a ser abatido. A lei de trânsito, que diz que o maior tem que proteger o menor, não é cumprida. E quando é ônibus tudo fica pior. Tem que ter cautela, porque é perigoso. Conheço vários ciclistas que sofreram acidentes por imprudência dos outros”, afirmou.

O diretor do Serviço Móvel de Urgência (Samu), José Roberto Hansen, que atende a maior parte dos acidentes do tipo, explicou que é preocupante o grande número de acidentes envolvendo ciclistas. “A falta de respeito impera. Os motoristas têm que entender que o ciclista é como um pedestre. Não tem proteção alguma. Quem dirige, acha que está competindo com a bicicleta, e não percebe que qualquer mínimo toque na bicicleta derruba a pessoa”.

As quedas causadas por este tipo de colisão são sempre perigosas. “Elas causam dano grave, quando não matam. Tem que respeitar a distância de pelo menos dois metros para não correr o risco de encostar”. Hansen disse ainda que os ferimentos mais comuns são os traumas de crânio e as fraturas. “Geralmente as vítimas são trabalhadores que não estão à passeio. Estão retornando para suas casas e, a maioria não usa equipamento de segurança e acaba se machucando bastante”, explicou.