Publicado 13 de Outubro de 2014 - 5h30

Quando começaram a surgir os primeiros resultados da apuração das eleições deste ano, além da sucessão presidencial, as atenções se voltaram para verificar como ficariam as composições no Congresso Nacional. É importante conhecer o resultado das urnas para entender as intenções do eleitorado, que ficam explícitas até nas escolhas que são aparentemente mais esdrúxulas, mas espelham a forma como a sociedade encara seus desafios políticos. E o resultado deve ser respeitado.

Quando surgiram as manifestações de rua no ano passado, pouco se podia definir dos objetivos dos protestos, que iniciaram com um grupo de jovens que desejava a redução da tarifa de ônibus. A proporção do movimento não permitiu que se identificassem bandeiras e convencionou-se que as manifestações eram “contra tudo o que aí está”, uma generalização cruel e que lança mais dúvidas que propostas. Com o resultado das urnas, pode-se supor que muitos desejam em verdade o retorno a um status conservador que vinha se perdendo nas propostas ditas mais liberais.

A lição que sai deste pleito em andamento é que a polarização entre o liberal e o conservador, o moderno e o atrasado, o social e o demagógico, tudo é apenas uma posição imposta por um discurso de ódio, de radicalismos, de desrespeito pela vontade do próximo. Foram cunhados preconceitos contra evangélicos, como se fossem os únicos a marcar posições em relação a temas como aborto, casamento homossexual ou liberação de drogas, posições que são compartilhadas com outros importantes segmentos religiosos, como os católicos ou espíritas. A eleição de líderes considerados ultraconservadores gerou manifestações de repúdio e inconformismo nas minorias derrotadas, que se apressaram a considerar ignorantes os que optaram por uma moral diferente.

É precipitado dizer que o resultado da eleição foi um retrocesso. As abordagens de temas mais polêmicos, em verdade, ficaram no limite do antagonismo e do desrespeito, cunhando-se dogmas e mobilizações que raramente chegaram a consenso. De toda forma, o Congresso Nacional, as assembleias estaduais e câmaras municipais são o espelho da sociedade. É ali, por vontade livre dos cidadãos, que estão as representações de todos os setores, pelo bem ou pelo mal. Alegar que os parlamentares são um contrassenso em relação ao desejo de mudanças é ignorar o desejo solene e manifesto de uma maioria. Em suma, se a política é conservadora, está em questão se a sociedade realmente deseja mudanças mais radicais.