Publicado 13 de Outubro de 2014 - 11h01

Por Inaê Miranda

A pediatra Mariana Zambom ressalta que o uso de antibióticos pode ser reduzido, mas que os principais problemas são sedentarismo e alimentação

Edu Fortes/AAN

A pediatra Mariana Zambom ressalta que o uso de antibióticos pode ser reduzido, mas que os principais problemas são sedentarismo e alimentação

O aumento da obesidade tem levado os pesquisadores a buscar explicações para a epidemia que atinge 40% da população dos Estados Unidos e 20% da população brasileira. A mais recente pesquisa americana, divulgada na última semana, sugere que os antibióticos de amplo espectro utilizados mais de quatro vezes antes dos 2 anos podem levar a problemas relacionados ao peso. A medicação é utilizada no tratamento das infecções bacterianas, mas o uso inadequado pode modificar a microflora intestinal. Os especialistas afirmam que o antibiótico é uma droga boa, mas que deve ser usada quando bem indicada.

Os pesquisadores analisaram os dados de 64.580 crianças — coletados entre 2001 e 2013 — tratadas em clínicas de cuidados primários. Mais de dois terços das crianças fizeram uso de antibióticos antes de completarem dois anos. Entre elas, o aumento do risco de desenvolver obesidade infantil foi de 2% a 20% maior do que em crianças que não foram expostas ao tratamento nessa faixa etária. A frequência do uso da medicação e o tipo de antibiótico também foram levados em conta no estudo. A maior propensão de desenvolver a obesidade foi observada nas crianças tratadas pelo menos quatro vezes antes dos dois anos.

Os especialistas do Hospital Infantil da Filadélfia, responsáveis pelo estudo, observaram que os antibióticos de amplo espectro — utilizados para combater um maior número de bactérias diferentes — foram responsáveis por aumentar o risco de desenvolvimento da obesidade. O mesmo efeito, segundo ressaltaram, não foi observado nos antibióticos de espectro reduzido. De acordo com os pesquisadores aponta mais um motivo para considerar com mais cuidado o uso de antibiótico e a preferência por medicação de espectro reduzido.

“No nosso intestino nós temos milhões de bactérias, que é o esperado. Quando se compara o grupo de bactérias dos gordinhos com o dos não gordinhos, elas são diferentes. E os pesquisadores estão descobrindo que o antibiótico pode causar na alteração na flora intestinal. Como esse microbioma intestinal está relacionado com a obesidade, mudando a flora com o antibiótico você facilita a chance de ter o problema”, explica a médica Mariana Porto Zambon, professora da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e responsável pelo ambulatório de obesidade da Criança e do Adolescente do Hospital de Clínicas.

A pediatra ressalta que o antibiótico é uma droga boa, responsável por uma revolução no tratamento das infecções, e que deve ser usada quando bem indicada. “Se a infecção não é grave e você tem o foco da infecção, é importante tratar pontualmente, se possível, com antibiótico de menor espectro, que causa menor alteração na microbiota intestinal. Nos pacientes internados, o médico deve pesar o risco/benefício. Em muitos casos é necessário utilizar os antibióticos de amplo espectro evitando o risco de morte da criança.” O estudo relaciona ainda o uso precoce de corticoide — outro grupo de medicação — com o aumento do risco de desenvolvimento da obesidade.

De acordo com Mariana Zambon, a pesquisa é importante, mas ela destaca que o antibiótico não é o principal responsável pelo excesso de peso da população. “A obesidade é considerada hoje um problema de saúde pública pelo grande número de pessoas que atinge. E isso acontece porque a população está comendo mais e fazendo menos atividade física. A oferta de alimento é muito maior, especialmente dos industrializados, ricos em gordura e com alto teor de açúcar. Também temos hoje o que chamamos de hora tela, que é o tempo que passamos na frente do computador, do tablet, videogame, televisão. Esse desequilíbrio entre a oferta de comida maior e a redução do gasto de energia é o que leva à obesidade.”

A médica aponta os principais caminhos para reduzir o excesso de peso na população e nas crianças. “Evitar ou combater a obesidade implica em comer menos e gastar mais energia. Na faixa etária até 5 anos não existe outra conduta. Lógico que esse cuidado envolve a mãe ganhar menos peso na gravidez, a amamentação até os 6 meses, introdução de alimentos naturais, restringir a ingestão de refrigerantes, papas artificiais e evitar o uso de açúcar antes de um ano”, orienta. São algumas mudanças que estão ao acesso de todos e que podem de fato refletir na balança.

Escrito por:

Inaê Miranda