Publicado 12 de Outubro de 2014 - 5h30

A polarização entre PT e PSDB no segundo turno das eleições presidenciais no Brasil deflagrou uma intensa guerra entre militantes dos dois partidos nas redes sociais. São dezenas de posts lembrando casos de corrupção dos dois partidos e comparando o momento econômico e social do País com o período no qual Fernando Henrique Cardoso era presidente, entre 1994 e 2002. O objetivo de ambos é o mesmo: denegrir a imagem do adversário e exaltar os feitos do seu candidato. A avalanche de acusações e bate-boca entre militantes dos dois partidos afastou das redes sociais vários usuários que estão esgotados com os exageros sobre o tema.

Para o cientista político Pedro Rocha Lemos, professor da PUC-Campinas, as redes sociais deveriam ser utilizadas para debater ideias e plataformas políticas. No entanto, as acusações visando denegrir a imagem do adversário estão se sobressaindo às propostas. “Estou vendo muitas acusações de ambos os lados. As acusações de forma baixa e sem elementos deixam o debate ruim. A política é um campo de disputa pelo poder e uma democracia implica que tem que existir um campo ético para as pessoas poderem discutir”, analisa.

O especialista avalia que essa disputa bélica e repleta de ofensas não traz frutos para nenhum dos lados e prejudica o processo eleitoral. “Os partidos e cabos eleitorais que usam desse artifício estão é prejudicando o debate”, completa.

O gerente de marketing digital Francisco Monari, de 32 anos, não é ligado a nenhum partido político, mas declarou voto em Aécio Neves (PSDB). Ele faz campanha contra o PT no Facebook postando matérias a respeito dos casos de corrupção do partido e com críticas a respeito das políticas econômicas do governo federal. Segundo ele, o objetivo principal é tirar o PT do poder.

“Não sou dos maiores simpatizantes dos governos do PSDB, mas entre um e outro não penso duas vezes em quem apoiar. A corrupção entre eles (PT) é um dos grandes motivos. E não sou a favor do lado político deles de extrema esquerda. O PT vem plantando o comunismo no Brasil desde quando está no poder e essa forma de poder totalitária eu nunca seria a favor”, diz.

Para ele, os posts e matérias colocadas na rede social fazem os amigos refletirem a respeito do processo eleitoral. “Sem dúvida, mas uma coisa é certa. Se eu mudei a opinião ou fiz uma pessoa pensar melhor sobre o que está acontecendo já valeu pra mim”, acrescenta.

Monari evita entrar em conflito nas redes sociais sobre o tema e foge das polêmicas. “No começo das eleições sim (entrava em discussões), mas depois não tinha mais paciência para debater com pessoas que já estão com a opinião formada, o debate não leva a nada, só a mais indignação por ela estar negando a verdade dos acontecimentos”, destaca.

O jornalista Pablo Amaral, de 34 anos, é militante do PT e abastece sua página com matérias a respeito dos feitos e do governo e com críticas ao adversário. Ele reconhece, no entanto, que a disputa política nas redes sociais extrapolou os limites e baixou o nível. “Está uma Faixa de Gaza. Nós queremos fazer uma campanha propositiva, mas devido aos últimos acontecimentos, quando começaram uma série de ataques a nordestinos e beneficiários do Bolsa Família, optamos em fazer a defesa independente de apresentar a plataforma política”, explica. O sentimento “raivoso” que contaminou as redes sociais durante a campanha afastou o militante das discussões políticas no Facebook. “Quero discutir política, não bate-boca pela internet. A campanha na internet tomou um rumo que na minha avaliação é difícil se tornar algo propositivo. Sou militante político, não virtual”, pontua. Segundo Amaral, as postagens e a defesa à campanha da presidente Dilma Rousseff (PT) são pessoais, e não têm orientação partidária. “Minha campanha para a Dilma é voluntária, porque acredito no projeto que está colocado. Vivi os tempos de FHC e não quero retornar”, finaliza.

A briga entre petistas e tucanos nas redes sociais recebe críticas de usuários que são neutros na disputa e estão cansados do tema. “Não aguento mais essa briga entre PT e PSDB. Falta argumento de ambos os lados, só vejo bate-boca e troca de acusações. Estou cansada disso, por isso tenho entrado pouco no Twitter e Facebook”, reclamou a personal trainer Raquel Miranda, de 27 anos.

Brigas são criadas por militantes, e não por marqueteiros

A troca de ofensas e discussões nas redes sociais sobre as eleições presidenciais é um sentimento isolado da militância e não uma estratégia dos partidos para desqualificar o adversário. A avaliação é do cientista político Pedro Rocha Lemos, professor da PUC-Campinas. No entanto, ele acredita que o bate-boca virtual reflete a campanha pouco propositiva dos candidatos, que estão mais preocupados em desconstruir o rival do que apresentar suas propostas de governo para o País. “Acho que isso (troca de acusações) é da militância, não do partido. Mas a militância reflete o que as campanhas sinalizam, de um querer desconstruir o outro a qualquer custo. O conflito faz parte, mas tem que ter a ética como referência”, analisa Rocha Lemos.

Para o especialista, os militantes de PT e PSDB deixaram os argumentos de lado e partiram para o ataque, em vez de manter uma discussão política em alto nível. “Mesmo não concordando e tendo posicionamento contra, é preciso colocar os argumentos de uma maneira fundamentada. As acusações de forma baixa e sem elementos deixam um ambiente ruim e que não é nada agradável”, finalizou. (BB/AAN)