Publicado 14 de Outubro de 2014 - 5h00

Por Maria Teresa Costa

Cabeleireira Cristiane Durante usa a água que lava as verduras para regar as plantas

Dominique Torquato/ AAN

Cabeleireira Cristiane Durante usa a água que lava as verduras para regar as plantas

Bairros das regiões mais altas de Campinas (SP) continuaram nesta segunda-feira (13), pelo terceiro dia consecutivo, sem receber água nas torneiras, porque a baixa vazão e a qualidade ruim do Rio Atibaia obrigou a Sociedade de Abastecimento de Água e Saneamento (Sanasa) a restringir a captação. A cidade precisa de 4 metros cúbicos por segundo (m3/s) mas está tendo 2,8m3/s.

 

Com isso, bairros da região do São Bernardo, Jardim Londres, São Gabriel, Ouro Verde e Campo Grande tiveram mais um dia de torneiras secas enquanto o rio continua agonizando - a pouca água tem deixado peixes presos nas pedras, e a quase não há vazão após a captação.

 

Calor

 

O calor já levou a um aumento de consumo de água, mas a Sanasa ainda não dimensionou porque não está conseguindo fazer o pleno abastecimento. De 3,1 m3/s que vinha captando no Atibaia até a semana passada, teve que reduzir para 2,8 m3/s desde a noite de sexta-feira (10) porque a água está sem oxigênio, por causa da concentração de poluentes. Essas condições afetam a capacidade de tratamento.

 

No domingo (12), a empresa havia voltado a captação plena, mas nesta segunda-feira teve que reduzir novamente. A empresa de abastecimento tem autorização para captar 4,1 m3/s dentro da outorga, mas esse volume não tem sido retirado desde o início da crise hídrica, em novembro de 2013.

 

Reservatórios

 

Essa vazão não consegue levar água até os 25 reservatórios elevados que estão nas áreas mais altas, por falta de pressão. Sem os reservatórios elevados cheios, quem vive nas regiões ao redor não consegue ter água nas torneiras. A água que sai deles chega até as residências por gravidade.

Caso da comerciária Keila Santana, que mora no Jardim Ouro Verde. As torneiras secaram na madrugada de sexta, depois a água voltou, sumiu de novo, apareceu e ontem sumiu de novo. "Fomos pegos de surpresa e nem teve como fazer uma reserva.", afirmou. Na casa do instrutor de autoescola Reginal da Silva Rodrigues, o drama da falta de água durou até a manhã de desta segunda-feira.

 

"Desde sexta o fornecimento oscilou o tempo todo. Mesmo tendo caixa de água acabei ficando sem. O ruim é que a Sanasa corta o fornecimento e não avisa nada", afirmou.

 

Crítica

 

A cabeleireira Cristiane Durante, que enfrenta falta de água desde sexta e só não parou o trabalho no salão porque tem caixa de água, disse que a falta de água dos reservatórios é responsabilidade dos órgãos legisladores e principalmente dos representantes governamentais que não tomaram medidas preventivas, mesmo sabendo do agravamento da crise.

 

"Nos pegou de surpresa ,coincidentemente, após a semana da eleição", afirmou. Ela disse que a água utilizada para lavar as verduras e legumes está sendo reaproveitada para molhar as plantas com regador." Minha vizinha reaproveita água da maquina de lavar roupa para lavar banheiros e terraços", disse.

 

Baixo nível de oxigênio

 

Um dos principais problemas ambientais da concentração de poluentes na água é a falta de oxigênio nos rios. Os dejetos contêm matéria orgânica, que serve de alimento para bactérias. No processo, elas consomem oxigênio, baixando o nível do gás na água. Em regiões urbanas, é comum encontrar rios praticamente sem oxigênio, onde o odor é forte e a fauna aquática não consegue sobreviver.

 

Para tratar essa água, a empresa aumentou a quantidade de cloro de 10ppm (partes por milhão) para 50ppm. "A baixa vazão impede a diluição natural dos poluentes e isso nos obrigada a aumentar o uso de produtos químicos no tratamento para distribuir água com qualidade à população", disse o diretor técnico da Sanasa, Marco Antonio dos Santos.

 

Em condições de vazões normais, a Sanasa usa, por exemplo, 8 ppm (parte por milhão) de cloro, volume que subiu para 44 ppm em fevereiro, no pico da baixa vazão do rio. O volume de cal hidratado usado cresceu 82%, o de cal virgem, 109% e de carvão ativado dobrou.

 

A qualidade da água, disse, será também fator decisivo na implantação do racionamento. "O consumidor que receber água terá certeza que ela é de qualidade. Se não conseguirmos tratar a água, não vamos distribui-la", afirmou. Se a água no Rio Atibaia chegar a uma situação de tanta poluição que o índice de oxigênio dissolvido for igual a zero, a empresa não terá como tratar essa água.

 

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Maria Teresa Costa