Publicado 13 de Outubro de 2014 - 5h00

Por Tadeu Fernandes

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De vez em quando vovó Naná volta ao consultório. Lembram do Pedro Henrique, o netinho mimado da vovó, já tem quatorze anos.

Desde criança não gosta muito de comer, vovó sempre ofereceu generosas vitaminas de leite batido com frutas, leite com todos tipos de novos preparados lançados na mídia, e assim foi...

Atualmente, adolescente, ele continua com aquela alimentação não muito saudável, leite, sanduíche, iogurtes, pizza, salgadinhos, enfim, passa longe das frutas, legumes, leguminosas, verduras e carne, essa somente na forma de hambúrguer ou nuggets.

O motivo da consulta, segundo a vovó, é meio constrangedor: “O Pedrinho faz muito pum! E são muito fedidos!”. Não bastasse isso, ele tem muitas cólicas, reclama que a barriga está sempre estufada, sem contar os episódios de diarreia, frequentes e constrangedores.

Geralmente o incomodo aparece num período entre meia hora e duas horas após o consumo de leite ou laticínios, o diagnóstico está muito fácil, mas...

A vovó quer um remédio para vermes, ela é da época das fossas, água de poços artesianos, quintal de terra, tempos em que as crianças “pegavam” vermes, hoje, com o saneamento básico, água tratada e ausência de quintais, os vermes passaram a ser moscas brancas.

O leite é um alimento de excelente qualidade nutricional. Apresenta adequado equilíbrio de macro e micronutrientes, fatores de crescimento, elementos de defesa, satisfazendo todas as necessidades nutricionais dos recém-nascidos nos primeiros meses de vida.

Com o passar dos meses e anos novos alimentos não lácteos são apresentados às crianças, e começa a diversidade alimentar, orientada pela tradicional pirâmide onde devemos comer de tudo um pouco, bem distribuído.

Com isso as células intestinais responsáveis pela produção das enzimas digestivas vão se adaptando aos novos alimentos, no caso da lactase, a enzima que faz digestão da lactose, tem uma redução, principalmente após os cinco anos.

A deficiência congênita de lactase é um defeito genético raro, no qual alguns recém-nascidos, principalmente prematuros, nascem sem a capacidade de produzir lactose. Nesse caso a intolerância à lactose é permanente.

No caso em questão temos uma deficiência evolutiva, segundo os novos estudos de origem genética, e quando analisamos a epidemiologia vemos dados interessantes: populações que nos seus primórdios dependiam da pecuária muito mais que da agricultura, eram grandes consumidores de leite e laticínios em geral, hoje apresentam menor prevalência de intolerância à lactose em relação àquelas que dependeram mais da agricultura para sobreviver.

Os dados mostram intolerância a lactose de 5% no nordeste da Europa próximo ao Mar do Norte e vai aumentando na direção do centro-sul da Europa para chegar próximo aos 100% na Ásia e Oriente Médio.

No Brasil, devido à miscigenação, apenas 25% da população apresenta intolerância à lactose.

E o Pedrinho é um deles!

Por favor não confunda alergia a proteína do leite de vaca que é outra doença, frequente em lactentes, com a intolerância a lactose, que é o açúcar do leite.

Pedro Henrique deve se afastar da lactose para melhorar os sintomas, deve se alimentar com novas fontes de cálcio, principalmente vegetais de cor verde-escura como brócolis, couve, agrião, mostarda, além de peixes como o salmão e sardinha, mariscos e camarão.

Vovó Naná logo gritou: mas doutor ele não come nada disso!

Vovó, agora ele é um adolescente, pode escolher, ou come, ou pum!

Escrito por:

Tadeu Fernandes