Publicado 14 de Outubro de 2014 - 9h37

A professora Patrícia da Costa Santana acompanha alunos da Escola Municipal Nelson Neves de Souza, de Mogi Mirim, em estudo do meio ambiente

DIvulgação

A professora Patrícia da Costa Santana acompanha alunos da Escola Municipal Nelson Neves de Souza, de Mogi Mirim, em estudo do meio ambiente

A professora Patrícia Mariana da Costa Santana pode se orgulhar de ter desenvolvido um projeto que não só envolve várias disciplinas, como também ultrapassa fronteiras. As atividades envolvendo educação ambiental e artes, que ela realiza desde 2009 e já passou por duas escolas de Mogi Mirim, na região de Campinas, tem uma parte desenvolvida no Japão e outra na Guatemala. Além disso, já teve seus resultados publicados em livro.

Estudantes aprendem antiga brincadeiraEntre 2009 e 2011, o projeto foi desenvolvido na Escola Municipal Nelson Neves de Souza. De 2012 para cá, está sendo realizado na Escola Professora Ana Isabel da Costa Ferreira. Desde que foi implantado, cerca de 300 estudantes do 1° ao 5° ano do Ensino Fundamental já passaram pela iniciativa, baseada no conceito de pesquisa-ação, definida pelo teórico Michel Thiollent.

Tudo começou em 2009, quando Patrícia decidiu sair em busca de uma forma de trabalhar o conteúdo a partir do cotidiano dos alunos, sem se esquecer do programa oficial para as séries iniciais. O tema selecionado foi consumismo, e a primeira etapa foi se reunir com os demais professores da escola para definir quais eram os problemas enfrentados pela clientela da unidade em relação a essa temática. “Chegamos à conclusão de que os desafios da escola estavam relacionados com o consumismo exagerado, o excesso de brinquedos, principalmente eletrônicos, e o grande número de videogames, internet e televisão pelas crianças”, lembra-se.

 

Estudantes visitam depósito de lixo da cidadeEnquanto ela começava a esquematizar um projeto, a médica veterinária, autora e ilustradora de livros infantis Ellen Pestili visitou a escola para falar de seu trabalho como escritora durante outro evento. E, assim, de repente, começou a parceria que levaria o projeto para longe. Ellen falou a Patrícia de seu interesse em trabalhar com educação ambiental em escolas e as duas começaram a pensar num projeto conjunto. Em seguida, submeteram o projeto à Federico Foundation, organização não governamental (ONG) presente em vários países que se dedica a patrocinar projetos educativos. Aprovadas, elas passaram a ter, além do interesse, dinheiro para as atividades.

Com o auxílio financeiro (a ONG não divulga valores), foi possível comprar edições do livro O Presente de Aniversário, de autoria de Ellen, para os alunos. A obra aborda o consumismo e propõe que as crianças retomem o prazer das brincadeiras de roda, em grupo.

Em seguida, como a ideia era colocar os alunos para perceberem, na prática, os problemas que o consumismo pode agravar, as turmas foram levadas a uma visita ao depósito de lixo de Mogi Mirim. “A experiência não é a mais agradável, mas problematiza a questão. Com essa visita, os alunos percebem a necessidade de preservar e do uso consciente dos recursos”, conta a professora.

 

Artes

Estudantes fazem apresentação teatral sobre o tema propostoEm seguida, depois de vários momentos de conversa sobre o tema, a turma montou uma peça teatral com fantoches, adaptando o livro de Ellen. A apresentação reuniu também os pais, convidados a integrar o projeto. A partir de então, cada criança fez entrevistas com a família, pedindo que fossem narradas como eram as brincadeiras de antigamente. Pais e avós também descreveram como eram os locais que hoje estão degradados. “As pessoas deveriam andar mais de bicicleta com os filhos porque isso não polui o meio ambiente, além de deixar a saúde melhor”, ensina o estudante David Marques de Oliveira Pinto, um dos muitos exemplos de posturas aprendidas e, a partir de agora, são defendidas pelos alunos.

O assunto também inspirou exposição de trabalho aberta à visitação dos paisA garotada gostou tanto da ideia que começou, com a ajuda das famílias, a fazer brinquedos, muitos deles com sucata. Foi aí que surgiram carrinhos e bonecas, por exemplo, exatamente como se fazia há três ou quatro décadas. As peças produzidas deram origem a uma exposição para toda a comunidade. “Em todas as etapas, os momentos de diálogo são os mais importantes, pois eles permitem a participação não só dos alunos, como também das famílias, além de desenvolver a autonomia do grupo”, explica Patrícia.

Japão

 

Como Ellen e Patrícia tinham o objetivo de desenvolver atividades que pudesse ser adotadas como método para outras escolas, elas decidiram convidar uma professora brasileira que vivia no Japão para desenvolver o mesmo projeto por lá e trocarem experiências.

Tanto Ellen como Patrícia têm cursos de pós-graduação na área ambiental e queriam também testar uma forma de oferecer consultorias a distância para escolas e educadores. Enquanto o projeto era desenvolvido em Mogi, a mesma metodologia foi empregada por uma amiga de Ellen, a professora Josélia Longatto Fuidio, coordenadora de uma escola para brasileiros no Província de Aichi-Ken. “Pudemos perceber que, de algum modo, fazia-se a diferença. Houve um interesse muito grande dos pais e dos alunos no Japão, o que mostra que esse é um caminho certo para desenvolver atividades na escola”, conta Patrícia.

O patrocínio da Federico Foundation é renovado a cada ano, a partir da avaliação das atividades desenvolvidas. Assim, elas conseguiram manter a parceria e desenvolver o projeto nos anos seguintes. Para divulgar, a instituição patrocinou, em 2013, a edição do livro Literatura Infantil, Arte e Educação Ambiental: Um Diálogo Possível, distribuído gratuitamente a escolas e professores. Além disso, Ellen pôde visitar a escola no Japão que desenvolvia o projeto de forma simultânea.

A cada ano, o projeto ganhou atividades diferentes, como o envolvimento dos alunos no plantio de árvores próximo a córregos poluídos e a troca de cartas entre os estudantes do Brasil e do Japão, o que aumentou o interesse. Agora, Josélia trabalha na Guatemala e continua parceira de Patrícia e Ellen, desenvolvendo e trocando experiências em projetos semelhantes na América Central. “O projeto deu certo em todos esses anos porque tem o diferencial de envolver toda a comunidade”, afirma Patrícia.

 

Saiba Mais

 

O trabalho desenvolvido pela professora Patrícia Mariana seguiu a proposta conhecida como pesquisa-ação, definida pelo sociólogo francês radicado no Brasil, Michel Thiollent, ex-professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e aposentado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). De acordo com esse método, busca-se produzir informações e conhecimentos por meio de ações na comunidade, transformações, situações e condições. A pesquisa-ação se constrói a partir da relação e do diálogo constante entre os especialistas e os leigos, integrantes de um determinado grupo social, diretamente afetado pelas intervenções.