Publicado 12 de Outubro de 2014 - 7h00

François Truffaut em ação: cineasta realizou 26 filmes em seus 52 anos de vida e agradou crítica e público

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François Truffaut em ação: cineasta realizou 26 filmes em seus 52 anos de vida e agradou crítica e público

Quem estiver em Paris neste mês (e até 25 de janeiro) poderá ver a exposição sobre o cineasta François Truffaut na Cinemateca Francesa. São fotos, documentos, textos, livros, cartazes, retrospectiva de filmes, palestras e lançamentos de CDs e DVDs. O motivo? Homenagear um dos grandes diretores de cinema por ocasião dos 30 anos da morte dele.

Truffaut ajudou fundar a Nouvelle Vague (nova onda), movimento que revolucionou o cinema no final dos anos 1950. Parisiense nascido em 6 de fevereiro de 1932 ele morreu cedo, em 21 de outubro de 1984, aos 52 anos. Em 25 deles, dirigiu 26 filmes e conseguiu realizar quase sempre o sonho de qualquer cineasta: agradar público e crítica.

 

Também roteirista, produtor e ator, transformou alguns de seus filmes em símbolos de uma geração, caso do clássico 'Jules e Jim - Uma Mulher para Dois' (1962) que, junto com 'Acossado' (Jean-Luc Godard, 1960), se tornou referência da Nouvelle Vague: filme alegre, ainda que fale de perdas, e que amplificou a exuberância de Jeanne Moreau.

A sequência do Museu do Louvre (citada em 'Os Sonhadores', Bernardo Bertolucci, 2003) ainda mantém a graça e o frescor. Assim como é belo e triste o final de 'Os Incompreendidos' (1962), que trata do abandono na infância — um dos temas caros ao diretor.

O outro foi a mulher. Não por acaso, instado pelo Caderno C a escolher o Truffaut favorito, o crítico de cinema de O Estado de S.Paulo, Luiz Zanin Orichio respondeu: “'Os Incompreendidos'. E, se há um segundo lugar, 'A Mulher do Lado' (1981), com a indizível Fanny Ardant”.

 

Para Márcio Sallem, do site Cinema com Crítica (São Luís), Truffaut foi desprezado pelos que deveriam amá-lo incondicionalmente (a família), encontrou a verdadeira casa na mística sala de cinema e, ironicamente, desenvolveu “um dos olhares mais sensíveis pela infância e relacionamentos vistos até hoje”.

 

A influência dele é tamanha, diz o crítico, que grande parte da produção cinematográfica francesa contemporânea “invariavelmente flerta com o naturalismo sentimental proposto nas narrativas do jovem poeta da nova onda”.

De acordo com Pedro Martins Freire, do Diário do Nordeste de Fortaleza, o que mais surpreende em Truffaut é o fato de os personagens dele expressarem a realidade da vida em sociedade “num equilíbrio entre leveza e ousadia”. “Uma revisão revela ser 'Os Incompreendidos' a pedra fundamental da filmografia dele, mas é 'Jules e Jim - Uma Mulher para Dois' a “pilastra”.

 

Para Susana Schild, crítica do jornal O Globo (Rio de Janeiro), Truffaut amava seus personagens. De 'Os Incompreendidos' a 'De Repente num Domingo' (1983), de 'Jules e Jim' a 'Adele H' (1975), o diretor “autorizava” a preservação de certa inocência, quase infantil, em sonhos e desejos dos personagens, por mais bizarros que pudessem parecer. “Para ele, este desejo sempre esteve em primeiro plano, como uma corrida rumo ao mar do personagem Antoine Doinel ao final de 'Os Incompreendidos'.”

Frescor

“Os cinco filmes tendo Antoine Doinel como protagonista fizeram-me perceber não só a força de um personagem, mas o frescor, a maneira intimista e estranhamente nostálgica com que Truffaut captava cenas triviais, o cotidiano, os pequenos detalhes da vida num mundo em mudança”, afirma Humberto Silva, critico de cinema e professor da Fundação Armando Álvares Penteado, de São Paulo (Faap).

Humberto faz uma relação do ciclo Doinel com o chamado romance de formação e, neste sentido, diz que Truffaut levou para a tela o sentido de formação do caráter. O que importa em obras assim, assegura, é a sutileza com que o personagem descobre o mundo, confronta-o com a condição infantil e é compelido a se ajustar às exigências do mundo adulto. “Para mim, tivesse apenas feito os filmes do ciclo Doinel, Truffaut teria um lugar de destaque entre os mais sensíveis cineastas da história do cinema.”

O crítico garante que, se há um diretor com o qual pode sentir numa imagem o rito de passagem, o sentido de transformação por meio de situações da vida, ele recorre a Truffaut. Para ele, Truffaut é algo como um grande “beletrista”. Concorda que ele não trouxe propriamente grandes invenções para o cinema e trabalhou a linguagem sem oferecer rupturas notáveis, “mas o fez com maestria e com uma carga emocional poucas vezes vista em outros cineastas”.