Publicado 12 de Outubro de 2014 - 9h00

Por Marita Siqueira

Rafa Carvalho, educador físico por formação e idealizador do Sarau da Dalva, lê um poema

Edu Fortes/ AAN

Rafa Carvalho, educador físico por formação e idealizador do Sarau da Dalva, lê um poema

O Bar do Manoel - Estrela Dalva, no Parque São Quirino, não é o que tradicionalmente se consideraria um centro de cultura. É um típico botequim, onde os amigos se encontram para tomar uma cerveja ou uma dose de cachaça, degustar petiscos e experimentar pratos típicos de estabelecimentos do gênero, como caldinho de mocotó e de piranha. Tem mesa de sinuca, barulho de conversa e de carros passando pela rua. Mas, é nesse ambiente boêmio — e familiar — que, toda segunda quarta-feira do mês, jovens poetas de Campinas compartilham seus versos ou poemas de autores consagrados no Sarau da Dalva, evento cuja proposta contrasta com um mundo em que a troca de ideias está cada vez mais relegada ao mundo virtual.

A reportagem do Caderno C acompanhou a edição realizada na última quarta-feira, 8 de outubro. O evento estava marcado para iniciar às 19h, mas, os convidados começaram a chegar depois disso, aos poucos. O Sarau, propriamente dito, teve início por volta das 21h, quando as mesas já estavam “unidas” e os “comensais” reunidos para “devorar” versos, poemas completos e até canções de autoria dos presentes. Os jovens eram maioria, a maioria na faixa de 20 a 35 anos, homens e mulheres em proporção semelhante e ligados à arte por formação. Que fique bem claro: essas são características da maioria, não do todo.

 

Aline Turim, por exemplo, tem 22 anos e é auxiliar de escritório. A escrita, por tempos tratada como hobby, passou agora a ter um espaço para divulgação. “Sonho em viver disso”, conta ela, que participa do Sarau da Dalva desde a primeira edição — a da semana passada foi a quinta — e aproveitou o espaço para apresentar o livro 'Erêzias', editado de maneira independente e bem caseira. A publicação passou a integrar o pequeno acervo de livros que os organizadores do sarau vêm reunindo com o objetivo de montar uma biblioteca para os frequentadores do espaço e a comunidade do bairro.

 

Em média, os saraus atraem 30 pessoas. Na estreia, contudo, esse número chegou a 100. Para o idealizador do projeto, Rafael Carvalho, de 28 anos, o processo de consolidação é lento, porém gradativo. “É um trabalho a longo prazo. A poesia passou anos elitizada no Brasil. Lentamente, essa imagem está mudando. Saiu da academia, do espaço concentrado, para atingir todos os lugares. Queremos mostrar que a poesia está presente no cotidiano, na maneira de ver o mundo, na tradição oral, enfim, em tudo”, diz o poeta que, por formação, é educador físico.

Uma das referências de Carvalho é o Sarau Cooperifa, de São Paulo, pioneiro na disseminação da poesia na periferia da metrópole e em atividade há 15 anos. “Conversei muito com o Marco Pezão (um dos organizadores do Cooperifa) e o que ele me passou foi que eu não podia desistir, nem que houvesse só duas pessoas. Ele me contou que, na primeira edição do sarau, só cinco participaram. E, agora, está consolidado”, diz. O Cooperifa começou em Taboão da Serra e, posteriormente, foi transferido para o Bar do Zé Batidão, na Chácara Santana, e é realizado todas as quartas-feiras. “Campinas ainda não tem fôlego para sarau semanal, mas mensal tem todo o sentido de ser”, reflete.

 

Fluxo

Assim como o modelo paulistano, o Sarau da Dalva é realizado numa região entre o Centro e a periferia da cidade. Por enquanto, Carvalho constata que há fluxo representativo de artistas e público oriundos tanto da região central quanto de Barão Geraldo, distrito onde a cultura é mais enraizada. A intenção dele, no entanto, é a de atrair também os moradores do bairro. “Tenho vontade de tornar o local um espaço cultural para o bairro, movimentar a comunidade”, afirma Rafa, como é chamado, e que conta com pleno apoio do pai, o “seo” Manoel, proprietário do bar. Aliás, às vezes, Manoel deixa o balcão para declamar versos aprendidos na Bahia, sua terra natal, rica na tradição oral.

 

Os primeiros passos para a alcançar a comunidade já puderam ser observados durante a reportagem. Morador do São Quirino e freguês do Bar do Manoel, Cláudio Hjort, de 54 anos, acompanhou o início do sarau, que desconhecia, e revelou ter diversos poemas escritos, porém engavetados. “Vou vir no próximo e vou trazer o que eu escrevo”, disse. Outros já chegaram “munidos” de palavras, como o ator Hugo Cacilhos, de 33 anos, com uma pasta nos braços. “O sarau é essencial como local de expressar a arte. E participar, se preparar para vir, é também um estímulo para pensar”, disse.

 

Há de se observar também que, com o avanço da tecnologia, as tradicionais anotações em papel, como as feitas por Cacilhos, vêm perdendo o espaço para os celulares. Caso do roteirista William Sampaio, de 22 anos, que utilizou a cola via telinha do telefone para declamar. E assim se forma o sarau, com formas diferentes e conteúdos diversos. Tem aqueles que vão com palavras fortes de protesto, como fez a estudante de circo Letícia Benevides, de 19 anos, ou aqueles que querem levar às pessoas uma bela música, como o ator e cantor Léo Araújo, de 20 anos.

Em Campinas, há alguns eventos sazonais do gênero que ocorrem no Sesc, na Casa de Cultura Fazenda Roseira e em bibliotecas municipais, entre outros espaços. A consolidação de projetos fixos como o Sarau da Dalva abre a possibilidade para um eventual calendário de saraus na cidade. Por ora, fica a esperança do fortalecimento gradativo dessas frentes.

 

Serviço

 

Sarau da Dalva

 

Toda 2ª quarta-feira do mês

 

No Bar do Manoel - Estrela Dalva (Avenida Lafayete Arruda Camargo, 767 - Parque São Quirino) - Campinas. Telefone: (19) 3296-4912

 

De graça

Escrito por:

Marita Siqueira