Publicado 15 de Outubro de 2014 - 5h00

Gustavo Mazzola

Cedoc/RAC

Gustavo Mazzola

O outdoor mostrava uma linda mulher deitada e de olhos fixos em quem passava na avenida, no início da Francisco Glicério, anunciando lingeries de um jeito especialmente sexy. Mas quis o destino que o grande painel se posicionasse bem de fronte ao sol de uma quente tarde de primavera. E o que aconteceu, então? Estufou em algumas de suas 32 folhas, exatamente onde mostrava o delicado ventre da modelo, tornando-a uma gordota, longe dos propósitos almejados pela publicidade. Que fiasco!

São os anúncios que — às vezes —, sem culpa de ninguém, não dão certo: naquele caso, foi tudo planejado dentro da respectiva estratégia publicitária preparada, deveria funcionar como uma luva em meio, talvez, a outras peças para a TV, inserções nas revistas e nos jornais... e no entanto aconteceu. Fazer o quê, não?

 

Nem sempre é somente culpa do destino. Existem casos em que aconteceu uma “derrapada” mesmo do departamento de mídia da agência. Lembro-me, nos tempos da empresa, de uma campanha de equipamentos elétricos automotivos em que se previa a exibição de cartazes em todo o Nordeste, principalmente nas suas capitais.

 

Tudo bem, só que muitos deles foram parar nos costados de um grande muro — em frente a uma famosa zona de prostituição da capital pernambucana. Correu-se para diminuir o prejuízo, grandes reprimendas do cliente à agência, e da agência à firma exibidora: nada adiantou, o estrago já estava feito.

 

E os anúncios fora de hora, precipitados. Exemplos? Vamos lá: ainda na década de 70, acontecia o lançamento de um novo modelo de auto rádio, que chegava com a proposta de revolucionar o mercado de som automotivo. Ninguém precisava mais girar o botão para procurar a emissora preferida. Bastava apertar uma tecla e, mecanicamente, o ponteiro ia para o ponto desejado. Sensacional!

 

Mas a concorrência também vinha com essa novidade. Era preciso agir rápido. Uma grande campanha foi preparada pela agência de propaganda, com comerciais na TV, anúncios nas revistas e nos jornais das capitais, outdoors chamativos e insinuantes, folhetos, bandeirolas, tudo o que se tinha direito. A publicidade começou a aparecer em todo o país, o material impresso distribuído nas lojas revendedoras, promotores em ponto de bala, treinados. Então, o inesperado: o produto enfrentou problemas de distribuição — não por culpa do fabricante, que terceirizara a operação —, e não estava na data certa nos pontos de venda. Resultado: o comprador chegava à loja, não encontrava o auto rádio anunciado... levava o do “inimigo”. Aquele atraso na entrega do “pedido” gerara um tropeço na propaganda, e fazia estourar as vendas do concorrente.

 

Talvez um pouco fora do contexto, mas uma história interessante envolveu o magnata da comunicação no século passado, Assis Chateaubriand, conhecido pelas suas atitudes inusitadas para chegar aos seus propósitos: em desagravo à nomeação pelo presidente Dutra de seu desafeto Dario de Almeida Magalhães para o cargo de Ministro da Educação do Brasil — nomeação logo cancelada pelas ameaças de a Cadeia Associada ficar toda ela contra o Governo —, o jornalista, não contente com o resultado de sua conquista, mandou publicar no 'Diário da Noite', do Rio, um anúncio bombástico: “O antigo deputado federal dr. Dario de Almeida Magalhães deliberou fazer voto de pobreza, resolvendo distribuir para as Santas Casas de Misericórdia do país, orfanatos, creches, colégios, confrarias e irmandades a importância de 6 milhões de cruzeiros, que é a quanto monta o seu patrimônio individual. O dr. Dario está pronto a receber a visita pessoal das entidades interessadas no recebimento de seus donativos em sua residência, à avenida Atlântica, número 430, telefone 473014, Edifício Himalaia.” Não é preciso dizer que uma fila interminável de “interessados” se formou no dia seguinte á frente da mansão no Rio de Janeiro, prontos para receber os donativos anunciados “de brincadeira” por Chateaubriand. Foi, sem dúvida, um anúncio que também não deu certo.

 

 

Para terminar, um anúncio que ficou na história dos anúncios que deram errado: a Aerovias publicou, certa vez, nos jornais de todo o país uma anúncio que enaltecia serviços e segurança nos voos: “Voe pela Aerovias. Nossos aviões não caem”.

 

As vendas é que “caíram” mesmo. Levantava-se uma dúvida: “Então, aviões podem cair? Quem me garante que esses aí também não caem”?