Publicado 15 de Outubro de 2014 - 9h20

Como ocorreu no ano passado, os professores do Estado se mobilizam para obter reajuste salarial em 2017. E já estudam greve

Gustavo Tilio/Especial para a AAN

Como ocorreu no ano passado, os professores do Estado se mobilizam para obter reajuste salarial em 2017. E já estudam greve

A paquistanesa Malala Yousafzai, uma das ganhadoras do Prêmio Nobel da Paz deste ano, usou, em discurso na Organização das Nações Unidas (ONU), uma frase que, mais do que oportuna, é uma homenagem a quem acredita na educação. “Um aluno, um professor, um livro e uma caneta podem mudar o mundo”, disse a jovem de 17 anos, que, em 2012, foi atacada por talibãs simplesmente por defender o direito das mulheres de frequentar as escolas.

Ao profissional homenageado neste 15 de outubro, as demandas, mundo afora, não são poucas. São lutas por melhores salários, condições de trabalho, reconhecimento e, em alguns casos, pela possibilidade de dar suas contribuições para ajudar na transformação, como expressou Malala. De algo, no entanto, nenhum professor poderá se queixar: de uma forma ou de outra, ensinando o simples ou o complexo, desvendando o abstrato ou esclarecendo o que já é concreto, sempre deixará marcas. Quem não tem ao menos um professor inesquecível em sua biografia?

 

No Dia do Professor, o Correio foi em busca de algumas dessas histórias e fez a seguinte pergunta: Quem é seu professor inesquecível?

 

 

Escritora Telma GuimarãesTelma Guimarães

Escritora de livros infantis e didáticos de inglês

Minha professora de inglês de 6º e 7º anos da escola Monsenhor Bicudo, em Marília (SP), Tyoko, foi a responsável por uma grande mudança em minha vida: nota zero no primeiro bimestre, dois no segundo. Isso, no 6º ano! Fiquei triste, chateada comigo mesma. Decidi, a partir daí, cursar uma escola de línguas para melhorar meu desempenho nas aulas. Eu, que achava minha professora chata, brava, exigente demais, descobri que a chata e preguiçosa era eu! Não prestava atenção, brincava, conversava durante a aula. É claro que mereci essas notas! Após três meses de curso, melhorei e tirei uma nota bem melhor! Comecei a prestar atenção... E descobri na professora uma pessoa criativa, paciente e amorosa. Até hoje me lembro das músicas que aprendi com ela. Nossa classe era animada e cantávamos não só nas aulas da Tyoko, mas durante as outras também. Ela percebeu o meu esforço e passou a elogiar as minhas lições de casa, bem mais caprichadas. Gostei tanto da disciplina que prestei letras vernáculas e inglês na Unesp. Hoje, uma das coisas que mais me dão prazer é escrever em inglês. Num dos livros didáticos que recentemente publiquei pela Atual Editora, What’s up?, coloquei uma das músicas que ela ensinou para nós. Valeu, professora Tyoko!

 

 

Prefeito Jonas DonizeteJonas Donizette

Prefeito de Campinas

Tive muitos professores marcantes na minha vida, mas uma foi especial: a dona Lia, professora de português, de quem fui aluno durante quatro anos no Ensino Fundamental na Escola Estadual Professor Milton de Tolosa, no Jardim Leonor, no final dos anos 70. Ela dava aula com extrema alegria. Era enérgica e se preocupava muito se o aluno estava entendendo as suas explicações. Com ela, aprendi a beleza do nosso idioma e a me interessar pelas palavras e pela construção de frases. Nós nos reencontramos há alguns anos e fiquei muito feliz de vê-la. Ela lembrou-se de mim como aluno e disse que estava orgulhosa de ver aonde eu havia chegado em minha vida pública. Na escola, eu era representante de classe e ela já dizia que eu tinha vocação para liderar. Outro professor que me marcou também foi o dr. Luiz Antônio Alves Torrano, hoje diretor da Cidade Judiciária, com quem tive aula de português no curso de jornalismo da PUC-Campinas. Suas aulas eram excelentes. Gostava de sua postura e de seu preparo. Em nossas memórias da infância e da juventude, sempre há um lugar especial para os professores. É uma profissão tão importante que eles são como uma extensão da nossa família.

 

 

Adhemar J. G. Jacob, Diretor-superintendente do Grupo RAC  Adhemar J. G. Jacob

Diretor-superintendente do Grupo RAC

Homem de extrema cultura, o professor Carlos de Aquino Pereira é, sem dúvida, meu professor inesquecível, dos tempos de Colégio Notre Dame. Rígido, sério e muito correto, foi, por isso, muito mais professor que a maioria deles. Era um professor que vibrava quando lia em sala de aula os clássicos da literatura. Postura elegante, entonação de voz perfeita, pronúncia impecável com seu charmoso sotaque luso faziam-me também vibrar ao ouvir os sons de nosso bonito idioma. Conscientizou-me da necessidade de aprender a matéria para sentir o prazer do saber e não apenas para tirar notas boas no boletim. Convenceu-me de que a leitura era forte arma para adquirir cultura geral e, assim, estar sempre bem informado e conectado com todo o planeta. Tanto que ler é hoje o meu maior hobby. Ler sempre e muito, como dizia o meu querido professor Aquino, de quem serei sempre um aprendiz da língua portuguesa.

 

 

Professor Ezequiel Silva  Ezequiel Theodoro da Silva

Professor da Faculdade de Educação da Unicamp

São muitas e diversas as imagens de professores inesquecíveis que guardo na memória, cada qual com seu estilo inconfundível de ensinar e, ao mesmo tempo, para além do amor pelo conhecimento, um mestre capaz de incutir valores para o enfrentamento dos desafios que resultam dos conflitos da realidade e da vida. Teófilo de Queiróz Junior, meu professor de sociologia da educação durante o curso normal em Santa Cruz do Rio Pardo (SP), foi, sem dúvida, um daqueles professores especiais que, através de orientações, conselhos, jeitos de ser e modos de fazer, etc., teve uma grande influência na construção da minha identidade como pessoa e como profissional da educação. O seu estilo de ensinar nada tinha de espetacular, inovador ou bombástico. Pelo contrário, possuidor de vasto domínio sobre a matéria que ensinava, o professor Teófilo ditava ou passava na lousa um esquema do conteúdo e, geralmente sentado à mesa da sala de aula, discorria sobre os tópicos, esclarecendo as ideias através de exemplos vivos tirados da realidade social.  Nós, os alunos, fazíamos anotações no caderno, partíamos para as leituras complementares de aprofundamento e quase sempre (individualmente ou em grupo) aplicávamos os conceitos aprendidos ao estudo de problemas oriundos da comunidade onde vivíamos. Hoje, tanto tempo depois de ter conhecido esse importante professor que me fez também professor, posso dizer que ele se tornou perene e inesquecível em decorrência da sua cultura geral ou erudição, da sua atualização a respeito dos fatos da realidade e, mais do que tudo, da sua capacidade de gerar situações para o uso da nossa inteligência e, através dela, incorporar valores positivos para atuação em sociedade.

 

 

 

Dora Megid, Diretora da Faculdade de Educação da PUC-CampinasDora Megid

Diretora da Faculdade de Educação da PUC-Campinas

 

Frequentar a escola faz parte da minha vida desde sempre. Nela entrei aos 5 anos e dela nunca mais saí. Muitos professores e professoras fizeram parte desse percurso e em mim deixaram marcas. Porém, duas delas, de maneira especial, contribuíram substancialmente, inclusive para a minha escolha profissional. A primeira delas, Selma, foi minha professora de 3ª e 4ª séries e depois também de história, na 7ª e 8ª séries. Já naquela época, final dos anos 60 e início dos 70, tratava seus alunos e alunas de forma individualizada, promovendo fóruns para discussão dos conflitos, fazendo com que todos nós nos sentíssemos partícipes daquele ambiente, com potencial para aprender e se desenvolver. Com a professora Selma, aprendi a olhar cada aluno e cada aluna como alguém ímpar. A segunda, D. Célia, foi minha professora de matemática da 5ª à 7ª série.  Essa disciplina sempre foi minha preferida. Mas com a D. Célia aprendi que era importante que todos pudessem aprender. Respeitava nossas dificuldades, mas instigava-nos a superá-las. Permitia que trabalhássemos em grupo, na resolução de problemas, estimulando que encontrássemos caminhos diferentes. Também organizava encontros no contraperíodo para que estudássemos, os que estavam craques com os que tinham dúvidas, de maneira que ninguém ficasse para trás. Rememorando essas profissionais é possível justificar um pouco a minha alegria em ser professora. Seus bons exemplos me permitiram escolher com convicção e buscar trabalhar da melhor maneira possível pela Educação.

 

 

Dalcio MachadoDalcio Machado

Chargista do Correio

 

Estudei do Fundamental até o final do Ensino Médio na Escola Estadual Barão Geraldo de Rezende, no distrito de Barão Geraldo. Tive grandes professores por lá, precisaria de um caderno inteiro para falar da importância de cada um deles em minha vida. Além de muito talentosos, tiveram uma paciência de Jó comigo, pois meus cadernos e livros sempre tinham mais desenhos nas páginas do que o conteúdo das matérias... Meu eterno — e excepcional — professor de matemática, Romano, bem que tentou despertar em mim o amor pelos números, mas sua maior contribuição se deu de outra forma: como modelo! Provavelmente, foi a pessoa que mais caricaturei na vida. Se eu desenho bem hoje, o cavanhaque do Romano, definitivamente, tem boa parte dos créditos. (Enquanto escrevo estas linhas, fiquei rabiscando a caricatura dele — mais ou menos como fazia nas aulas). Há muitos anos não o vejo, espero que esteja muito bem. Romanão, obrigado!

 

 

 

Thiago Vieira Magalhães, Professor vencedor do concurso Experiência 10 em 2013Thiago Vieira Magalhães

Professor vencedor do concurso Experiência 10 em 2013

Meu professor inesquecível se chama Wagner Fernandes. Foi meu professor de história no cursinho, que ficava na Av. Anchieta quase em frente à Prefeitura, não existe mais. Era um tempo em que eu procurava entender as coisas, fazia uma guinada para as ciências humanas após ter feito eletrônica no antigo colegial técnico. E esse era um professor cuja voz destoava de todas as outras. Era o único ator participante da “ordem social” que questionava essa ordem a olhos vistos, e que estava presente nela, andando de cabeça erguida. Ele transbordava conhecimento, falava de poesia, falava sério. Era respeitado. Em meio a um bombardeio de refrigerantes, automóveis e lanchonetes, lá estava ele... O professor de história... O professor Wagner, voz grave e rouca, não precisava pedir silêncio para a turma. A paixão como conduzia as aulas falava por si e desarmava os desatentos. Se alguém pedisse silêncio, isso partiria dos próprios alunos que, como eu, queriam ouvi-lo. Histórias cheias de detalhes e reflexões de quem não só estudou como viveu aquele passado distante para nós. Wagner era e é nosso guardião da cultura e da tradição brasileiras. E guardião do direito de discordar dele — direito que lhe foi furtado um dia. Um artista, um poeta. Wagner mistura a dor e a alegria.

 

  

Sanae Murayama Saito, Presidente do Sindivarejista de Campinas e RegiãoSanae Murayama Saito

Presidente do Sindivarejista de Campinas e Região

Tive professores inesquecíveis na minha vida escolar. Tudo começou no Grupo Orozimbo Maia, na Avenida Andrade Neves, com dona Maria Aparecida, um anjo que me ensinou a ler e escrever. Com a dona Paula, era a tal da tabuada e com dona Maria Helena, a aritmética. Dona Yolanda era a mestre do cursinho para o Culto à Ciência, onde fui preparada para uma seleção disputadíssima. Já no Culto à Ciência, lembro de dona Mariinha, professora de canto orfeônico, com seus hinos: Nacional, da República, da Independência, da Bandeira, além dos ensinamentos de cidadania. Mas os meus maiores ídolos foram os irmãos Frattini — o Amaury e a Auzenda —, que me apresentaram à matemática, pela qual me apaixonei. Lembro também do saudoso professor Inácio, de desenho descritivo, que me fez enxergar o mundo através das perspectivas. Os três foram os meus mentores nas ciências exatas. Com eles, consegui a bagagem de que eu precisava para ingressar na Unicamp, no curso de estatística, recém-criado. Foram tempos áureos de Unicamp, onde formávamos uma grande família sob o comando de Murillo e da professora Maria Elisa Finni. Fui uma aluna abençoada! E esses e outros que não nominei foram os meus anjos na caminhada da vida.