Publicado 15 de Outubro de 2014 - 5h00

Por Inaê Miranda

João Pedro Favara, de 17 anos, tenta vaga em engenharia mecânica

Camila Moreira/ AAN

João Pedro Favara, de 17 anos, tenta vaga em engenharia mecânica

A lista de obras obrigatórias para os vestibulares aos poucos vem deixando de ser composta apenas por livros. O conteúdo audiovisual também passou a integrar a relação a ser estudada pelos candidatos.

 

Álbuns musicais consagrados, além de filmes e documentários, fazem parte do conteúdo cobrado em vestibulares de universidades como a Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb) e Faculdade Cásper Líbero.

 

As mudanças poderão ser adotadas em outros vestibulares. A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), por exemplo, não descarta incorporar as mídias em vestibulares futuros.

A lista de obras da UFRGS para o vestibular 2015 inclui livros de autores clássicos e bem conhecidos nos vestibulares, como o baiano Jorge Amado, Nelson Rodrigues, Gregório de Matos, além de autores contemporâneos como Lya Luft e a portuguesa Lídia Jorge.

 

A universidade, entretanto, inovou nesta edição ao cobrar o álbum Tropicalia ou panis et circensis, de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Mutantes e outros artistas.

 

A Cásper Líbero cobrará seis livros e quatro filmes, incluindo Corações e Mentes, de Peter Davis, sobre a guerra do Vietnã. Já a Uesb tem na lista três filmes e três livros. Um dos filmes é o documentário Garapa, do cineasta José Padilha, que retrata a seca e a fome no Nordeste.

Charles Casemiro, professor de literatura e de artes visuais do cursinho Oficina do Estudante, considera as mudanças positivas e destaca que a Faculdade Getúlio Vargas (FGV) e a Universidade de Brasília (UNB) já vêm cobrando conteúdos audiovisuais.

 

“Poder tratar de todas essas artes e compará-las acaba elevando o discurso estético, histórico, permite abordar realidade social e a identidade de grupos”, disse.

 

Para ele, o maior benefício da exigência é que, de maneira “forçada”, os estudantes serão levados ao cinema, ao teatro, ao museu, à história para compreender esses objetos e poder realizar a prova.

O professor de língua portuguesa do Objetivo, Márcio Andrade, também considera a mudança positiva, já que leva o vestibulando a sair do campo do conhecimento cristalizado.

 

“De uns anos para cá, muitos estudantes perderam um pouco da capacidade de fazer a ponte de sentidos entre os diferentes conhecimentos. Ficaram mais voltados ao tecnicismo da matéria e à relação mecânica do processo. E os vestibulares estão cobrando essa relação de sentido, a ponte interpessoal que existe entre todas as obras, sejam literárias, cinematográficas ou musicais. Porque o conhecimento não é cristalizado, mas flutuante. Transita de um conceito artístico para o outro”, afirmou.

 

Sobre as obras escolhidas, Casemiro ressaltou que elas não são exatamente aquelas populares e comerciais.

 

“Nesses casos, não se escolhe um filme por uma motivação popular, mas pela importância que a obra tem dentro do quadro da história da arte, pelo apelo teórico, que conduza a uma reflexão”, disse.

 

“São obras que remetem a contextos sociais, políticos e econômicos. Não são obras gratuitas, têm teor, alicerce e se conectam claramente com contexto histórico”, acrescenta Andrade.

Petrilson Pinheiro, coordenador acadêmico da Comissão Permanente para os Vestibulares da Unicamp (Comvest), considerou as mudanças interessantes e não descarta incorporar os conteúdos audiovisuais em listas futuras.

 

“Acho que essas obras tentam dialogar com o que a gente vê na contemporaneidade. A gente constrói sentidos multimodalmente, não só a partir do texto escrito. Como o vestibular da Unicamp passou por grandes mudanças recentemente (a redação passou para segunda fase, o número de questões na primeira fase passou para 90), não fizemos nenhuma discussão para trazer mais mudanças nesse sentido. Mas acho interessante e quem sabe para um futuro próximo a Unicamp possa sim incorporar essas outras mídias”, completou.

Os estudantes também veem com bons olhos a inclusão de conteúdos audiovisuais nos vestibulares.

 

“Seria uma nova forma de interpretar uma obra de arte e de fixar conteúdos. Em uma obra literária você usa a sua imaginação e conhecimento para interpretar o conteúdo, dar forma aos personagens. Em um filme, além do conteúdo que a gente vai absorver, os personagens e o cenário irão nos ajudar a fazer associações, reacender a memória”, disse João Pedro Favara, de 17 anos, candidato a uma vaga de engenharia mecânica.

 

“Acho que vai facilitar para o aluno, porque música, por exemplo, é mais acessível para a nossa geração”, disse Douglas Trassante, de 21 anos, que vai prestar medicina.

 

“Acho que ajuda a trazer o conteúdo para a nossa realidade e nos ajuda a relacionar conteúdos”, afirmou Amanda Antonioli, de 17 anos, que vai prestar engenharia química.

UNICAMP

A prova de literatura do vestibular da Unicamp terá um programa próprio de leituras a partir de 2015. Há oito edições a lista de obras estava unificada com a Fuvest.

 

Com a bibliografia própria, a Unicamp passa a exigir a leitura de 12 obras, em vez das nove atuais. Seis obras da lista atual estão mantidas na lista do Vestibular 2016.

 

De acordo com a Comissão Permanente para os Vestibulares da Unicamp (Comvest), a renovação das obras que compõem a lista será sempre parcial, e deve acontecer anualmente, em um ritmo que possa permitir o planejamento do professor e, ao mesmo tempo, acompanhar a dinâmica própria do sistema de ensino. Para o vestibular deste ano, a lista unificada com a Fuvest está mantida.

Petrilson Pinheiro, coordenador acadêmico da Comvest, explica que a lista para o Vestibular 2016 contemplou alguns livros distribuídos pelo governo federal nas escolas públicas, com a ideia de facilitar o acesso aos candidatos, e algumas das obras são de domínio público.

 

A lista própria será composta de obras de diferentes gêneros e extensões, podendo incluir romances, coletâneas de poemas e peças teatrais, mas também textos curtos, como contos, crônicas, peças de oratória ou de crítica, a fim de levar o vestibulando a ampliar o seu campo de estudos sem sobrecarregá-lo no volume de leituras. 

 

Poesia

- Carlos Drummond de Andrade, Sentimento do Mundo

- Luís de Camões, Sonetos

Contos

- Clarice Lispector, “Amor”, do livro Laços de Família

- Guimarães Rosa, “A Hora e a vez de Augusto Matraga”, do livro Sagarana

- Monteiro Lobato, “Negrinha”, do livro Negrinha.

Teatro

- Osman Lins, Lisbela e o Prisioneiro.

Romance

- Almeida Garret, Viagens na Minha Terra

- Aluísio Azevedo, O Cortiço

- Jorge Amado, Capitães da Areia

- José de Alencar, Til

- Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas.

- Mia Couto, Terra Sonâmbula

Escrito por:

Inaê Miranda