Publicado 08 de Outubro de 2014 - 5h00

 

A cada dia que passa, o aposentado Altino Souza Ramos, de 78 anos, observa da varanda de sua casa se as ruínas da fazenda do pai, já despontaram no meio da água. 

 

Há muitos anos, antes da formação da represa Atibainha, a plantação de arroz tomava 78 alqueires de terra, em Nazaré Paulista. Com o nível de água diariamente em declínio, Ramos e a família relembram o passado, mas sentem que o futuro para o camping que montaram está com os dias contados. O volume baixo também fez ressurgir nas últimas semanas, nas margens do reservatório, abaixo do quilômetro 49 da Rodovia Dom Pedro I (SP-065), um cemitério de veículos.

 

A Atibainha é a terceira represa a compor o Sistema Equivalente (reservatórios Jaguari-Jacareí, Cachoeira e Atibainha), do Cantareira, e assim como as demais, libera mais água do que recebe. Ontem, a Atibainha liberava para a Paiva Castro — que abastece a Grande São Paulo — e o Rio Atibaia, 18,27m3/s, e entrava em sua represa 14,20m3/s. Ou seja, uma perda de 4 mil litros por segundos.

 

A pior estiagem dos últimos 80 anos no Sudeste, preocupa Ramos. “Nossa plantação chegava do outro lado da margem. Eu ainda vou ver as ruínas da casa onde meu pai morava. É triste, mas do jeito que está, perdendo quase 50 centímetros por dia, é certo que vamos ver”, acredita. O camping perdeu clientes, e a embarcação que fazia passeios aos finais de semana está ancorada em um banco de areia, há 20 metros da água.

 

Há um ano, a represa Atibainha operava com 57% de sua capacidade. Nesta terça-feira (7), durante o recorde negativo de volume de água armazenado no Sistema Cantareira, o reservatório estava operando com 1,46% da capacidade total.

 

Especialistas já prevêem que se os reservatórios não tiverem uma recuperação dos seus volumes até abril de 2015, haverá desabastecimento.

 

Enquanto isso, a cada metro de água que baixa nos reservatórios, mais surpresas são reveladas em suas margens. Nesta terça, a reportagem do Correio encontrou um cemitério de veículos que surgiu há pouco mais de três semanas debaixo da Rodovia Dom Pedro I. “De repente o primeiro surgiu e na sequência os demais. Os mais antigos já diziam que aqui era ponto de desova”, contou o comerciante Rodrigo de Souza Lisboa, de 17 anos.

As carcaças de cinco veículos, sendo uma Fiorino, duas Belinas, um Opala e um Fusca reapareceram debaixo da ponte, próximo ao bairro São Lazaro, em Várzea. Um sexto veículo está despontando da água, que recuou naquele ponto mais de 100 metros de sua margem. “Estamos ficando sem água, mas descobrindo cada coisa. Ali na frente tem um campo de futebol que foi ‘reativado’ depois de décadas encoberto pela água”, apontou Lisboa.

 

Atibainha representa o segundo maior reservatório do sistema, com 25 quilômetros quadrados. Sem previsão de chuvas para os próximos dez dias, o Cantareira vem diariamente batendo recordes negativos. Dos 182,47 bilhões de litros de água do volume morto que começaram a ser bombeados em maio, já foram consumidos 81%, ou seja, 147,9 bilhões de litros.

 

Em 1966, iniciou-se a construção das barragens do Rio Juqueri (hoje, Paiva Castro), Cachoeira e Atibainha. Em 1976, começaram a ser construídos os reservatórios de Jaguari e Jacareí, acrescentando uma capacidade de 22 mil litros/segundo ao sistema.