Publicado 14 de Outubro de 2014 - 10h47

Por João Nunes

O Homem mais Procurado

João Nunes

O Homem mais Procurado

Primeiro, uma história curiosa sobre o ato de ter ido ontem assistir a O Homem mais Procurado, do holandês Anton Corbijn. A menina da bilheteria me entregou o ingresso e eu nem olhei. Na entrada de acesso às salas, o garoto indica: “sala quatro, subindo a escada rolante, à esquerda”.

Entrei, contudo, achei estranho que a sessão não tivesse começado, pois estava na hora, mas imaginei algum problema técnico. Quando as luzes se apagam, quem aparece na tela é o Denzel Washington de O Protetor.

Saio correndo e entro na sala contígua, a três, mas quem vejo é o Ben Affleck de Garota Exemplar. Não há opção para descer escadas; portanto, saio do cinema e entro de novo, apresento o ingresso outra vez e digo ao garoto que quero ver O Homem mais Procurado. E o menino indica: “Sala dois, neste piso à esquerda”.

Entro e confiro: lá está na tela o grande Philip Seymour Hoffman. Enfim, estou na sala certa, mas com o filme começado. Não me importo. Fixo-me na primeira cena num bar: ele pede um café e fuma desesperadamente. E eu salto na mesma hora para dentro do filme e não saio mais até o final.

Impossível sair de O Homem mais Procurado. E impossível não elogiar John Le Carré pela eficiência em contar mais uma história de espionagem (o livro chama-se A Most Wanted Man e sobre o qual Andrew Bovell escreveu o também elogiado roteiro) sem soar repetido ou cair no lugar comum.

Porque, afinal, não basta o realismo da narrativa, mas a forma como o autor cria uma envolvente estrutura dramatúrgica de relações daqueles que têm o poder de decidir (espiões, agentes, governos) e de quem está sendo caçado – o que não significa que este tampouco não tenha poderes; por isto ele é o alvo.

E não basta criar tensões – qualquer suspense minimamente bem-feito pode fazê-lo. O filme conquista nossa atenção com uma história cativante, mas propõe discussões éticas, políticas e religiosas que vão além do simples entretenimento; afinal, suspenses quase sempre têm a diversão por objetivo.

Por ser real, vale a pena fazer sinopse da história. Imigrante filho de mãe chechena e pai russo, Issa Karpo (o bom ator russo Grigoriy Dobrygin) chega a Hamburgo, se refugia na casa de família islâmica e chama atenção das polícias secretas da Alemanha e dos EUA.

Com marcas de tortura, ele quer recuperar fortuna deixada pelo pai num banco e seguir a vida. A questão: ele é ou não um terrorista? O fato ocorreu em 2001 com Murat Kurnaz, cidadão turco mulçumano e residente legal da Alemanha, que foi preso no Paquistão.

Em tempos de terrorismo universal, de acirramento de preconceitos culturais e religiosos, de radicalização de extremistas, e de violências e guerras intermináveis, a história ganha novos contornos, mas o que importa não é exatamente a realidade (estamos no cinema, não no mundo real) e, sim, se o filme consegue ultrapassá-la e ser simplesmente um cinema bem-feito artisticamente falando.

Sim, consegue e muito. A começar do citado roteiro e da história magnificamente narrada por Le Carré, cheia de personagens marcantes, mesmo aqueles de pequenos papéis, como o da agente Martha Sullivan (Robin Wright) ou o informante Jamal (Mehdi Dehbi), ou, ainda, o banqueiro Thomas Brue (Willem Dafoe).

E, claro, tem Philip Seymour Hoffman, extremamente contido, minimalista mesmo quando explode ou faz ironias ou reage afetuosamente quando, por exemplo, Jamal tenta sair fora do jogo – o afeto foi o jeito dizer que o rapaz não tem opções.

E, pensando no fato de que ele morreu (em fevereiro), a cena do ator ao piano serve como um presente da direção. Ela cabe no personagem circunspecto e frio, mas mostra seu lado humano, artístico e terno. Um instante de luz de uma história com poucos espaços para gestos de humanidade.

O Homem mais Procurado tem o poder de nos deixar preso a ele porque a direção soube fazer seu papel como deve ser: um bom suspense tem de nos capturar para si. Mas ele é mais que isso.

As questões éticas que propõe sobre poder, lealdade, traição, boas intenções de se alinhar ao lado que supomos ser o certo, e outras que reverberam no rastro destas ficam remexendo nossa cabeça. E nem mencionei os temas políticos e religiosos – que são muito mais difíceis de desenrolar. Disto tudo vem o peso de um grande filme.

Escrito por:

João Nunes