Publicado 12 de Outubro de 2014 - 8h08

Por João Nunes

30 Anos sem Truffaut

João Nunes

30 Anos sem Truffaut

Quem estiver em Paris neste mês (e até 25 de janeiro) poderá desfrutar de um programa imperdível: a exposição sobre o cineasta François Truffaut na Cinemateca Francesa. São fotos, documentos, textos, livros, cartazes, retrospectiva de filmes, palestras e lançamentos de CDs e DVDs. O motivo? Homenagear um dos grandes diretores de cinema por ocasião dos 30 anos da morte dele.

Truffaut ajudou fundar a Nouvelle Vague (nova onda) movimento que revolucionou o cinema no final dos anos 1950. Parisiense nascido em 6 de Fevereiro de 1932 ele morreu cedo, em 21 de outubro de 1984, aos 52 anos. Em 25 anos de carreira, ele dirigiu 26 filmes e conseguiu realizar quase sempre o sonho de qualquer cineasta: agradar público e crítica.

Também roteirista, produtor e ator transformou alguns de seus filmes em símbolos de uma geração, caso do clássico Jules e Jim – Uma Mulher para Dois (1962) que, junto com Acossado (Jean-Luc Godard, 1960) se tornou referência da Nouvelle Vague: filme alegre, ainda que fale de perdas, e que amplificou a exuberância de Jeanne Moreau.

A sequência do Museu do Louvre (citada explicitamente em Os Sonhadores, Bernardo Bertolucci, 2003) ainda mantém a graça e o frescor tanto tempo depois. Assim como é belo e triste o final de Os Incompreendidos (1962, foto), que trata do abandono na infância – um dos temas caros ao diretor.

O outro foi a mulher. Não por acaso, instado pelo Caderno C a escolher o Truffaut favorito, o crítico de cinema de O Estado de São Paulo, Luiz Zanin Orichio respondeu: “Os Incompreendidos. E, se há um segundo lugar, A Mulher do Lado (1981), com a indizível Fanny Ardant”.

Para Márcio Sallem, do site Cinema com Crítica (São Luís), Truffaut foi desprezado pelos que deveriam amá-lo incondicionalmente (a família). Afastado “da manifestação carinhosa do afago materno”, o jovem François encontrou a verdadeira casa na mística sala de cinema e, ironicamente, desenvolveu “um dos olhares mais sensíveis pela infância e relacionamentos vistos até hoje”.

A influência dele é tamanha, diz o crítico, que grande parte da produção cinematográfica francesa contemporânea “invariavelmente flerta com o naturalismo sentimental proposto nas narrativas do jovem poeta da nova onda”.

De acordo com Pedro Martins Freire, do Diário do Nordeste de Fortaleza, o que mais surpreende em Truffaut é o fato de os personagens dele expressarem a realidade da vida em sociedade “num equilíbrio entre leveza e ousadia”. Uma revisão revela ser Os Incompreendidos a pedra fundamental da filmografia dele, mas é Jules e Jim – Uma Mulher para Dois a pilastra”.

Para Susana Schild, crítica do jornal O Globo (Rio de Janeiro), Truffaut amava seus personagens. De Os Incompreendidos a De repente num Domingo (1983), de Jules e Jim a Adele H (1975), o diretor “autorizava” a preservação de certa inocência, quase infantil, em sonhos e desejos dos personagens, por mais bizarros que pudessem parecer. “Para ele, este desejo sempre esteve em primeiro plano, como uma corrida rumo ao mar do personagem Antoine Doinel ao final de Os Incompreendidos”.

François Truffaut – Um depoimento*

A primeira coisa que me vem à lembrança para falar de Truffaut é a forte impressão que me causou ver seus filmes em meados dos anos de 1980 no antigo cineclube do Museu Lasar Segall. Ver filme francês, então, quando não havia sequer vídeo-cassete, era uma ocasião rara, propiciada apenas em espaços de cinema alternativo. Lembro-me de, na época, ter visto quase todos os filmes dele. Truffaut estava na moda, ou em grande evidência em razão de seu desaparecimento precoce em 1984. Para mim, ver os filmes tinha o sentido de uma experiência estética, de descoberta, de deslumbramento.

Os cinco filmes tendo Antoine Doinel como protagonista fizeram-me perceber não só a força de um personagem, mas o frescor, a maneira intimista e estranhamente nostálgica com que Truffaut capta cenas triviais, o cotidiano, os pequenos detalhes da vida num mundo em mudança. Num sentido, que pude apreender só com o tempo, esses filmes do ciclo Doinel tiveram para o efeito da leitura de um romance de formação, algo como Os anos de aprendizagem de Wilhein Meister, de Goethe, A Educação Sentimental, de Flaubert, ou em nossa literatura O Ateneu, de Raul Pompéia. Com rara sensibilidade, no cinema no mesmo nível lembro apenas a Trilogia de Apu, de Satyajit Ray, Truffaut levou para a tela o sentido de formação do caráter.

O que importa em obras assim é a sutileza com que o personagem descobre o mundo, confronta-o com sua condição infantil e é compelido a se ajustar às exigências do mundo adulto. Para mim, tivesse apenas feito os filmes do ciclo Doinel, Truffaut teria um lugar de destaque entre os mais sensíveis cineastas da história do cinema. A imagem mais forte que me ficou é que por meio de Doinel Truffaut soube captar as profundas mudanças de comportamento na França entre as décadas de 1950 e 1960.

Mas também noto aqui que se Truffaut me causou grande impacto, também no período em que comecei a assisti-lo havia todo um clima que o separava a Jean-Luc Godard. Na mesma época, também em cineclubes, vi os filmes de Godard dos anos 1960. Excessivamente “intelectual”, Godard para mim não despertava a paixão que tinha por Truffaut. Mas o amadurecimento traz um sentido diferente para nossas experiências. Sem que tenha em nenhum momento perdido o afeto por Truffaut, com o tempo, vendo e revendo Godard, e principalmente lendo sobre os dois, passei a entender que Godard é um cineasta com um papel histórico mais importante.

Mais do que isso, adotei um ponto de vista que separa o quanto o cinema propicia de inovação, de desafio no uso da linguagem, de originalidade e revolucionário do que se confina aos afetos, ao agradável. Não há nisso, contudo, preferência, ou um dado pejorativo quando se considera a importância de um cineasta em função dos afetos, da dimensão subjetiva da vida. Entendo, sim, que Truffaut e Godard oferecem experiências estéticas distintas. Assim, quando tenho em vista o quanto um cineasta me possibilita refletir sobre o mundo, sobre a sociedade, sobre a arte e a cultura em geral, não tenho dúvida e me apego a Godard, que considero ao lado de Eisenstein, Orson Welles e Rossellini, para usar tipologia de Ezra Pound, na categoria dos grandes inventores.

Por outro lado, se tenho em vista um cineasta com o qual possa sentir numa imagem o rito de passagem, o sentido de transformação por meio de situações da vida, eu recorro a Truffaut. Em recorrência, ainda, a Pound, Truffaut é algo como um grande “beletrista”. Não trouxe propriamente grandes invenções para o cinema, trabalhou a linguagem sem oferecer rupturas notáveis, mas o fez com maestria, com uma carga emocional poucas vezes vista em outros cineastas na história do cinema.

* Humberto Silva, critico de cinema e professor da Fundação Armando Álvares Penteado, de São Paulo (FAAP)

Saiba Mais

15 críticos da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) elegeram o Truffaut favorito

Luiz Zanin Orichio (O Estado de São Paulo)

Os Incompreendidos

Amilton Pinheiro (Revista Brasileiros)

Os Incompreendidos

Ailton Monteiro (Diário do Nordeste)

Domicílio Conjugal (1970)

Márcio Sallem (site Cinema com Crítica)

A Noite Americana (1973)

Ivonete Pinto (Revista Teorema, de Porto Alegre)

Os Incompreendidos

Pedro Martins Freire (Diário do Nordeste)

Jules e Jim – Uma Mulher para Dois

João Nunes (Correio Popular)

Os Incompreendidos

Tatiana Babadobulos (blog Memória Cinematográfica)

Os Incompreendidos

Suyene Correia (Jornal da Cidade, de Aracaju)

A Mulher do Lado

Paulo Henrique Silva (Hoje em Dia de Belo Horizonte)

Fahrenheit 451 (1966)

Adriano de Oliveira Pinto (site Cine Revista de Porto Alegre)

A Noite Americana

Susana Schild (Jornal O Globo)

Os Incompreendidos

André Dib (Revista Continente, de Recife)

A Noite Americana

Renato Silveira (site Cinema em Cena de Belo Horizonte)

A Noite Americana

Humberto Silva (professor de cinema na Faap)

Todos com o personagem Antoine Doinel, que inclui Os Incompreendidos

A FRASE

“Faço filmes para realizar meus sonhos adolescentes, para me fazer bem, e se possível, fazer o bem para os outros”

François Truffaut (1932-1984)

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João Nunes