Publicado 10 de Setembro de 2014 - 9h55

Por Rogério Verzignasse

Galeria de fotos e vídeo: Tílio

Belas imagens dos jovens sacerdotes japoneses desembarcando doônibus, ou orando diane do altar no templo do Jd Eulina, feitas na terça. Fotos individuais do Cardoso (bispo entrevistado no abre) e do Tokujin Higa mostrando a planta da nova sede (ele écitado na retranca)

Religião ||| Solidariedade

Altruísmo move os budistas campineiros

Dinheiro doado por seguidores ergue novo tempo e financia projeto de ações sociais na periferia

Cultos acontecem

em ginásio erguido por

voluntários em 67

Rogério Verzignasse

DA AGÊNCIA ANHANGUERA

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A cena, na última terça-feira, impressionou quem visitava o templo. Os 40 jovens sacerdotes japoneses desembarcaram do ônibus e, um a um, cumprimentaram os fiéis que os esperavam no portão. Os budistas campineiros tinham trabalhado a manhã toda, preparando o almoço festivo. Mas, mesmo cansados com a viagem, os estrangeiros se acomodaram diante do ar e, por mais de meia hora, cantam em louvor a Deus, cadenciados por instrumentos. Só depois os rapazes desceram a escadaria e se alimentaram. Quem estava no templo pela primeira conheceu uma Campinas bem diferente: um lugar onde pessoas se abraçam, celebram, agradecem o tempo todo.

Nem mesmo os vizinhos, ali do Jardim Eulina, sabem disso. Mas aquele templo _ erguido com blocos estruturais pelos próprios fiéis _ é hoje um dos mais importantes centros regionais da Religião Budista do Caminho Primordial. A corrente HBS _ sigla da expressão japonesa Honmon Butsuryu-Shu _ reúne só na cidade mil seguidores dos ensinamentos essenciais de Sidartha Gautama, mestre religioso nascido em aldeia que hoje pertence ao Nepal. Ele viveu no século VI antes de Cristo. Há onze templos regionais da corrente espalhados pelo País.

Se engana, no entanto, quem imagina que o budismo se limita a cerimônias internas, faladas em japonês. Há planos ousados. A comunidade pretende inaugurar, no ano que vem, uma nova sede, com 300 metros quadrados exclusivos às celebrações religiosas. O prédio já começou a ser erguido ao lado do templo atual, no mesmo terreno, cedido pelo governo municipal em meados da década de 60. Mas, de lá, as celebrações espirituais vão se espalhar por toda a cidade.

Altruísmo

De acordo com o bispo Hakuei Cardoso, de 54 anos _ maior autoridade campineira do budismo primordial _ os rituais que já acontecem esporadicamente na casa dos fiéis, mas se planejam ações sociais na periferia, com educação religiosa de crianças e adolescentes. A corrente também quer expandir cultos em português. Mesmo preservados mantras no idioma original, e cultuadas frases ditas por ancestrais históricos, é muito natural que o idioma dos brasileiros ganhe mais espaço nas celebrações.

A corrente quer atrair mais adeptos com a proposta básica de difundir a felicidade plena: o estado de iluminação alcançado através da ação altruísta e do culto a Deus, que eles chamam de “Buda Primordial”. Ninguém, ali pelo templo,marca datas ou faz as contas sobre quanto pode vai custar o projeto ambicioso. Mas ninguém tem pressa. Como acontece há 33 anos _ desde que o grupo campineiro foi fundado _ todas as atividades são organizadas, planejadas e executadas com o trabalho voluntário de fiéis. É assim que brota a nova sede. O prédio, que tem custo estimado em R$ 300 mil, será pago por cada fiel que se dispuser a ajudar. Se acabar o dinheiro, paciência: a obra para, até que entrem mais trocados no caixa. “A essência budista é essa: cada cidadão se oferece para trabalhar pelos outros. Ninguém faz nada sozinho. Um precisa do outro”, resume o bispo.

O próprio Cardoso, por sinal, é um exemplo de aprimoramento individual. Ele não tem nada de japonês.O prenome Hakuei foi escolhido só para o sacerdócio. Paranaense, ele foi batizado como Osvaldete Cardoso. E entrou em um tempo budista pela primeira vez quando foi contratado, em Londrina, para serviços de manutenção do imóvel. Pois o rapaz, na época, se encantou com o que viu e ouviu. Tornou-se fiel e religioso, seguindo as etapas da carreira sacerdotal, até se tornar bispo. Designado para o cargo em Campinas há três anos, ele comanda as cerimônias organizadas diariamente. Não há sábado, não há domingo, não há feriado. “Daqui saio quando a religião precisar de mim em ouro lugar”, fala.

Dezenas de pessoas _ de todas as raças, credos e condições sociais _ se encontram diariamente para trabalhar no ginásio. Foi o que aconteceu na terça, na recepção aos estrangeiros. Ninguém perguntava o nome, a profissão ou o salário de quem chegava. Dentro da cozinha, todo mundo lavava louça, picava legumes, espremia laranja, empilhava pratos, limpava o chão. Todo mundo celebrava a chance de trabalhar em equipe. É como falou a fiel Lúcia Andriola Cardoso: “Aqui não se paga para entrar. Só tem de participar”. A senhora (esposa do bispo, por sinal) estava junto com a mulherada de avental, entre panelas e talheres.

CONHEÇA

As pessoas interessadas em obter informações sobre os horários de culto podem ligar para o telefone (19) 3242-2202. Quem quer detalhes sobre a estrutura da religião no Brasil pode acessar o site www.budismo.com.br

O templo campineiro, um dos quatro centros regionais do budismo primordial no interior paulista, fica na Rua Professor Martin Luther King Junior, 360, no Jardim Eulina.

BOX

A Honmon Butsuryu-Shu, traduzido do japonês, significa Religião Budista do Caminho Primordial do Sutra do Lótus, foi fundada em meados do século 19 pelo mestre Nissen Shounin, grande reformista na época, que passou a difundir mantras do Sutra Lótus, obra que reúne os ensinamentos essenciais de Sidartha Gautama, que o mundo conhece como Buda (“O Desperto”). Os budistas têm como lema a harmonia universal, através do aperfeiçoamento espiritual e da solidariedade entre os seres. O respeito a todos os humanos, indistintamente, é a regra básica para a convivência em sociedade.

RETRANCA

Corrente chegou ao Brasil há 106 anos

Depois do Japão, o Brasil é o país do mundo com o maior número de seguidores do Budismo Primordial. A religião chegou ao Brasil em 1908, quando desembarcaram no porto de Santos os imigrantes japoneses que se estabeleceram nas roças do Interior. Ibaragui Nissui, que fixou residência em Lins, passou a difundir por aqui os ensinamentos de Buda. Naquela cidade, existe até hoje o tempo Taissenji (matriz da corrente). Em Campinas, as primeiras reuniões budistas foram organizadas pelo imigrante japonês Toku Higa, que fixou residência por aqui em 1947. O primeiro templo foi inaugurado em 1982. Em 98, as cerimônias foram transferidas para o altar improvisado no mezanino de um ginásio de esportes construído pelos fiéis no terreno doado pela Prefeitura. O presidente atual do tempo é o empresário Tokujin Higa, que administra um importante complexo atacadista na região dos Amarais. Higa, por sinal, é padrinho de nada menos que 230 seguidores da fé. Ele próprio diz, todo orgulhoso, que ninguém no mundo tem tantos afilhados.

O NÚMERO

400

milhões

De pessoas no planeta todo são seguidoras fiéis ou simpatizantes das diferentes correntes do Budismo.

2

milhões

De brasileiros acompanham os cultos ou são simpatizantes da filosofia religiosa budista.

SAIBA MAIS

A filosofia budista nasceu na Índia, quando Sidartha Gautama, aos 35 anos de idade, se sentou à sombra de uma figueira, hoje conhecida como árvore de Bodhi, e prometeu não sair dali até conseguir atingir a iluminação espiritual. Segundo o budismo, o ser humano é regido pelas forças cármicas da ação e da reação. Nas encarnações sucessivas, se afloram para o indivíduo os frutos de suas boas ou más ações. É o mesmo princípio seguido pelo espiritismo kardecista. Cada vez que uma pessoa age, há alguma qualidade de intenção em sua mente, e essa intenção determina as consequências.

Escrito por:

Rogério Verzignasse