Publicado 09 de Setembro de 2014 - 20h28

Luciana Félix

DA AGÊNCIA ANHANGUERA

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Arquivo - Sugestão - Latrocínio do engenheiro-agrônomo Sérgio José Lauandos Zakia, de 60 anos, no Jardim das Palmeiras, próximo ao clube Hípica.

A Delegacia da Infância e Juventude (Diju) já é a terceira unidade policial que mais apreende arma de fogo em Campinas. Ela só fica atrás dos 2º e 11º distritos policiais, localizados nos bairros São Bernardo e Jardim Ipaussurama. Essas regiões concentram altos índices de roubos (2º) e de homicídios (11º). No primeiro semestre deste ano a delegacia da infância retirou 31 armas das mãos de menores infratores. No ano passado, no mesmo período, foram 33. Enquanto que na área do 11º DP, foram retiradas de janeiro à junho, 41 e do 2º, 32.

A apreensão de armas na unidade fica à frente até mesmo de delegacias especilaizadas em investigar quadrilhas organizadas e que cometem crimes de grandes proporções como a Delegacia de Investigações Gerais (DIG) e a Delegacia de Investigação Sobre Entorpecentes (Dise). No mesmo período a DIG apreendeu 27 armas nos casos que apurou ou que foram encaminhados para a unidade pela Polícia Militar e a Dise apreendeu 13 com traficantes.

O número é preocupante, segundo especialistas consultados pela reportagem. Eles alertam sobre a facilidade na aquisação de armamento e a banalização do crime pelos adolescentes.

Os dados são da secretaria de Estado da Segurança Pública (SSP) que mensalmente divulga os índices de produtividade policial por unidade.

Roubo

Em Campinas, a maior parte das ocorrências que envolvem adolescentes e arma são os roubos, segundo levantamento da Diju, seguido de ocorrências de porte ilegal de arma – quando o menor é flagrado pela polícia na rua ou até mesmo na condução de veículos, principalmente motos, além de armas eles também carregam drogas para traficar.

De janeiro a agosto deste ano, segundo dados coletados pelo Departamento de Polícia Judiciária de São Paulo Interior – 2 (Deinter), os menores foram responsaveis por 49 roubos de veículos e 35 roubos à pedestres – todos utilizando armas de fogo. Os dados não contabilizaram roubo à residência. Eles também foram responsáveis por 32 furtos e 16 furtos de veículos.

Os revólveres calibre 38, 32, 22 e a pistola 635 são os prediletos dos adolescentes. Cerca de 80% dessas armas recolhidas estão com a numeração raspada, o que impossibilita chegar até sua origem. Apesar da maioria serem revólveres, já houve casos em que o menor estava munido de fuzil.

Ainda de acordo com dados do Deinter, este ano a média mensal de adolescentes flagrados em atos ilícitos aumentou. Nos seis primeiros meses deste ano a média foi de 60 casos por mês. Em 2013, esse número foi de 52. O ano ficou fechado em 629 menores apreendidos. Entre os menores apreendidos naquele ano, estava o adolescente B.F.S.M. de 17 anos que teria atirado no engenheiro-agrônomo Sérgio José Lauandos Zakia, de 60 anos, no Jardim das Palmeiras, próximo ao clube Hípica.

O crime aconteceu na tarde dia 3 de fevereiro. A esposa de Zakia saía de casa com o seu carro quando foi abordada pelos bandidos. Ela gritou de susto. O engenheiro-agrônomo, que estava na sala, foi ver o que aconteceu, levou um tiro na virilha e morreu no local.

Preocupante

Para o especialista em segurança pública e ex-comandante geral da Polícia Militar, Rui Cesar Melo, o fato é extremamente preocupante e deve ser analisado como um todo. “O número é alto. Além deles não terem noção do que isso significa, muitos não têm consciência do estrago que podem vir a fazer. Acham que estão numa partida de videogame, sem nenhuma responsabilidade. Infelizmente a vida passou a não ter valor nenhum. Isso é um problema de contexto onde estão inseridas famílias desestruturadas e a falta de uma punição mais severa cria o ciclo permissivo que vai aceitando e enxugando gelo”, afirmou.

O especialista apontou que muitas vezes o menor é usado por criminosos que sabem que a lei é menos severa com adolescentes infratores. “Eles sabem que no dia seguinte o menor está liberado. Muitas vezes ele assume a posse da arma. Isso só mostra a importância da mudança ou alterações significativas na lei e também mais atuação no tráfico de armas que é imenso”, alertou.

A psicoterapeuta especialista em adolescente Vilma Soares afirmou que adolescentes infratores precisam de orientação urgente. “Apesar de saberem exatamente o que estão fazendo, eles são mais impulsivos e cometem o ato no susto, na reação, por isso é muito perigoso”, analisou.

Outro lado

O tenente coronel da Polícia Militar Marci Elber Resende da Silva afirmou que a corporação faz diariamente operações para localizar infratores com arma. “Não só com o menores, a PM está empenhada para flagar esses casos. Fazemos diariamente este trabalho”, disse ele. O coronel afirmou também que muitos crimes envolvendo posse ilegal de arma relacionado com menor, pode ter ocorrido com maiores, mas acabam indo para a Diju por ter menor envolvido. “Isso faz crescer a apreensão da unidade”, ressaltou. Ele confirmou que a maioria dos casos que envolve menores armado está relacionado com roubo.

O delegado do Deinter 2 Luis Segantin disse que a Polícia Civil faz um trabalho em parceria com a Vara da Infância e Juventude. “Quem fica responsável pela apuração é a Vara com nosso apoio. Mas procuramos identificar quais são os pontos mais sensíveis onde este tipo de ocorrência costuma acontecer. Mas é preciso que além da polícia, outras esferas articulem para mudar essa realidade”, afirmou.

ÍíQuadro – Apreensões de armas de janeiro a junho nas unidades

11ºDP (Jd. Ipaussurama)- 41

2ºDP (São Bernardo) - 32

Diju – 31

DiG – 27

9º DP (Jd. Aeroporto)- 25

4ºDP (Taquaral) - 21

1ºDP (Botafogo) - 20

7ºDP (Barão Geraldo) – 18

3ºDP (Chapadão)- 15

6ºDP (Campos Elíseos) - 14

Dise- 13

5ºDP (Jd. Amazonas) - 10

8ºDP (Vl. Padre Anchieta) - 8

13ºDP (Cambuí) - 7

10ºDP (Jd. Guarani) - 6

12ºDP (Sousas) - 4