Publicado 09 de Setembro de 2014 - 16h56

Por Adriana Leite e Silva

Adriana Leite

DA AGÊNCIA ANHANGUERA

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O comércio de Campinas sentiu um duro golpe em agosto: pior movimento dos últimos sete anos. A queda nas vendas em relação ao ano passado foi de 5,5% e foi a mais acentuada desde agosto de 2008, quando o mercado já sofria com os efeitos da crise econômica mundial. O faturamento no mês passado foi de R$ 1,25 bilhão. No ano anterior, o volume foi de R$ 1,29 bilhão. Mas o cenário pode melhorar neste mês com a entrada da primeira parcela do 13º salário dos aposentados, que deve injetar 130,3 milhões na economia da cidade.

O problema é que o endividamento dos consumidores vai desviar boa parte dos recursos para o pagamento de dívidas. A inadimplência foi uma das responsáveis pelos números negativos de agosto. No mês passado, subiu 7,79% a quantidade de carnês que deixaram de ser pagos, após 30 dias do vencimento. O volume subiu de 18.100 carnês no oitavo mês do ano passado para 19.510 documentos neste ano. Se comparado com julho de 2014, o calote disparou 47,28%. No sétimo mês do ano, os carnês atrasados somaram 13.247 débitos.

No acumulado do ano, a inadimplência já provocou uma perda de 102,7 milhões nos caixas dos comerciantes. O valor é 5,22% superior aos R$ 97,6 milhões do período entre janeiro e agosto de 2013. Os brasileiros compraram muito nos últimos anos. Os especialistas afirmaram que, de dívida em dívida, os consumidores comprometeram boa parte do orçamento mensal. Com a inflação em alta, a situação fica ainda mais complexa e o jeito é segurar a vontade de comprar.

O reflexo é traduzido em números como os de agosto deste ano em Campinas e região. Análise mensal da Associação Comercial e Industrial de Campinas (Acic) mostrou que as vendas à vista despencaram no mês passado. O recuo foi de 16,22%. Já as compras parceladas cresceram 3,07% no mês. No acumulado do ano, as vendas no crediário subiram 6,52% e os pagamentos à vista recuaram 3,96%. “Os dados corroboram a falta de dinheiro no bolso do consumidor”, afirmou o coordenador do Departamento de Economia da Acic, Laerte Martins.

Ele salientou que o faturamento caiu menos do que as vendas em decorrência da inflação que incidiu sobre o custo dos produtos. “As mercadorias estão mais cara do que no ano passado. A inflação impacta os salários e eleva os preços. O resultado é a queda no poder de compra. O comércio sente o baixo crescimento da economia brasileira. A queda de agosto foi a maior desde 2008. O cenário para 2014 é desfavorável e o crescimento será menor do que em 2013”, disse.

Conjuntura

O economista afirmou que a entrada de metade do 13º salário dos aposentados deve alavancar as vendas neste mês. “A expectativa é que 45% dos recursos sejam direcionados para compras. Outros 45% para o pagamento de dívidas e o restante para poupança”, comentou. Martins destacou que os R$ 130,3 milhões que serão injetados em Campinas representam 10% do faturamento mensal do varejo.

O coordenador ressaltou que o ano deve fechar abaixo das expectativas. “A conjuntura não é positiva e o comércio de Campinas deve crescer entre 3,5% e 4% neste ano. Em 2013, a ampliação em relação a 2012 foi de 6%. A economia não deve reagir até o final do ano e o PIB (Produto Interno Bruto) pode nem chegar a 1%”, analisou Martins.

RMC

O quadro negativo também afetou o comércio da região. De acordo com o estudo da Acic, as vendas recuaram 5,50%, como aconteceu em Campinas. O faturamento de agosto caiu 3,57% e fechou o mês em R$ 2,97 bilhões. No ano anterior, o valor foi de R$ 3,08 bilhões. A inadimplência teve uma elevação de 4,55%, passando de 318.245 registros no acumulado de janeiro a agosto de 2013 para 332.726 débitos em igual período neste ano. O calote atingiu R$ 244,6 milhões.

“A região também apresenta números menores influenciados pelo endividamento, inadimplência, inflação e juros altos. Na região, a expectativa é que sejam injetados R$ 270,3 milhões referentes à primeira parcela do 13º salário dos aposentados que está sendo paga pelo INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) no começo deste mês”, disse o economista da Acic.

RETRANCA 1

Nem o Dia dos Pais foi capaz de salvar o mês de agosto. De acordo com os dados do levantamento da Associação Comercial e Industrial (Acic), a data especial teve um crescimento de apenas 3,85% em relação ao ano de 2013. O proprietário da Relojoaria J. Barcellos, Pádua Barcellos, afirmou que o ano está ruim e houve uma retração nas vendas. “Depois da Copa, a situação piorou. As vendas estão em queda”, disse. Ele comentou que na loja a maioria dos pagamentos é à vista.

Na Dorinhos, especializada em moda masculina, o mês de agosto foi bom em decorrência do Dia dos Pais. “O mês de agosto apresentou alta nas vendas, mas o ano está abaixo do esperado pelo comércio”, afirmou a caixa da loja, Jéssica Moura. Ela salientou que boa parte das vendas é realizada em parcelamento no cartão de crédito.

A diarista, Ana Maria Silva, afirmou que está cada dia mais difícil pagar as contas. “As pessoas estão sem dinheiro e acabam cortando o serviço da empregada. As faxinas caíram nos últimos três meses. Não estou comprando nada. Não posso gastar dinheiro. Já estou com algumas contas atrasadas”, comentou. Ela espera que a situação melhore nos próximos meses.

O motorista, Fernando Rocha, comentou que se enrolou com o financiamento de um veículo. “Quando comprei o carro, a minha situação era melhor. Acabei gastando mais do que devia e atrasei umas parcelas do financiamento do carro. O problema é que os juros são absurdos e a dívida acaba ficando impossível de pagar”, contou.

Quadro

Faturamento do comércio:

Campinas

Acumulado 2014 – R$ 9,17 bilhões

Acumulado 2013 – R$ 8,86 bilhões

RMC

Acumulado 2014 – R$ 21,85 bilhões

Acumulado 2013 – R$ 21,10 bilhões

Fonte: Associação Comercial e Industrial de Campinas (Acic)

Escrito por:

Adriana Leite e Silva