Publicado 08 de Setembro de 2014 - 18h14

Por Adagoberto F. Baptista

Fotos; Janaina vídeo

Gustavo Abdel

DA AGÊNCIA ANHANGUERA

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“O que mais faz falta quando chego em casa é da alegria que ela transmitia para gente, e das risadas altas”. A declaração é do pintor Matheus Henrique Ribeiro, de 19 anos, filho de Solange Lindaura Moreira da Silva, uma das 10 vítimas fatais do acidente envolvendo um ônibus da VCA (Viação Princesa Tecelã) e um trem na passagem da linha férrea da região central, em Americana. Após quatro anos de uma das maiores tragédias de Americana, nenhum familiar ou vítima recebeu a indenização. As ações judiciais para pagamento das indenizações por danos morais e lesão corporal seguem tramitando na Justiça.

As ações judiciais para pagamento das indenizações por danos morais e lesão corporal seguem tramitando na Justiça, com valores entre R$ 13 mil e R$ 200 mil, sem previsão de um desfecho. De acordo com a oficial maior da 1ª Vara Cível de Americana, Margareti Milani Fassoli, os processos que tramitam ainda estão em andamento, sem trânsito em julgado das que já tiveram a sentença proferida, “e portanto sem pagamento de indenizações”. “Os processos seguem a tramitação normal sem possibilidade de definição de prazo para conclusão”, relatou.

Matheus e os três irmãos ainda têm esperança em receberem o valor, mas nada vai suprir a falta da mãe. “Uma semana antes ela teve um sonho, como se estivesse indo embora dessa vida”, relembrou Matheus, que estava com Solange, na época com 38 anos, no momento do acidente. “Ela não deixou eu sentar do lado dela e pediu para que eu me sentasse atrás. O trem acertou ela e eu fiquei com a mão presa nas ferragens”, relembra. “Nos falaram que a gente receberia R$ 148 mil, mas até agora nada”,

No momento da batida havia 25 pessoas no ônibus da VCA, que foi atingido por volta das 23h45 pelo trem de carga em uma passagem de nível no Centro, arrastado por cerca de 100 metros e partindo ao meio. A composição, que pertence à ALL (América Latina Logística) levava milho, soja e açúcar ao porto de Santos, tinha quatro locomotivas e estava com 77 vagões, cada um pesando 100 toneladas.

A autônoma Maria José de Oliveira Grund, de 52 anos, relata que minutos após o acidente foi ver a movimentação, e se recorda ter ouvido muita gente dizer que o sinal de alerta foi acionado, e que houve imprudência do motorista do ônibus, Alonso de Carvalho, de 55 anos, em arriscar a travessia. “O sinal disparou e mesmo assim ele tentou atravessar”, recorda. “Uma tragédia. Muitos sapatos, roupas e sangue espalhados”, relembrou. Já a diarista Rosa Andrioletti, de 53, lembra do caso pois um estudante da escola onde ela trabalhava estava dentro do ônibus, e foi o primeiro a sair do transporte retorcido com a ajuda de uma funcionária também da mesma escola. “Foi um dos piores acidentes que se tem notícia em Americana”, lamenta.

MOTORISTA - O motorista Alonso sofreu fraturas na nádega e nos braços. Ele foi condenado em 2012 a seis anos e nove meses de detenção. De acordo com o advogado dele, Renan Nogueira Farah, em abril a Justiça condenou carvalho ao pagamento de dois salários mínimos e quatro anos e meio de prestação de serviços comunitários. “Ele perdeu uma das nádegas e três dedos e está com uma infiltração na bacia. Caminha com dificuldade e fora o trauma psicológico. Portanto, ele vai cumprir os trabalhos comunitários desde que estejam adaptados às suas dificuldades”, disse o advogado.

Os cobradores Juvercino Avanzi, 59, e Domingos Lustre, 53, e a assistente social da Secretaria de Saúde Luzia Pereira da Silva dos Santos, 42, morreram no local. Os aposentados Benedito Golim, 74, Neusa Tavares da Silva, 51, Osvaldo Wolff, 75, Ailena Leite Wolff, 76, e Pureza de Jesus Pagani, 72, além de Solange Lindaura Moreira e Silva, 37, morreram no hospital municipal Dr. Waldemar Tebaldi.

A Viação Cidade de Americana foi procurada para comentar o assunto, mas a assessoria de imprensa informou que não iria se manifestar, uma vez que as ações ainda estão em andamento. “É política da empresa, pois ainda está tramitando”, informou a assessoria de imprensa.

RETRANCA - Trilhos nas cidades

Os constantes acidentes na malha ferroviária que corta os municípios da Região Metropolitana de Campinas (RMC) reacendem a cada trágico evento necessidade de retirada dos trilhos das áreas urbanas. Entretanto, em reuniões realizadas pelo Conselho da RMC já se descartou realizar pressão para a retirada dos trilhos, por considerar que os custos para uma operação como essa acabariam inviabilizando o projeto.

No trecho de ferrovia sob concessão da ALL dentro da RMC passam 700 vagões por dia, transportando principalmente soja e açúcar, a uma velocidade de seis quilômetros por hora. No caso do acidente em Americana, a medida encontrada após a tragédia foi a colocação de um portão de segurança que é fechado manualmente quando o trem se aproxima pela passagem de nível. O operador dessa proteção é o funcionário Marcos Roberto Granzotto, de 41 anos, que toda vez que o sinal de aproximação dos vagões é acionado ele precisa atravessar o trilho e fechar o portão. “Tem motorista que mesmo assim quer passar e joga o carro em cima de mim, para eu largar o portão e ele passar”, relata. Por turno ele faz pelo menos 15 vezes fechadas de portão.

A concessionária ALL esclarece que a colisão em Americana aconteceu após o veículo não respeitar a sinalização da passagem de nível e avançar sobre a linha férrea no momento em que o trem se aproximava. “É importante ressaltar que, de acordo com o Código Nacional de Trânsito, a linha férrea é sempre preferencial, e é infração gravíssima transpô-la sem parar”.

Segundo a empresa serviços de manutenção na via como nivelamento mecanizado, troca de trilhos e troca de dormentes são realizados com frequência. “Em Americana, a concessionária executou, em 2014, obras de sinalização ativa e passiva em passagem de nível (PN) e instalação de passagem de nível para pedestres (PNP), além de doar à prefeitura o motor para automatização da cancela da PN da rua Carioba”, detalhou.

A concessionária garantiu que realiza “campanhas de segurança nos cruzamentos com a linha férrea na região para minimizar o risco de acidentes envolvendo veículos, pedestres e trens, além de palestras educativas em escolas próximas à malha”.

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Adagoberto F. Baptista