Publicado 07 de Setembro de 2014 - 5h34

Apesar de ter recebido inúmeros incentivos durante os últimos anos, o setor automobilístico vive um 2014 difícil. A fabricação de veículos caiu 18% neste ano, o que atingiu o nível de emprego - e montadoras de São Bernardo do Campo, São José dos Campos e Taubaté dão férias coletivas e aplicam o lay-off (suspensão de contratos de trabalho).

Mas, na região de Campinas, a situação é completamente diferente: não há nem sinal de parada nas linhas de produção. Na região, há 85 mil metalúrgicos ligados ao setor.

Por aqui, as máquinas estão a todo vapor e há inclusive empresas tendo que elevar o número de horas-extras para atender a demanda de alguns modelos. E nas concessionárias de Campinas, há fila de espera de até um mês para veículos de marcas como Honda e Toyota.

Especialistas explicam que esse quadro é fruto da escala de produção das montadoras instaladas na região de Campinas, que é menor do que em plantas do ABC e Vale do Paraíba - o que permite que elas se adaptem melhor ao novo cenário de queda nas vendas e crédito mais raro para o financiamento de veículos.

Representantes do Sindicato dos Metalúrgicos de Campinas e Região confirmam que as montadoras mantêm o ritmo de trabalho nas fábricas e que há registro de elevação do número de horas-extras. Na região de Campinas, estão instaladas unidades da Honda (Sumaré) e da Toyota (Indaiatuba).

“Não há lay-off ou férias coletivas programadas na nossa área de base”, afirma o sindicalista Eliezer Mariano Cunha.

A Toyota informou, em nota que não deu férias coletivas e muito menos demitiu trabalhadores. “Pelo contrário, as fábricas operam acima da capacidade nas unidades de Sorocaba e Indaiatuba para atender a demanda do mercado interno e exportação do Etios e Corolla”.

De acordo com a empresa, cada uma das fábricas tem capacidade de 70 mil unidades por ano. Segundo a multinacional japonesa, ambas trabalham no limite da capacidade. Em Indaiatuba, é fabricado o Corolla e em Sorocaba o Etios. Mais de 90% da produção é para o mercado interno. O estoque é limitado e há fila de espera, segundo a Toyota.

A Honda também informou que “conforme o planejamento anual da empresa, o período de férias coletivas foi de 30 de junho a 9 de julho, totalizando dez dias. As operações da fábrica seguem normalmente e não há previsão de lay-off ou férias remuneradas”.

A montadora lançou em maio a nova geração do Honda Fit e, em junho, apresentou o face-lift do Civic 2015. Segundo a empresa, também foi lançada a nova geração do Honda City neste mês. A montadora também vai voltar a comercializar o importado Civic Coupé Si e, em 2015, inicia a produção do seu novo SUV compacto (chamado Vezel no mercado japonês).

Também está programada a inauguração da segunda fábrica da companhia na cidade de Itirapina. Com essa nova planta, a Honda irá dobrar a capacidade produtiva anual de 120 mil para 240 mil unidades.

A empresa informa que o produto mais comercializado pela marca é o Civic, com vendas de 35.772 mil unidades do modelo até o final de agosto. A multinacional diz que “apesar do recuo das vendas no setor, a Honda fechou os últimos meses com estabilidade e o estoque segue dentro do padrão considerado normal para a indústria”.

A montadora salienta que, assim como as demais fabricantes, “também tem sentido as dificuldades do mercado, ma que, apesar do atual cenário industrial e econômico, que tem apresentado fragilidade e incertezas”, ainda enxerga boas oportunidades e acredita que pode atuar de acordo com as necessidades e realidade dos diferentes perfis de consumidores do País.

“O Brasil é uma das cinco maiores economias do mundo e têm potencial de crescimento no médio e longo prazo”, conclui o comunicado. A fábrica de Sumaré emprega 3.500 funcionários.

Setor vem se esforçando para evitar demissões

Para evitar demissões em massa, o mercado empregador lança mão de instrumentos como lay-off, férias coletivas, banco de horas e planos de demissão voluntários (PDV).

O Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, por exemplo, firmou acordo com a Volkswagen e desde maio 800 funcionários da montadora estão com os contratos de trabalho suspensos (lay-off). Parte do pagamento vem do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) - o que falta é complementado pela empresa.

Em contrapartida, nNo tempo em que estão afastados do trabalho, os funcionários devem passar por cursos de qualificação. O lay-off pode ser realizado durante no máximo cinco meses e os funcionários da Volkswagen devem voltar ao trabalho em outubro.

Outra empresa que optou pelo lay-off foi a Mercedes-Benz, envolvendo 1.200 funcinários que ficarão parados até novembro. O sindicato negocia com a empresa a manutenção dos empregos depois do fim do acordo.

Já a Ford optou por usar o banco de horas - parte dos trabalhadores ficou em casa durante a semana passada e retornam às atividades a partir desta semana.

No final de agosto, os trabalhadores da General Motors de São José dos Campos aprovaram a proposta da empresa de lay-off a partir desta segunda-feira até o dia 7 de fevereiro de 2015. A estimativa é que até 930 funcionários possam ter os contratos de trabalho suspensos por cinco meses.

O advogado da área trabalhista e sócio do L.O. Baptista-SVMFA, Fábio Chong, afirma que o melhor caminho para resolver o problema de ociosidade de mão de obra é o dialogo entre os sindicatos e as montadoras.

“Cada empresa deve buscar um caminho que permita manter as suas atividades sem causar um problema social com demissões em massa. O importante é evitar decisões drásticas sem antes buscar caminhos”, comenta.

Ele pondera que as soluções mais utilizadas pelas grandes empresas em momentos de queda de produção passam pelos plano de demissão voluntária (PDV), férias coletivas, banco de horas, redução temporária de benefícios e lay-off.

“Não há outras soluções e nenhuma delas pode ser adotada antes de um diálogo com os sindicatos”, diz. (AL/AAN)

Especialista diz que escala menor de produção ajuda

O coordenador do curso de MBA em Gestão Estratégica de Empresas da Cadeia Automotiva do IBE-Fundação Getúlio Vargas (FGV), Antonio Jorge Martins, afirma que as montadoras apostam no Brasil em decorrência do potencial de consumo de veículos.

“Os números mais recentes mostram que para cada cinco habitantes há um carro. Nos mercados desenvolvidos, o número cai para dois ou três veículos. A visão das montadoras quando apostam no Brasil é a do potencial a longo prazo”, diz.

O especialista ressalta que relatórios das consultorias internacionais mostram que o crescimento do setor automobilístico no mundo passa pelos mercados asiático e também do continente americano.

Neste ano, a escassez de crédito e o endividamento das famílias no Brasil impactaram os números do setor no País. “Entre 60% e 70% das vendas de carros são realizadas por meio de financiamento”, aponta. Martins salienta que o modelo de crescimento baseado no endividamento da população está esgotado e é preciso apostar em novos caminhos no Brasil. “Não há perspectiva de mudança desse cenário a curto prazo”, comenta.

Para ele, o bom desempenho das montadoras instaladas na região de Campinas está ligado ao fato da capacidade das empresas de se adequarem ao novo quadro do setor. “O volume de produção é menor do que o das montadoras instaladas em outras regiões como o ABC Paulista. Assim, fica mais fácil adequar a produção”, afirma.

Ele acredita que as montadoras instaladas há muitos anos no Brasil terão que se moldar para o mercado cada dia mais competitivo. “Hoje, as grandes montadoras mundiais apostam no Brasil e a disputa está mais acirrada. Há muitas companhias entrando”, pontua.

Martins diz que um caminho para manter o nível de produção é exportar os veículos. “As subsidiárias brasileiras devem dialogar com as suas matrizes e negociar a exportação para potenciais mercados”, diz.

Para ele, há mercados que podem absorver os veículos nacionais - mas as montadoras definem dentro de seus arranjos produtivos para quais mercados cada unidade irá exportar. “Desde a crise financeira, unidades nos Estados Unidos e na Europa estão com capacidade ociosa e a decisão das matrizes foi direcionar parte dessa produção para mercados que eram atendidos pelas subsidiárias brasileiras”. (AL/AAN)

Concessionária Honda tem fila de espera

O gerente de Vendas da rede Beni Car, Paulo Valverde, afirma que o mercado sente a retração, mas que o impacto foi menor para a Honda. “O cenário econômico desfavorável afeta todas as marcas. Mas as estratégias adotadas pela montadora como vários lançamentos aqueceu as vendas. Existem modelos para os quais há fila de espera de quase um mês”, comenta. Ele diz que os carros da montadora atendem um público que busca por modelos de linhas premium. “O carro mais barato da marca tem preço inicial de quase R$ 50 mil”, aponta. Valverde ressalta que a Honda também tem como característica ser vista como objeto de desejo por muitos consumidores. “Além disso, são veículos que oferecem vantagens como baixa manutenção e bom valor de revenda”, aponta. (AL/AAN)