Publicado 09 de Setembro de 2014 - 19h05

[CR_TXT_2LINH]Gislaine Gutierre

[/CR_TXT_2LINH][CR_TXT_PROCE]DE SÃO PAULO[/CR_TXT_PROCE]

Com voz grave e algo tímido, Almino Affonso, ex-ministro de João Goulart, entoa Pra Não Dizer que Não Falei das Flores, de Geraldo Vandré, diante das câmeras. Ele nem queria cantar, mas não resistiu: ao violão, e também cantando, estava seu filho, o Titã Sérgio Britto.

A música era uma forma de lembrar os oito anos que Britto e sua família passaram no exílio no Chile, durante a ditadura militar no Brasil. A cena é também parte de Exílio e Canções, série em sete episódios que o Titã comanda a partir de hoje, na TV Brasil.

A cada edição, Britto irá receber ex-exilados e com eles vai compartilhar canções que marcaram essa fase. Entre os convidados estão o diretor de teatro Zé Celso Martinez Correa, a escritora Ana Maria Machado e Ciro Barcelos, ex-integrante do grupo Dzi Croquettes.

Britto, de 54 anos, era criança quando seu pai teve direitos políticos cassados. Era 1964, ano do golpe militar, Affonso teve de deixar o País às pressas. “Eu senti a ausência e a insegurança. Acho que isso foi o que mais me marcou”, diz Britto. Foram quase dois anos sem ver o pai, até a família se mudar para Santiago, em 1966. A casa deles era frequentada por militantes e exilados. “Os casos de tortura que contavam eram o que mais me chocava. Eram histórias terríveis”, diz o cantor.

A política era uma constante. O medo também. Britto conta que, com seu irmão, ia de bicicleta até um rio para jogar lá livros sobre política. “Também queimávamos e jogávamos livros no vaso sanitário. Era estranho”, diz.

Britto também foi às ruas em manifestações: “Lembro da sensação do gás lacrimogêneo, da gente com camiseta molhada na cara, porque ardia”, diz. Como exilado, sempre se sentiu um estrangeiro. Até quando voltou para o Brasil: “Aqui eu era o chileno”, ri.

Britto acredita que ainda hoje é importante voltar ao tema da ditadura. “As pessoas que não viveram isso, não têm ideia do que foi.” Os convidados ajudam a recompor esse painel. Mas a aposta maior é a música.

“A Ana Maria Machado lembra de como foi emocionante ouvir Sabiá no exílio, cantado por Nara Leão, que era sua amiga”, diz o diretor do programa, Otávio Juliano. Após intervenções de Britto ao violão, ao final uma banda, montada para o programa, toca uma música inteira. (Da Folhapress)