Publicado 07 de Setembro de 2014 - 19h05

A Viagem

Durante recente mudança para o novo apartamento, descobri uma série de anotações de conversas minhas com J., que pertence a ordem R.A.M., uma pequena confraria dedicada a estudar a tradição oral e a linguagem simbólica do mundo. Estas notas cobrem nossos encontros no período de Fevereiro, 1982 até 1997.

Recentemente perguntei a ele se poderia compartilhar parte destes textos; ele concordou, e vou dedicar as próximas cinco colunas a descrever alguns de nossos encontros (período 1982-1986). Transformei os textos em diálogos para melhor compreensão, e que as palavras de J. não são exatamente as que ele usou, embora o conteúdo seja absolutamente fiel ao que escutei.

Os textos não estão em ordem exata. Resolvi começar com algumas de nossas conversas de 1986, quando ele insistia para que eu fizesse o Caminho de Santiago:

— Você diz que fazer o Caminho de Santiago é importante. Para isso, preciso largar tudo por algum tempo: família, emprego, projetos. E não sei se vou encontrar a mesma situação quando voltar.

— Espero que não encontre.

— Então, devo arriscar-me a perder tudo que consegui até agora?

— Perder o quê? Um homem só tem sua alma para ser ganha ou perdida; além da vida, ele não possui mais nada. Não importa as vidas passadas ou futuras — no momento você está vivendo esta, e deve fazê-lo com compreensão silenciosa, alegria, e entusiasmo. O que você não pode perder é o entusiasmo.

— Eu tenho uma mulher, que amo.

— (rindo) Esta é sempre a desculpa mais comum, e a mais tola possível. O amor nunca impediu o homem de seguir seus sonhos. Se ela realmente o ama, vai querer o melhor para você. Além do mais, você não tem uma mulher que ama; a mulher não é sua. O que é seu é a energia do amor, que você dirige para ela. Você pode fazer isso de qualquer lugar.

— E se eu não tivesse dinheiro para fazer a peregrinação?

— Viajar não é sempre uma questão de dinheiro, mas de coragem. Você passou grande parte da sua vida correndo o mundo como hippie: que dinheiro tinha, então? Nenhum. Mal dava para pagar a passagem, e mesmo assim acredito que foram alguns dos melhores anos de sua vida — comendo mal, dormindo em estações de trem, incapaz de se comunicar por causa da língua, sendo obrigado a depender dos outros até mesmo para descobrir um abrigo onde passar a noite.

“Viajar é sagrado; a humanidade viaja desde a noite dos tempos, em busca de caça, de pasto, de climas mais amenos. São raros os homens que conseguem compreender o mundo sem sair de suas cidades. Quando você viaja — e eu não estou falando em turismo, mas na experiência solitária da viagem — quatro coisas importantes acontecem em sua vida:

a) você está em um lugar diferente. Então, as barreiras protetoras já não existem mais. No começo isso dá muito medo, mas em pouco tempo você se acostuma, e passa a entender quanta coisa interessante existe além dos muros de seu jardim.

b) porque a solidão pode ser muito grande e opressora, você está mais aberto com pessoas com quem nunca trocaria uma palavra, se estivesse em sua casa — garçons, outros viajantes, empregados de hotel, o passageiro sentado ao seu lado no ônibus.

c) você passa a depender dos outros para tudo: arranjar um hotel, comprar algo, saber como tomar o próximo trem. Descobre então que nada há de errado em depender dos outros — muito pelo contrário, isto é uma bênção.

d) você está falando uma língua que não compreende, usando um dinheiro que não sabe o valor, caminhando por ruas que nunca passou antes. Você sabe que o seu Eu antigo, com tudo que aprendeu, é absolutamente inútil diante destes novos desafios — e começa a descobrir que, enterrado lá no fundo do eu inconsciente, existe alguém muito mais interessante, aventureiro, aberto para o mundo e para experiências novas.

Viajar é a experiência de deixar de ser quem você se esforça para ser, e se transformar naquilo que você é.”

(continua na próxima semana)