Publicado 10 de Setembro de 2014 - 5h33

A Delegacia da Infância e Juventude (Diju) já é a terceira unidade policial que mais apreende armas de fogo em Campinas. Ela só fica atrás dos 2 e 11 distritos policiais, localizados nos bairros São Bernardo e Jardim Ipaussurama. Essas regiões concentram altos índices de roubos (2) e de homicídios (11). No primeiro semestre deste ano, a delegacia da infância retirou 31 armas das mãos de menores infratores. No ano passado, no mesmo período, foram 33. Enquanto que na área do 11 DP foram retiradas, de janeiro a junho, 41 e do 2, 32.A apreensão de armas na unidade fica à frente até mesmo de delegacias especilaizadas em investigar quadrilhas organizadas e que cometem crimes de grandes proporções como a Delegacia de Investigações Gerais (DIG) e a Delegacia de Investigação Sobre Entorpecentes (Dise). No mesmo período, a DIG apreendeu 27 armas nos casos que apurou ou que foram encaminhados para a unidade pela Polícia Militar, e a Dise apreendeu 13 com traficantes.O número é preocupante, segundo especialistas consultados pela reportagem. Eles alertam sobre a facilidade na aquisação de armamento e a banalização do crime pelos adolescentes.Os dados são da Secretaria de Estado da Segurança Pública (SSP), que mensalmente divulga os índices de produtividade policial por unidade. Roubo

Em Campinas, a maior parte das ocorrências que envolvem adolescentes e armas são os roubos, segundo levantamento da Diju, seguido de ocorrências de porte ilegal de arma — quando o menor é flagrado pela polícia na rua ou até mesmo na condução de veículos, principalmente motos, além de armas eles também carregam drogas para traficar.De janeiro a agosto deste ano, segundo dados coletados pelo Departamento de Polícia Judiciária de São Paulo Interior-2 (Deinter), os menores foram responsaveis por 49 roubos de veículos e 35 roubos a pedestres — todos utilizando armas de fogo. Os dados não contabilizaram roubo à residência. Eles também foram responsáveis por 32 furtos e 16 furtos de veículos.Os revólveres calibre 38, 32, 22 e a pistola 635 são os prediletos dos adolescentes. Cerca de 80% dessas armas recolhidas estão com a numeração raspada, o que impossibilita chegar até sua origem. Apesar da maioria serem revólveres, já houve casos em que o menor estava munido de fuzil.Ainda de acordo com dados do Deinter, este ano a média mensal de adolescentes flagrados em atos ilícitos aumentou. Nos seis primeiros meses a média foi de 60 casos por mês. Em 2013, esse número foi de 52. O ano ficou fechado em 629 menores apreendidos. Entre eles estava o adolescente B.F.S.M., de 17 anos, que teria atirado no engenheiro-agrônomo Sérgio José Lauandos Zakia, de 60 anos, no Jardim das Palmeiras, próximo ao clube Hípica.O crime aconteceu na tarde dia 3 de fevereiro. A esposa de Zakia saía de casa com o seu carro quando foi abordada pelos bandidos. Ela gritou de susto. O engenheiro-agrônomo, que estava na sala, foi ver o que aconteceu, levou um tiro na virilha e morreu no local.Preocupante

Para o especialista em segurança pública e ex-comandante geral da Polícia Militar, Rui Cesar Melo, o fato é extremamente preocupante e deve ser analisado como um todo. “O número é alto. Além deles não terem noção do que isso significa, muitos não têm consciência do estrago que podem vir a fazer. Acham que estão numa partida de videogame, sem nenhuma responsabilidade. Infelizmente a vida passou a não ter valor nenhum. Isso é um problema de contexto onde estão inseridas famílias desestruturadas e a falta de uma punição mais severa cria o ciclo permissivo que vai aceitando e enxugando gelo”, afirmou.O especialista apontou que muitas vezes o menor é usado por criminosos que sabem que a lei é menos severa com adolescentes infratores. “Eles sabem que no dia seguinte o menor está liberado. Muitas vezes ele assume a posse da arma. Isso só mostra a importância da mudança ou alterações significativas na lei e também mais atuação no tráfico de armas que é imenso”, alertou.A psicoterapeuta especialista em adolescente Vilma Soares afirmou que adolescentes infratores precisam de orientação urgente. “Apesar de saberem exatamente o que estão fazendo, eles são mais impulsivos e cometem o ato no susto, na reação, por isso é muito perigoso”, analisou.Outro lado

O tenente coronel da Polícia Militar Marci Elber Resende da Silva afirmou que a corporação faz diariamente operações para localizar infratores com arma. “Não só com o menores, a PM está empenhada para flagrar esses casos. Fazemos diariamente este trabalho”, disse. O coronel afirmou também que muitos crimes envolvendo posse ilegal de arma relacionado com menor pode ter ocorrido com maiores, mas acabam indo para a Diju por ter menor envolvido. “Isso faz crescer a apreensão da unidade”, ressaltou. Ele confirmou que a maioria dos casos que envolve menores armados está relacionado com roubo.O delegado do Deinter 2 Luis Segantin disse que a Polícia Civil faz um trabalho em parceria com a Vara da Infância e Juventude. “Quem fica responsável pela apuração é a Vara com nosso apoio. Mas procuramos identificar quais são os pontos mais sensíveis onde este tipo de ocorrência costuma acontecer. Mas é preciso que além da polícia, outras esferas articulem para mudar essa realidade”, afirmou.