Publicado 10 de Setembro de 2014 - 5h32

“Circuito da carcaça”. Esse é o apelido do local para onde os instrutores de motos das autoescolas de Campinas estão dando aula há duas semanas, em um trecho da Avenida João Batista Morato, no bairro São Bernardo. Sem qualquer infraestrutura, alunos de aproximadamente 12 autoescolas são obrigados a fazer aulas em um gramado, à beira de um barranco de quatro metros. Como obstáculos para as manobras são utilizadas carcaças de bode, restos de utensílios domésticos e outros improvisos encontrados em meio ao entulho no local. O Sindicato dos Trabalhadores e Empregados em Auto Moto Escola de Campinas e Região deu prazo de 10 dias para as empresas encontrarem novo local.

Os instrutores dizem que o local foi a única alternativa encontrada ao serem retirados do espaço da Prefeitura de 2 mil metros no Tancredão, na região da Avenida das Amoreiras, usados durante quatro anos, por causa de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC). A área começou a ser revitalizada na segunda-feira pela Prefeitura, e dentro de 30 dias deverá estar gramada e com árvores plantadas, informou a Secretaria de Serviços Públicos.

Ontem pela manhã, a reportagem esteve no trecho da Avenida João Batista Morato e encontrou oito alunos e oito instrutores em aula. Para impedir a entrada de carro na via, os profissionais das autoescolas atravessaram galhos na avenida. O local está com pouco movimento, pois a construção de um empreendimento imobiliário obrigou a Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas (Emdec) a desviar o trânsito.

O trecho usado pelos alunos tem marcações antigas no solo, pois, segundo o instrutor José Luis Soares, de 57 anos, o espaço já foi usado no passado, quando as autoescolas foram retiradas do Parque Ecológico. “Além de estar com a pintura gasta, a via é em declive, imprópria para a prática”, explicou. “Os alunos são obrigados a treinar no gramado. Pois, para aprender controle de embreagem, não podemos fazer em uma via estreita. E já teve aluno que o instrutor precisou correr atrás da moto, pois quase caiu no barranco”, relatou o instrutor Antonio Carlos, de 38 anos.

O gramado onde os alunos fazem aula é repleto de buracos e entulhos. “Como podemos dar aula em um espaço desse? Não temos cobertura para os alunos aguardarem. Não tem banheiro, bebedouro. É o trecho de uma avenida no meio do nada, à beira de um barranco. Nos tiraram de ‘casa’ para jogar debaixo da ‘ponte’”, desabafou outra profissional, que não quis se identificar. Segundo eles, é dever das autoescolas providenciarem um espaço adequado.

“A gente paga mais de R$ 1 mil para tirar carteira de motorista e somos obrigados a enfrentar uma condição dessas. Um absurdo e um perigo”, indignou-se a estudante Ana Claudia da Silva Viana, de 21 anos. O aluno Pedro Henrique Grandin, de 19 anos, começou as aulas ontem, e não acreditava no local onde estava. “É muito perigoso andar num lugar desse. Não imaginei que seria assim”, disse.

Sindicato

O presidente do Sindicato dos Trabalhadores e Empregados em Auto Moto Escola de Campinas e Região, Laércio Laerte, informou que, na sexta-feira, se reuniu com representantes de seis autoescolas e, dentre elas o representante da Associação Campineira de Autoescolas, Mário Trentin, quando foi dado um prazo de 10 dias para que as empresas providenciem novo espaço para ministrarem as aulas. “Caso contrário, a categoria vai parar por tempo indeterminado, até que as empresas respeitem seus trabalhadores”, disse o presidente.

Laércio apresentou à reportagem um parecer dado na última segunda-feira, do setor de perícia do Meio Ambiente do Trabalho, do Ministério Público do Trabalho (MPT), onde o engenheiro de segurança do trabalho Luis Fernando de Camargo, da Procuradoria Regional do Trabalho da 15 Região, afirma “que há indícios evidentes que as investigadas não atendem os preceitos das normas reguladoras 21 e 24”. As investigadas, no caso, referem-se aos endereços onde aulas de moto e automóveis são ministradas pelas empresas: Avenida José de Castro Mendes, na Praça José Roberto de Paula (São Bernardo); Avenida das Amoreiras (Tancredão); Rua Dr. Celso Silveira Rezende, 250, Jardim Leonor (Piçarrão); e a Rua Santa Bárbara do Rio Pardo (Parque da Figueira).

Segundo o relatório, as principais constatações nesses locais foram a ausência de abrigos para proteção dos trabalhadores contra intempéries, não fornecimento de protetor solar, sem fornecimento de água potável e ausência de instalações sanitárias.

“Em todos os locais de trabalho deverá ser fornecida aos trabalhadores água potável, em condições higiênicas, sendo proibido o uso de recipientes coletivos. Onde houver rede de abastecimento de água, deverão existir bebedouros de jato inclinado e guarda protetora, proibida sua instalação em pias ou lavatórios, e na proporção de 1 (um) bebedouro para cada 50 empregados”, detalhou o engenheiro.

Empresas pretendem continuar no Tancredão

O representante da Associação Campineira de Autoescolas, Mário Trentin, informou que as empresas lutam para reaver o Tancredão para a continuidade das aulas. Sobra as condições de trabalho dos instrutores, Trentin afirmou seguir a resolução 285 do Conselho Nacional de Trânsito, que versa sobre o treinamento dos instrutores com as mesmas condições adversas, ou seja, sob sol, chuva, etc.

“Fica impossível colocar um banheiro para cada trabalhador. Os cortadores de cana trabalham por acaso ao lado de banheiro ou em ar-condicionado?”, disse Trentim. “A cada 50 minutos, eles retornam para a sede da autoescola e têm banheiro e água para beber. Você, jornalista, também vai para rua sem banheiro”, comparou.

O representante não comentou sobre a possibilidade das empresas se organizarem e mudarem de local. (GA/AAN)