Publicado 10 de Setembro de 2014 - 5h32

Na semana passada, o drama de uma paciente com câncer que viveu a agonia de esperar três dias por um leito hospitalar adequado comoveu a todos que conviveram com o problema, desde familiares, conhecidos, médicos, enfermeiras e funcionários da Saúde, que se desdobraram para tentar uma solução que veio depois de muito sofrimento. Acolhida na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Centro de Campinas, a mulher de 62 anos teve que suportar a espera em uma maca de uma sala de observação, desde a segunda-feira, até finalmente ser transferida para o Hospital Municipal Dr. Mário Gatti, na noite de quinta-feira. A alegação da Secretaria de Saúde é que não havia leitos disponíveis na rede com a estrutura necessária para atender à paciente naquele estado (Correio Popular, 4/9, A10). Se a paciente recebeu a atenção médica e remédios durante sua estada, a condição de improviso em sua acomodação seria dispensável se houvesse uma única vaga apropriada para recebê-la.

Em nota oficial, a Secretaria de Saúde alega que a disponibilidade de leitos em Campinas é adequada à demanda municipal, e o caso foi uma exceção, pois havia a necessidade de a Central de Regulação encontrar uma vaga que reunisse as condições ideais para atendimento, como equipe médica, base de exames e medicamentos. É possível que o dimensionamento da rede esteja próximo de um nível ideal no discurso, mas a realidade que se impõe no setor de Saúde é que o público a ser atendido tem graus de urgência que fogem de critérios técnicos que estabelecem prioridades. Em linguagem comum, a dor de cada um é a mais urgente no momento.

O drama de cada grupo, família ou indivíduo dificilmente é medido pelas estatísticas oficiais, sempre formadas por números frios que são propostos pela razão. As dores das perdas, o luto, a violência experimentada, o prejuízo acumulado, o trauma persistente, tudo são sintomas que os números disfarçam em nome de uma visão gerencial, de prestação de contas, de estabelecimento de metas. Não se pode dissociar uma visão extremamente humanitária do atendimento médico especializado. As explicações, por mais racionais e realistas, não mitigam a dor, não aliviam a tensão, não confortam os parentes. A certeza é de que, se fosse um caso de atendimento particular, provavelmente a espera não seria a mesma. E é apenas esse padrão que a saúde pública deve buscar incansavelmente, apenas isso.