Publicado 07 de Setembro de 2014 - 5h33

O uso de uma lancha batizada de “Felicidade” para o transporte de estudantes virou polêmica entre o município de Nazaré Paulista e pais de alunos que vivem em comunidades isoladas no entorno da Represa Atibainha — uma das quatro que pertencem ao Sistema Cantareira. O meio de transporte que reduziria de 2 horas, para 40 minutos o deslocamento das crianças até as escolas públicas da cidade está sendo recusado por seus familiares. Eles têm medo da lancha escolar devido ao número de mortes por afogamento que ocorrem na represa. Só este ano foram 11.

Sem a lancha, parte dos estudantes que moram em áreas rurais tem que percorrer até 20 km até a escola. Eles acordam entre 4h e 4h30 para pegar um ônibus municipal, usado também por toda comunidade. Com a lancha, eles economizariam, no percurso de ida e volta, cerca de 3 horas. Bairros como Atibainha, Santa Luzia e Divininho, que ficam no entorno da represa, serão atendidos.

A lancha é a primeira do Estado utilizada no transporte de escolares. Ela foi entregue em junho e até agora não foi utilizada. Além dos estudantes, também podem utilizar o novo sistema jovens, adultos e idosos matriculados em escolas rurais do município. São entre 140 a 180 pessoas que podem ser transportadas. Em uma única viagem a lancha comporta 21 passageiros e, pelo projeto, faria três viagens por período: manhã, tarde e noite.

A lancha foi financiada pelo governo federal, em parceria com a concessionária Rota das Bandeiras, que desenvolve projeto de educação na cidade. Ela é equipada com colete salva-vidas e possui documentação definitiva expedida pela Capitania dos Portos de Santos. Um monitor especializado em navegação já foi treinado para fazer as viagens.

Apesar da recusa dos pais dos estudantes em utilizar o meio de transporte, o Município planeja construir cinco decks flutuantes, que funcionarão como “pontos de ônibus” nos bairros onde a lancha escolar buscará os alunos.

Ainda segundo a Prefeitura, os pontos não podem ser fixos porque o nível da represa Atibainha tem diminuído até 1,5 metro por semana devido à estiagem. Ao todo a represa tem 25km2. O investimento nas plataformas será de R$ 80 mil, custeados pela Prefeitura. A lancha custou R$ 190 mil.

“O projeto de transporte por água é fantástico. As pessoas não podem ver somente desgraça. As crianças estarão mais seguras de barco do que em ônibus ou carro, onde estarão mais expostas nas estradas e rodovias, em que o número de acidentes de trânsito é grande”, afirmou o empresário e engenheiro mecânico Francisco Carlos Bonizzonni, que auxiliará na construção dos piers. Ele ainda recomenda que os pais andem antes na lancha para que conheçam melhor o meio de transporte e diz que a economia de tempo e o contato com a natureza fazem toda a diferença. “Esta aquisição é excelente para o município”, disse.

Para explicar o funcionamento do projeto para os estudantes e seus pais está sendo realizado um trabalho educativo nas escolas.

Dificuldades

O alto número de alunos que dependem de transporte escolar e a distância das escolas espalhadas pela extensão territorial do município no entorno da represa de Atibainha e da Rodovia D. Pedro I, torna complexa a locomoção dos moradores, principalmente da zona rural para acesso à área urbana. Muitas crianças ficam fora das salas de aula pela dificuldade no trajeto.

Medo

Em fevereiro, seis pessoas da mesma família morreram afogadas na represa de Atibainha. O afogamento na represa foi em uma área próxima a uma cachoeira artificial do local, conhecida como Sete Quedas. Segundo o Corpo Bombeiros, o grupo de dez pessoas vindas de Nazaré Paulista estava dentro da represa e foi empurrado por uma correnteza para uma região longe da margem. Quatro pessoas conseguiram sair da água, mas outras seis se afogaram.

Na represa de Jaguari, em Jacareí, uma mulher de 55 anos e os netos de 4 e 11 anos morreram afogados depois de o pai das crianças ter engatado a marcha errada na hora de sair com o carro, que acabou dentro da represa.

Um homem de 32 anos caiu de uma moto aquática e morreu afogado em Nazaré Paulista. Também um adolescente morreu no mesmo local enquanto nadava com dois amigos.

A reportagem esteve a bordo da lancha escolar visitando uma área que será atendida pelo projeto. A entrevista com um dos pais das crianças foi feita a dez metros de distância, sem que o barco pudesse se aproximar das margens da represa, devido os danos causados pela estiagem, como pedras que antes estavam embaixo d'água.

Questionados se autorizam o filho de 10 anos a usar a novidade como meio de transporte, responderam com outra pergunta: “Mas o barco não vira, né? Se não virar, sem problemas”, disse Marcio França Emilio Ferreira, um homem simples que disse achar ter 30 anos. A esposa Josvani Ferreira disse não autorizar as outras duas filhas do casal, de 5 e 7 anos, por serem muito pequenas e difíceis de controlar. "A pequena não para; vai que ela abre uma janela e salta pra fora do barco?” . Pela dificuldade de locomoção, grande parte dos moradores dos bairros que margeiam a represa, dificilmente deixam o local.