Publicado 06 de Setembro de 2014 - 5h33

[/TEXTO]Uma ex-cozinheira da fábrica de pesticidas Syngenta, em Paulínia, move ação de R$ 27 milhões contra a empresa por contaminação por metais pesados. Elza Lopes Zupelli, de 74 anos, trabalhou na Syngenta de 1991 a 2000. Desde que saiu da empresa, a idosa perdeu os dois rins e sofre de deficiências hepáticas, além de distúrbios no sistema nervoso central. Após ser tratada por dez anos no Sistema Único de Saúde (SUS), que, segundo ela, não pediu exames toxicológicos, Elza começou a frequentar um especialista particular. O médico Igor Vassilief, o mesmo que acompanha o tratamento das vítimas do caso Shell, pediu o mineralograma da ex-cozinheira no início deste ano e foram constados estrôncio, chumbo, alumínio e manganês em altos níveis em seu organismo. Segundo laudo médico, a presença dos metais é a causa de suas doenças.Documentos da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental de São Paulo (Cetesb) anexados ao processo indicam que a Syngenta teve que se submeter a um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) entre 1995 e 1999, firmado junto ao Ministério Público, para regularizar o descarte de seus resíduos sólidos industriais. Antes da data, os materiais eram dispostos em valas em frente e nos fundos da fábrica, que fica às margens da Rodovia Professor Zeferino Vaz (SP-332). Segundo a assessoria de imprensa da Cetesb, durante o TAC, a empresa foi obrigada a estabelecer política de destinação de resíduos contaminados a instalações de terceiros, para tratamento e destino final adequados. O solo considerado não contaminado, com base em laudos de análises químicas, foi utilizado para o reaterro das antigas valas. Foi feita a implantação de sistema de drenagem e cobertura com manta geossintética no local. O advogado de Elza, Paulo Cunha de Figueiredo Torres, que também representou ex-funcionários da Shell e Basf de Paulínia contaminados entre 1974 e 2002, afirmou que a contaminação por metais pesados ocorre pela inalação dos vapores resultantes dos resíduos industriais. “Elza ficou anos inalando aqueles metais, consequência do descarte ilegal dos resíduos. Os laudos são probatórios que esta é a causa de todos os seus males”, disse. A primeira audiência do processo, que corre na 1 Vara do Trabalho de Paulínia, está marcada para 22 de janeiro de 2015. Torres afirmou que pedirá antecipação da audiência na Justiça por causa do estado de saúde de sua cliente. O advogado tentou acordo com a empresa, mas para a Syngenta os problemas de saúde da ex-funcionária não têm relação com as atividades da empresa. O valor alto da indenização é por danos materiais, como custos de locomoção, remédios e tratamento médico, morais, pelo sofrimento que as doenças causaram a Elza, e estéticos. “Pedimos um valor que parece alto porque sabemos que ele cai bastante no momento da decisão judicial”. Caso

Nora de Elza, Marcia Martins Xavier afirmou que levou a idosa para se consultar com Vassilief em fevereiro deste ano, depois de ela ser desenganada por médicos da rede pública. “Conversei com um amigo que trabalhou na Eli Lilly e ele me alertou para o risco de contaminação na Syngenta. Foi quando minha ficha caiu e resolvi levá-la ao Dr. Igor”, explicou. A família fez um empréstimo de R$ 600 para fazer o mineralograma. Depois do resultado, o médico explicou que o único tratamento possível para Elza seria paliativo, segundo Márcia. Para eliminar os metais, a aposentada precisaria ter pelo menos um rim preservado, segundo o diagnóstico. “Com o fígado comprometido e outras funções neurológicas, ela teve que sair da fila do transplante. Seria uma cirurgia muito arriscada para as condições dela”, completou Márcia.Elza faz hemodiálise três vezes por semana, tem restrições alimentares, tonturas, enjoos e esquecimentos. O Ministério da Saúde, por assessoria de imprensa, informou ao Correio que o pedido do exame de mineralograma a pacientes do SUS fica a critério dos médicos.