Publicado 06 de Setembro de 2014 - 5h33

O risco de fechamento da única sala de aula especial do Estado para crianças com paralisia cerebral em Campinas deixou temeroso um grupo de 15 famílias que depende do serviço. A Escola Estadual Sophia Velter Salgado, na Vila Nova Teixeira, tem professores treinados especialmente para esse trabalho.

A possível desativação da sala é parte do projeto do governo que prevê a inclusão de crianças e jovens com deficiência em escolas comuns da rede, onde elas passariam a conviver e aprender com os demais alunos. Especialista em psicologia da educação consultado pelo Correio afirma que a inclusão é importante, mas as salas precisam ter estrutura e profissionais bem treinados para que portadores de deficiência sejam beneficiados com o programa (leia texto nesta página).

Os pais temem que os filhos com deficiências como paralisia infantil (poliomielite) sejam deixados de lado e não interajam, como ocorre na sala especial. Eles acreditam ainda que os jovens poderiam correr riscos em um ambiente padrão. A maioria deles não fala, precisa de ajuda para comer e até para ir ao banheiro. Na sala especial, eles têm professora e três cuidadores por jovem, bancados pelo Estado.

Há duas semanas, os pais participaram de uma reunião com a diretora da escola e com a Diretoria Regional de Ensino Leste, que explicou o processo de mudança. Segundo a Secretaria do Estado da Educação, as crianças passarão por uma reavaliação para ver se conseguem se adaptar a uma sala de aula normal. O projeto de inclusão é baseado em uma lei estadual e acompanhado pelo Ministério Público.

A Escola na Vila Nova Teixeira tem a única sala especial da cidade — todas as outras foram fechadas ao longo do tempo. Ela tem rampa de acessibilidade com piso tátil, sala ampla de aula para alunos com deficiência, medicamentos e professores treinados para a tarefa.

Único aluno da classe que se comunica, Michael Gomes, de 27 anos, se considera o “orador” da sala. Há mais de cinco anos na escola, ele é responsável por acolher alunos novos e ajudar nas atividades. “Eu já aprendi muito. Fiz várias amizades. Muitos não falam, mas têm sensibilidade e me reconhecem”, disse. Sua mãe, Aparecida Souza Gomes, de 61 anos, afirmou que o desenvolvimento oral e motor de Michael melhorou muito na classe especial. “Aqui eles têm mais atenção. Acho a inclusão importante, mas o Estado não tem aparato para isso. Temos uma sala especial que funciona. E querem tirar isso de nós”, afirmou Aparecida.

A jornalista Fernanda Terribile, de 42 anos, disse que precisou vencer seus próprios medos para levar seu filho Danilo, de 15, à escola. Depois que conheceu os profissionais e os outros jovens que estudam no local, se sentiu confiante para matricular Danilo. “Ele não fala, não anda, tem uma traqueostomia onde precisa ser acoplado o respirador com frequência e tem deficiência mental. Sei que ele não será alfabetizado. Mas ele está evoluindo muito com o contato social. Fica mais calmo, mais alegre”, contou Fernanda.

A jornalista disse, porém, que não deixaria seu filho frequentar uma sala de aula comum pois acredita que ele não teria o mesmo cuidado. A bailarina Raquel Firmino de Andrade, de 47 anos, tem dois filhos que estudam na classe. Segundo ela, os dois criaram um vínculo com os colegas e professores e quebrá-lo seria um “sofrimento”. “O Estado tem poucas escolas que funcionam. Não faz sentido eles quererem acabar com um serviço que é bom.”

A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo informou que os alunos da sala especial estão sendo avaliados individualmente para o colégio saber se eles têm condições de ir para classes comuns. Ainda segundo a pasta, não há uma decisão sobre o fechamento da sala.