Publicado 06 de Setembro de 2014 - 5h32

Peixes mortos, cheiro insuportável. O Parque Ecológico Professor Hermógenes de Freitas Leitão Filho, espaço que nasceu como reduto de preservação ambiental no distrito de Barão Geraldo, em Campinas, é destruído, dia após dia, pelo despejo de esgoto. A Prefeitura admite que a lagoa está contaminada, mas ninguém sabe dizer a origem das emissões clandestinas.

Pressionada pelas queixas frequentes, o governo municipal solicitou vistorias especializadas da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb), que comprovaram a situação. Só ontem, no entanto, a Secretaria Municipal de Serviços Públicos determinou, oficialmente, que técnicos da Sociedade de Abastecimento de Água e Saneamento (Sanasa) vasculhem as redes coletoras do entorno à procura de defeitos na rede ou pontos irregulares de coleta.

As suspeitas dos frequentadores recaem sobre a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que em meados da década passada já era acusada de direcionar para a lagoa do parque público parte do esgoto do campus. A reitoria informou ontem que toma providências diante das denúncias de irregularidade e garante que vai apresentar à Cetesb, ainda neste mês, seu plano de atuação e relatório de acompanhamento do caso (leia texto no quadro).

Diante dos protestos dos frequentadores, a reitoria determinou que uma equipe própria de manutenção trabalhe para atenuar o quadro. Ontem pela manhã, a reportagem presenciou servidores despejando na lagoa a água que vinha de um caminhão-tanque, estacionado do lado de fora do parque. Segundo o responsável pelo trabalho, a medida promove a “aeração” da lagoa. “Aumentamos a oxigenação da água e salvamos os peixes”, disse, sem se identificar.

Indignação

“O fato é que ninguém resolve a questão da emissão clandestina de esgoto”, disse Tata de Fiori, que trocou São Paulo por Barão Geraldo há 14 anos. “Essa lagoa cheira como o Tietê nos piores dias”, afirmou

A filha dela, a artista plástica Giuliana de Fiori, chegou a fotografar a imagem de dezenas de peixes mortos na lagoa, no começo da semana. Também gravou, com o celular, o depoimento de um funcionário da manutenção do parque, que admitiu que os peixes mortos são retirados da lagoa e enterrados. “É como se quisessem esconder o problema”, disse.

Para o professor Edgard Bueno Júnior, morador do distrito desde 1983, o poder público precisa descobrir, urgentemente, onde estão os pontos clandestinos de emissão de esgoto. “É lamentável caminhar no parque e ver, aqui do meu lado, a água turva, cinzenta.” Outro frequentador, Gilberto Ramos, que também leciona na rede pública, conta que a situação se torna insustentável quando não chove: “Por volta das 11h, no dia quente e seco, ninguém aguenta o cheiro da lagoa. Assim, o povo vai fugir do parque.”

Cetesb constata problema e cobra ações da Unicamp

A Cetesb informou ontem, por nota oficial, que a última vistoria técnica na lagoa, no dia 2, constatou a presença de peixes já mortos ou moribundos, aparentemente por falta de oxigênio dissolvido (OD) nas águas. Foram vistoriadas todas as saídas de águas pluviais afluentes ao reservatório e realizadas coletas de material. As amostras foram encaminhadas para análises laboratoriais. Os resultados são esperados para a continuidade das ações administrativas. De acordo com a agência, todo efluente da Unicamp deve ser encaminhado para a Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) Barão Geraldo, operada pela Sanasa. A agência solicitou da Unicamp a adoção de medidas imediatas, como limpeza do local, aeração dos pontos críticos e medidas para cessar lançamentos indevidos.

A Unicamp contratou, em outubro do ano passado, uma empresa privada para a prestação de serviço de manutenção das instalações hidrossanitárias e para correções de lançamentos indevidos. Segundo a reitoria, no entanto, a empresa que venceu a licitação não cumpriu as obrigações previstas e, em maio deste ano, o contrato foi rescindido. Desde então, a universidade atua com sua equipe própria na manutenção e deu início a novo processo licitatório. A reitoria informou que as “ações mitigadoras” acompanhadas pela Cetesb continuam sendo executadas rotineiramente pela prefeitura do campus. Ainda neste mês, informou a reitoria, a Cetesb vai receber relatório atualizado sobre o serviço. (RV/AAN)