Publicado 06 de Setembro de 2014 - 5h32

Trechos sem acostamento, quilômetros em obras, pistas simples com alta movimentação de veículos, motoristas que não respeitam as leis de trânsito e pedestres que arriscam a vida na travessia fora das passarelas. O resultado é a série de acidentes que vêm ocorrendo na SP-101, a Rodovia Jornalista Francisco Aguirre Proença, conhecida por ligar as cidades de Campinas a Monte Mor. Somente esta semana foram registrados três acidentes, sendo que um deles gerou protestos de moradores, que interditaram a rodovia. A via tem ainda 50 pontos de ônibus rentes à estrada, sem espaço para os ônibus estacionarem e trazendo perigo aos passageiros. Cerca de 74 mil veículos circulam diariamente por toda a SP-101.

O trecho em Monte Mor é onde há mais movimentação: são sete quilômetros de construção, para duplicar a atual pista. Há pelo menos dois desvios do traçado original da pista, onde os motoristas aproveitam para cometer deslizes. O Correio Popular percorreu o trajeto de 22 quilômetros entre as cidades e flagrou seis infrações de trânsito. Foram cinco carros e um caminhão atravessando a pista, com faixa dupla e contínua, o que é proibido. No local, a faixa é ainda pintada de amarelo, que indica sentido de circulação, ou fluxo de sentidos opostos.

No ponto próximo ao quilômetro 18, a reportagem também flagrou uma ultrapassagem, que acarreta multa de R$ 191,54, pois é considerada uma infração gravíssima, e o condutor perde sete pontos na carteira. Em duas passarelas, no trecho ainda em Monte Mor, a reportagem encontrou três pessoas — uma delas com crianças — atravessando a pista dupla a menos de 20 metros da passarela indicada para pedestres.

Somente de janeiro a agosto deste ano, 11 pessoas morreram e 342 ficaram feridas em acidentes na estrada, segundo balanço apresentado ontem pela Concessionária Rodovias do Tietê, responsável pela Rodovia. Na última segunda-feira, a autônoma Vanderleia Pereira, de 47 anos, que trafegava em uma moto, morreu ao ser atingida por um ônibus quando cruzou a rodovia, próximo ao bairro Capuavinha. Revoltados, os moradores fizeram um protesto e bloquearam a estrada para pedir mais segurança.

Outro acidente ocorreu na quinta-feira: um atropelamento e dois acidentes deixaram sete pessoas feridas ontem, em um intervalo de cinco horas. Um veículo capotou as 14h20 na altura do Km 1,3, próximo ao acesso do bairro Boa Vista, sentido Campinas. À noite, uma mulher foi atropelada por uma moto, na altura do Km 18, próximo ao terminal de ônibus Geraldo Benini, enquanto tentava atravessar a rodovia.

A estrada passa por vários trechos urbanos e tem diversos comércios e empresas às margens, o que incentiva o tráfego de pessoas. A rodovia tem velocidade máxima de 80km/h, mas é comum caminhões e carros ultrapassarem o número. Os pontos de ônibus também são problema para a população e para os motoristas, pois a estrada não possui “área de escape”. “Enviamos cartas solicitando readequação da pista à concessionária responsável, mas ainda não obtivemos resposta”, afirmou o gerente de planejamento da VB Transportes, Gerson Rossi.

Perigosa

A insegurança é compartilhada pelos usuários da rodovia, que consideram a estrada difícil. “É uma estrada perigosa, e dependendo do ponto (de ônibus), fica afastado ou escuro à noite. E tem a distância das passarelas, o que também não ajuda”, afirmou a assistente administrativa Driele Aparecida da Silva, de 26 anos.

“Como tem muita obra, a rodovia fica ‘interditada’. Em horário de pico é impossível, tem muito trânsito. De manhã e de noite fica tudo parado. Já vi muito engavetamento”, contou a professora Grazielle Dias Costa, de 26 anos.

Para o especialista em trânsito e professor da Faculdade de Engenharia Civil da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Percival Bisca, o fato da rodovia estar em obras potencializa os riscos normais de uma estrada. “Por mais que a concessionária tome todos os cuidados possíveis, o motorista pode ficar confuso”, disse. Para ele, quando a construção estiver pronta, o trecho em Monte Mor ficará mais seguro, assim como é a pista entre Campinas e Hortolândia.

Outro lado

A concessionária Rodovias do Tietê informou que a rodovia está em duplicação entre os quilômetros 14,6 e 25,7 na região de Monte Mor, e que com a duplicação, ela irá oferecer maior segurança e conforto ao usuário. Acrescentou ainda que quatro novos dispositivos serão entregues, disciplinando o tráfego e eliminando cruzamentos em nível.

A Agência Reguladora de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp) informou que o contrato de concessão da SP-101 é de 30 anos e iniciou em 2009. Desde o começo da concessão foram investidos mais de R$ 937 milhões em todas rodovias administradas pela concessionária.