Publicado 09 de Setembro de 2014 - 7h32

Por Gustavo Abdel

Motociclistas, pedestres e motoristas aguardam a abertura do portão que impede avanço sobre os trilhos durante a passagem do trem, no Centro de Americana

Janaína Ribeiro/Especial para a AAN

Motociclistas, pedestres e motoristas aguardam a abertura do portão que impede avanço sobre os trilhos durante a passagem do trem, no Centro de Americana

“O que mais faz falta quando chego em casa é da alegria que ela transmitia para gente, e das risadas altas.”

 

A declaração é do pintor Matheus Henrique Ribeiro, de 19 anos, filho de Solange Lindaura Moreira da Silva, uma das dez vítimas fatais do acidente envolvendo um ônibus da Viação Princesa Tecelã (VCA) e um trem na passagem da linha férrea do Centro de Americana.

 

Após quatro anos de uma das maiores tragédias de Americana, ocorrida em 8 de setembro de 2010, nenhum familiar ou vítima recebeu indenização. As ações judiciais para ressarcimento por danos morais e lesão corporal seguem em tramitação na Justiça. Elas têm valores entre R$ 13 mil e R$ 200 mil.

Segundo a oficial maior da 1ª Vara Cível de Americana, Margareti Milani Fassoli, os processos estão em andamento e portanto não há definição de pagamento de indenizações. “Os processos seguem a tramitação normal sem possibilidade de definição de prazo para conclusão”, relatou.

Matheus e os três irmãos ainda têm esperança em receber indenização, mas nada vai suprir a falta da mãe.

 

“Uma semana antes ela teve um sonho, como se estivesse indo embora dessa vida”, lembrou Matheus, que estava com Solange, na época com 38 anos. “Ela não deixou eu sentar do lado dela e pediu para que eu ficasse atrás. O trem acertou ela e eu fiquei com a mão presa nas ferragens”, recorda-se.

 

“Nos falaram que a gente receberia R$ 148 mil, mas até agora nada”, disse a filha de Solange, Michele Cristina Ribeiro, de 23 anos.

No momento da batida havia 25 pessoas no ônibus da VCA, que foi atingido por volta das 23h45 pelo trem de carga em uma passagem de nível no Centro, arrastado por cerca de 100 metros e partido ao meio.

 

A composição, que pertence à América Latina Logística (ALL) levava milho, soja e açúcar ao porto de Santos, tinha quatro locomotivas e estava com 77 vagões, cada um pesando 100 toneladas.

A autônoma Maria José de Oliveira Grund, de 52 anos, relata que minutos após o acidente foi ver a movimentação, e se recorda ter ouvido muita gente dizer que o sinal de alerta foi acionado.

 

Ela considera que houve imprudência do motorista do ônibus, Alonso de Carvalho, de 55 anos, em arriscar a travessia.

 

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“O sinal disparou e mesmo assim ele tentou atravessar”, recorda. “Uma tragédia. Muitos sapatos, roupas e sangue espalhados.”

 

Já a diarista Rosa Andrioletti, de 53 anos, lembra do caso pois um estudante da escola onde ela trabalhava estava dentro do ônibus, e foi o primeiro a sair do coletivo retorcido, com a ajuda de uma funcionária também da mesma escola.

Motorista

O motorista sofreu fraturas na nádega e nos braços. Ele foi condenado em 2012 a seis anos e nove meses de detenção. De acordo com o advogado do condutor, Renan Nogueira Farah, em abril a Justiça condenou Carvalho ao pagamento de dois salários mínimos e quatro anos e meio de prestação de serviços comunitários.

 

 

“Ele perdeu uma das nádegas e três dedos e está com uma infiltração na bacia. Caminha com dificuldade, fora o trauma psicológico. Portanto, vai cumprir os trabalhos comunitários desde que estejam adaptados às suas dificuldades”, disse o advogado.

Os cobradores Juvercino Avanzi, de 59 anos, e Domingos Lustre, de 53, e a assistente social da Secretaria de Saúde Luzia Pereira da Silva dos Santos, 42, morreram no local. Os aposentados Benedito Golim, de 74 anos, Neusa Tavares da Silva, 51, Osvaldo Wolff, 75, Ailena Leite Wolff, 76, e Pureza de Jesus Pagani, 72, além de Solange Lindaura Moreira e Silva, 37, morreram no hospital.

 

A Viação Cidade de Americana foi procurada para comentar o assunto, mas informou que não iria se manifestar, por não haver sentença. “É política da empresa, pois ainda está tramitando”, informou, via assessoria.

 

Trilhos preocupam

Os constantes acidentes na malha ferroviária que corta os municípios da Região Metropolitana de Campinas (RMC) reacendem a cada trágico evento a necessidade de retirada dos trilhos das áreas urbanas.

 

Entretanto, em reuniões realizadas pelo Conselho da RMC já se descartou realizar pressão para a retirada dos trilhos, por considerar que os altos custos acabariam inviabilizando o projeto.

No trecho de ferrovia sob concessão da ALL dentro da RMC passam 700 vagões por dia, transportando principalmente soja e açúcar, a uma velocidade de 60 km/h.

 

No caso do acidente em Americana, a medida encontrada após a tragédia foi a colocação de um portão de segurança, que é fechado manualmente quando o trem se aproxima pela passagem de nível.

 

O operador dessa proteção é o funcionário Marcos Roberto Granzotto, de 41 anos, que toda vez que o sinal de aproximação dos vagões é acionado precisa atravessar o trilho e fechar o portão.

 

“Tem motorista que mesmo assim quer passar e joga o carro em cima de mim, para eu largar o portão e ele passar”, relata. Por turno ele faz pelo menos 15 vezes fechadas de portão.

A ALL alega que a colisão em Americana aconteceu após o veículo não respeitar a sinalização da passagem de nível e avançar sobre a linha férrea no momento em que o trem se aproximava.

 

“É importante ressaltar que, de acordo com o Código Nacional de Trânsito, a linha férrea é sempre preferencial, e é infração gravíssima transpô-la sem parar”, diz a nota. Segundo a empresa, serviços de manutenção na via como nivelamento, troca de trilhos e dormentes são sempre realizados.

 

“Em Americana, a concessionária executou, em 2014, obras de sinalização ativa e passiva em passagem de nível e instalação de passagem de nível para pedestres, além de doar à Prefeitura o motor para automatização da cancela”, detalhou.

A concessionária faz campanhas de segurança nos cruzamentos. 

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Gustavo Abdel